segunda-feira, 1 de agosto de 2011

MPB NÃO É TÍTULO DE NOBREZA


O BAILE DA ILHA FISCAL, POR FRANCISCO FIGUEIREDO (NÃO FOI MEU PARENTE) - O Império brasileiro teve sua última festa. Só falta saber qual será a última do império brega-popularesco.

Por Alexandre Figueiredo

A cada ano vamos destrinchando as contradições que os defensores da dita "cultura popular" de mercado deixam em seu discurso. Mesmo evocando o "social", a solidariedade ao "povo das periferias", deixam subentendida sua formação ideológica que a cada dia os faz desmascarar sua pretensão "esquerdista" através da herança ideológica da Teoria da Dependência de FHC.

Mas aqui vamos nos ater à obsessão desses intelectuais paternalistas pela suposta "inclusão social" dos ídolos brega-popularescos, pela promoção deles a "novos gênios da MPB".

Sabemos que essa intelectualidade acusa os contestadores do brega-popularesco, da Música de Cabresto Brasileira, de quererem "idealizar" a cultura popular de acordo com as regras oficiais associadas à MPB de elite.

Mas são eles mesmos que se alegram quando os ídolos do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music da safra 1990-1997 agora fazem uma espécie de "MPB transgênica", um neo-brega com sabor artificial de MPB, feito às custas de muito trainée, muito banho de loja, de tecnologia etc.

Todo mundo gravando clássicos da MPB. O ídolo sambrega gravou Ataulfo Alves, Cartola, Noel Rosa, Wilson Simonal, Jorge Ben Jor, Djavan, até Marquinhos Satã. O ídolo breganejo gravou Renato Teixeira, Ary Barroso, Milton Nascimento, Beto Guedes, Flávio Venturini e até Garoto. A musa do axé gravou Elis Regina, Gal Costa, Zizi Possi, Rita Lee e até Elizeth Cardoso.

O grande problema é que eles, quando gravam eles mesmos, ou seja, seu próprio repertório, nunca estão à altura dos mestres da MPB que tais ídolos "populares" gravam até com certa vaidade e pompa, mas também muito longe da qualidade dos originais.

Até porque seu histórico é claro: no começo de suas carreiras fonográficas, estavam comprometidos com a música brega, mais preocupados até mesmo em cantar sobre baratas da vizinha, tapas e beijos, poeiras que se levantam, amores com gosto de xampu, festas no apê ou para dar alô para "galeras de caubói e de peão".

Querem o status de MPB como os aristocratas do século XIX queriam tanto os títulos de nobreza, como viscondes, condes, barões, duques etc.

Aí a intelectualidade etnocêntrica e seus "deuses" antropólogos, historiadores e críticos musicais "santificados" acham lindo ver ídolos brega-popularescos gravando covers de MPB, ou jogando algum repertório autoral que, pela ação "milagrosa" de outro arranjador, "lembram Ben Jor, Milton ou Elis" ou parecem "Tropicalismo das antigas", como se isso fosse resolver na recuperação da cultura popular brasileira. E há também o caso da cantora que brincou de ser Beyoncé que promete brincar de Clara Nunes e Elis Regina depois.

Sabemos que na prática isso não resolve. Esse papo todo só serve para realimentar os sucessos das rádios FM e TV aberta, as mesmas ligadas a grupos oligárquicos poderosos que faturam por trás dessa "inocente cultura popular das periferias".

Gravar covers de MPB ou imitações de Ben Jor, Milton ou Elis não acrescenta coisa alguma à renovação da Música Popular Brasileira. Os mesmos ídolos da mediocridade cultural de 1990 e 1997 - ou seus derivados de 1999 em diante - apenas seguem o mesmo receituário da MPB burguesa que os artistas de MPB autêntica foram obrigados a fazer tempos atrás e, indignados, saíram das grandes gravadoras.

Aí sobraram os sambregas, breganejos, axezeiros, funqueiros, forrozeiros-bregas nas grandes gravadoras para fazer aquilo que a MPB de verdade se recusou a fazer. Fazem as mesmas regras que entediam os intelectuais que não saem dos seus pedestais.

Reclama essa intelectualidade, de pretensos semi-deuses, que Francis Hime e Chico Buarque cansam por seguir as mesmas lições de mestre Tom Jobim. Mas, contraditoriamente, aplaudem quando o cantor de sambrega que bate ponto na TV aberta tenta fazer o mesmo.

Pelo menos Francis Hime e seu caro amigo Chico Buarque têm conhecimento de causa e podem fazer obras inovadoras mesmo dentro do tom da maestria do mestre Tom. Mas o cantor de sambrega, não.

O cantor de sambrega precisa fazer trainée para parecer "certinho" e cumpridor das "boas normas" da "MPB burguesa", mas isso não impede que ele venha a gravar um arremedo de Julio Iglesias com pandeiro e cavaquinho e achar que está fazendo Bossa Nova.

Além do mais, chega um ponto que o repertório de MPB regravado pelos neo-bregas vai escassear. Até os covers se repetem, como a música "Tocando em Frente", de Renato Teixeira, "Como Nossos Pais" de Belchior e "Nervos de Aço", de Lupicínio Rodrigues. No ano é um ídolo neo-brega gravando qualquer dessas músicas. No ano seguinte vai outro.

Mas até quando o ídolo sambrega (ou breganejo, axezeiro, funqueiro etc) tenta parecer correto soa forçado, burocrático, e no fim o cantor sambrega só será lembrado nas noites ébrias dos bares e botequins de subúrbio, o título de MPB não impede que ele continue sendo rejeitado pelo público mais exigente. No fim, é aquela conversa: "Tá legal, ele 'também' é MPB, mas tire seus CDs daqui. Bota tudo lá no estúdio da Nativa FM, pelo amor de Deus".

Tratar MPB como título de nobreza para dar gratuitamente à mediocridade musical nunca irá fortalecer a cultura das classes populares. Só substituirá uma "dinastia" por outra. No lugar dos Jobins, Buarques, Nascimentos, haverá apenas a turma neo-brega de 1990-1997.

Uma nova dinastia que até tem origem humilde, mas que estará sempre entregue ao mesmo esquemão de luxo e pompa que irrita os críticos oportunistas da MPB. Mudam-se os personagens, mas o esquema tende até a piorar, porque, pelo menos, aquela "elite sofisticada" herdeira do mestre Tom tinha conhecimento de causa e fazia músicas que duraram para sempre.

Já a turma neo-brega que os intelectuais paternalistas querem ver no primeiro time da MPB só conseguem encher plateias de vaquejadas, rodeios, micaretas, "bailes funk", plateias de programas de TV aberta e festivais de agropecuária. Nenhum deles faz uma música que deixasse marca por si mesma.

Periga essa turma neo-brega usar o rótulo de MPB como mero título de nobreza, vivendo na ociosidade dos mesmos CDs/DVDs ao vivo, com muita pompa, muito luxo, muita tecnologia e muito, muito marketing. Cultura que é bom, nada. Só sucessos radiofônicos para enriquecer as oligarquias que controlam o povo das periferias.

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