quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MEDO FAZ CLASSE MÉDIA DEFENDER BREGA-POPULARESCO


PROTESTOS EM LONDRES - Lá, a coisa explode. Mas aqui todo mundo tem que ficar quietinho para ver os "sucessos do povão" no galpão mega-shows mais próximo.

Por Alexandre Figueiredo

É sempre assim. Quando os noticiários estrangeiros mostram as revoltas sociais diante das crises produzidas pelo capitalismo ou pela corrupção ou prepotência políticas, a classe média brasileira investe na dócil campanha pelo brega-popularesco, aquilo que seus ideólogos e simpatizantes entendem como "cultura popular".

Parece uma demonstração de pura poesia, de pura solidariedade, mas o que está em jogo na classe média ilustrada do Brasil é o mesmo medo que assombrava a "boa sociedade" do século XIX quando se falava em abolir o regime escravo no país.

Da mesma forma que os aristocratas do Segundo Império falavam que abolição da escravidão traria guerra civil no Brasil, hoje a tão "iluminada" aristocracia fala que o povo brasileiro tem que se tornar culturalmente subordinado, na sua "bela ignorância" que é um "outro tipo de sabedoria que nós não sabemos".

Afinal, para essa intelectualidade ilustrada, não temos que ter preconceito com o "outro": temos que ter preconceito contra nós mesmos.

Da mesma forma que a "boa sociedade" do período imperial dizia que a escravatura era a única fonte de renda segura no país, hoje seus equivalentes "progressistas" dizem que o espetáculo liberal-populista do brega-popularesco (um padrão de "cultura popular" baseado na domesticação do povo pobre e no enfraquecimento das identidades regionais) gera empregos e mobiliza um mercado estável, produtivo e lucrativo.

São os mesmos temores do século XIX e do século XXI, mas dentro de contextos bem diferentes. Mas, certamente, com uma analogia bem mais verdadeira do que o suposto moralismo que a "boa sociedade" de hoje atribui a quem rejeita o "funk carioca", cujo sucesso hoje nada tem a ver com o que o maxixe e o samba-de-roda tiveram naqueles tempos.

Até porque o maxixe e o samba foram rejeitados mediante valores morais extremamente rígidos. E o "funk" é rejeitado mediante valores morais muito mais flexíveis. Mas isso é uma questão a ser trabalhada em outro texto.

O que se questiona aqui é a paranóia da "doce classe média" intelectualizada, assustada com os movimentos sociais que ocorrem lá fora, e aqui na América do Sul já acontecem no Chile, com os estudantes protestando contra o regime neoliberal do presidente Sebastián Piñera (seguidor de Pinochet e ligado ao catolicismo medieval da Opus Dei, a mesma do governador paulista Geraldo Alckmin).

E, somando a isso os protestos que ocorrem na Espanha, França, Itália e Reino Unido, e os do Oriente Medio, a iniciativa popular assusta a nossa intelligentzia, para a qual "movimentos sociais" no Brasil têm que ser tão somente o deslocamento passivo do "gado humano" para consumir os sucessos radiofônicos do brega-popularesco.

Isso na melhor das hipóteses. Porque para a classe média "sem preconceitos", mas bastante preconceituosa - mas um preconceito "do bem" (ou do DEM?) - aplaude quando o povo pobre se limita a "balançar o popozão" no "baile funk" ou a tão simplesmente movimentar os copos de cerveja nas tardes e noites alcoólicas no fim-de-semana.

É evidente que não teremos guerra civil se estimularmos, por si só, os movimentos sociais. é delírio de uma elite que só quer ver o povo pobre domesticado, consumindo seus sucessos e produzindo uma "linha de montagem" que a intelectualidade etnocêntrica, do alto de seus condomínios, define como "cultura das periferias".

Acham que um novo Jackson do Pandeiro, um novo Luiz Gonzaga irão fazer com que o povo pobre saqueie supermercados e promova arrastões nas praias. Preferem que um falso "jackson do pandeiro" surja de um Psirico da vida, ou um falso "gonzagão" apareça num forró-calcinha qualquer. Bobagem.

O povo mais inteligente e culturalmente mais forte é que está mais preparado para exercer a cidadania. Protesta, age até de forma enérgica contra os desmandos do poder, mas tudo isso dentro do combate de ideias.

Por outro lado, vemos o tão "pacífico" "funk carioca" que a intelectualidade divinizada tanto defende, mostrando frequentadores de "bailes funk" cometendo assassinatos a esmo, praticando pedofilia e outras barbaridades.

Para a classe média ilustrada, consumir passivamente sucessos "populares" e produzir "bens culturais" dentro dos padrões do "deus mercado" é bem melhor do que ir às ruas para defender a reforma agrária. E essa classe ainda reclama quando criticamos sua visão tão "poética" sobre o que entendem por "cultura popular"...

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