domingo, 7 de agosto de 2011

JOSÉ SARNEY E ACM: ELES TAMBÉM SÃO "GENTE DAS PERIFERIAS"?



Por Alexandre Figueiredo

O que os ideólogos da suposta "cultura das periferias" - eufemismo para a pseudo-cultura do brega-popularesco - insistem em ocultar no seu engenhoso discurso é que essa suposta "cultura popular" foi condicionada por cenários político-midiáticos conservadores.

Em épocas e regiões onde o poder direitista, de cunho latifundiário, coronelista ou simplesmente oligárquico, se expressa com muita força, há uma mídia que, por mais regional que seja, respalda esse mesmo poder. E que, dependendo de quem controla essa mídia, ela pode se tornar grande mídia na sua dimensão mais específica, que é o âmbito regional, seja estadual ou metropolitano (quando reúne um grupo de cidades próximas).

Essa mídia não pode ser creditada como "alternativa" nem como "pequena" ou "nanica" só porque não possui escritórios representativos na Av. Paulista, em São Paulo. Até porque seu poderio, seu padrão de trabalho, é o mesmo de qualquer veículo da grande mídia.

Da mesma forma, muitas gravadoras "pequenas" também não são "independentes" porque, apesar da "pequena" estrutura, seguem a mesma lógica das grandes multinacionais. Elas têm QI de multinacional, por mais que alguns oportunistas afirmem o contrário.

O brega-popularesco sempre foi uma forma diluída de cultura popular, manobrada pelo mercado, de forma direta ou indireta. Muitos defensores se irritam com essa associação, e outros até gracejam quando se fala do empresariado que está por trás.

Mas o caso do Som Zoom Sat, empresa que comanda o mercado de forró-brega, e o apoio do latifundiário à dita "música sertaneja" - recentemente, os demotucanos Chitãozinho & Xororó lançarão um DVD comemorativo, depois de um disco "erudito" - , são fatos que nenhum troleiro que xingue os blogueiros progressistas de "patéticos" e lhes dirijam grosserias poderá negar.

Os primeiros ídolos cafonas foram respaldados por rádios regionais que se alinhavam com o poder latifundiário estadual ou metropolitano. O primeiro a se projetar nacionalmente, Orlando Dias - pseudônimo de José Adauto Michiles que não pode ser confundido com o do cantor das multidões Orlando Silva - foi apadrinhado pelo megaempresário Abraham Medina, pai do organizador do Rock In Rio, Roberto Medina, e dono da rede de eletrodomésticos O Rei da Voz.

Medina pai até criou uma "pegadinha" que fez o executivo fonográfico André Midani, ingenuamente, creditar o sucesso de Orlando Dias - dos sucessos "Tenho Ciúme de Tudo" e "Perdoa-me Pelo Bem Que Te Quero" - a um processo espontâneo, porque, aparentemente, ele não se deu pela execução radiofônica pelos idos de 1958 (os dois sucessos supracitados são de 1961).

Mas as próprias lojas foram responsáveis pela execução dos sucessos do cantor, da mesma forma que vemos hoje, nas redes de eletrodomésticos e de atacado e varejo - incluindo poderosas redes de supermercados - quando tocam ídolos "sertanejos" e do "pagode romântico".

O regime militar, para o bem e para o mal, influiu no crescimento da música cafona, até para neutralizar a MPB de esquerda - e hoje hostilizada por uma intelectualidade "de esquerda" (?!). Alegria, Alegria! Tom Jobim morreu, viva Nelson Jobim! - que se apresentava nos festivais de música brasileira e em programas de TV (incluindo a TV Excelsior, depreciada pelo regime militar).

Afinal, ainda que alguns ídolos cafonas tenham sofrido censura do regime militar, os motivos para isso nem de longe eram sérios, apenas ligados a pequenos exageros ligados ao comportamento. Aliás, o próprio regime militar não foi muito rigoroso na repressão daqueles que apenas se "rebelavam" no vestuário, nas gírias e na liberdade sexual, desde que não estejam associados a atividades esquerdistas.

Dizem boatos que, se os policiais do DOI-Codi detiam muitos bichos-grilos, era para tomar deles os "baseados" que seriam usados pelos próprios militares da temível instituição.

Além disso, associar "Torturas de Amor", um sucesso de 1962 de Waldick Soriano, à uma suposta alusão ao regime militar, é tão fictício quanto aquela alusão ao dramaturgo grego Sófocles humoristicamente relatada por Stanislaw Ponte Preta no primeiro de seus livros da série FEBEAPÁ, Festival de Besteiras que Assola o País.

As rádios que tocaram sucessos cafonas foram as que apoiaram o regime militar. E não podemos generalizar que todo serviço de auto-falantes ou rádios comunitárias seja necessariamente de gente progressista. Um mito comparável ao fato da grande imprensa ter sempre combatido o regime militar, que hoje está plenamente contestado.

Pois existem rádios comunitárias e rádios comunitárias. Existem rádios comunitárias montadas por sindicatos, movimentos de agricultores, projetos educacionais, etc, mas existem também outras rádios comunitárias criadas por capatazes, políticos locais ou grandes comerciantes, estas mais poderosas financeiramente e cuja "modesta estrutura" é apenas porque a direita local quer investir numa "mídia popular" como um canal de domínio social.

Em outras palavras, a mídia comunitária possui uma linguagem específica, e as elites que podem criar grandes rádios também são obrigadas a criar "rádios comunitárias" vendo as caraterísticas específicas dessa mídia, desenvolvendo assim um canal midiático que tenha um tipo de penetração que a superestrutura das grandes rádios não podem, por sua natureza, exercer.

Pois os sucessos cafonas foram usados para combater todo o trabalho do Movimento de Cultura Popular de Paulo Freire e seus seguidores. Para que se combata a emancipação das classes populares, o latifúndio já havia, desde o final dos anos 1950 - época do crescimento das Ligas Camponesas que reivindicavam reforma agrária - , criado um paradigma de "cultura popular" que se consolidou ao longo de todo o regime militar.

É um paradigma que se baseia na inferiorização das classes populares, em todo o seu processo, nos seus desejos, na sua produção artística, na sua capacidade opinativa e informativa, desviando todos os seus focos em assuntos supérfluos, pitorescos, numa arte medíocre que é ao mesmo tempo estereotipada, caricata e apátrida.

O povo pobre não pode mais fazer baiões e sambas com forte acento local. Mas podem fazer imitações "regionais" de country e boleros muito mal tocados. O povo pobre não pode desejar a reforma agrária, mas pode desejar a "boazuda da hora", no caso dos homens, ou apreciar ninharias místico-religiosas, no caso das mulheres.

O grande problema é que a construção desse ideal de "povo pobre" contaminou as gerações recentes, que acham que o "verdadeiro povo" se comporta dessa forma construída ao longo dos anos durante o regime militar.

Critica-se esse estereótipo de "povo pobre" e de "cultura popular" e muitos incautos ou cínicos imaginam que isso é chilique da direita elitista e saudosista dos "áureos tempos". E há uma intelectualidade divinizada que aprecia essa forma deturpada de cultura das classes pobres, num apoio cuja gravidade já citamos em outros textos.

O apoio do regime militar aos ídolos cafonas se deu sobretudo através das rádios e TVs que defendiam o regime, que só eram "contra" a censura porque ela demorava a liberar material, mas defendiam a auto-censura por uma mera questão de agilidade nos trabalhos, mas em plena conformidade aos ideais da "revolução de 64".

Na redemocratização, tal apoio se deu quando, já consolidado esse processo - de uma forma meio oportunista - com o governo de José Sarney, o então presidente e o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, fizeram uma concessão de rádios e TVs para empresários e políticos (incluindo empresários que não eram necessariamente políticos e que se diziam "idôneos" e "isentos") que apoiassem os dois políticos, expressões do poder oligárquico no Maranhão e na Bahia (onde o poderio carlista segue discretamente nas mãos dos seus herdeiros).

O episódio, realizado entre 1985 e 1987, tem seus efeitos minimizados conforme os interesses de quem relata os episódios. Seus interessados, aliás, tentaram minimizar o máximo o grau de politicagem, sem negar que as concessões existiram. Assim, tentaram atribuir a politicagem apenas a pequenas emissoras do interior dos Estados brasileiros, de preferência de políticos pouco expressivos e pouco habilidosos no processo de corrupção política.

Mas, no entanto, as concessões de Sarney e ACM favoreceram muitos "peixes grandes" da política e da mídia. Vejamos:

Primeiro, fez o rádio FM partir para a cima das emissoras AM, reproduzindo, muitas vezes de forma grotesca e pedante, a mesma programação, com uma sobrecarga "informativa" de causar náuseas e vômito, mesmo com jornadas esportivas pedantes e cansativas.

O processo favoreceu de tal forma os interesses políticos e econômicos que desde a Era FHC a "Aemização das FMs" ganhou uma "racionalidade" demotucana e um pretenso "profissionalismo" das emissoras. Isso empurrou "AMs de verdade" para a Frequência Modulada, dizimando rádios FM musicais inigualáveis e botando à falência AMs de menor porte que viram suas concorrentes mais fortes migarem para outra frequência.

A politicagem favoreceu não apenas políticos de fundo-de-quintal, criadores de galinhas de pequenas cidades rurais, mas "caciques" como Mário Kertèsz e o "cartola" Luís Estevão, além de oligarquias paranaenses como a famiglia Malluchelli, todos se apropriando da opinião pública e fazendo politicagem muitas vezes sem a roupagem partidária, mas através do jogo midiático que cada vez mais se tornou a alternativa da política partidária na manobra dos interesses privados.

E, por fim, a politicagem fez a cultura popular sofrer uma queda livre de qualidade, fazendo crescer todo um sistema de valores medíocres, que se baseiam na visão preconceituosa de que o povo tem que permanecer na sua inferioridade e buscar valores e crenças dentro dos limites da miséria e da ignorância. Não é preciso detalhar o apoio explícito que Antônio Carlos Magalhães deu para a axé-music, o breganejo e o sambrega também respaldados pela grande mídia.

Só que, hoje, uma campanha feita por dissidentes da mídia demotucana e por antigos simpatizantes do Projeto Folha, agora travestidos de "esquerdistas", tentam definir essa visão deturpada como se fosse "a verdadeira cultura das periferias".

Glamourizam a miséria, a degradação social e a ignorância popular num discurso que se mantém sob um forte apoio intelectual, um discurso engenhoso e etnocêntrico, um "etnocentrismo do bem" que tenta nos fazer crer que "o povo pobre sabe sem saber" e "nós é que não sabemos sabendo", numa inversão alucinada, quase lisérgica, entre os sentidos de ignorância e conhecimento.

Atribuem a todo esse mercadão midiático - que na verdade conta com o apoio até das mesmas multinacionais e do mesmo latifúndio que controlam o conservadorismo político - como a "cultura das periferias". E acreditam, triunfantes, que todo esse espetáculo brega-popularesco sairá incólume na faxina midiática da regulamentação dos meios de comunicação brasileiros.

Até que um Paulo César Araújo ou Pedro Alexandre Sanches caiam de seus pedestais e percam sua aura divinizada dos seus fãs deslumbrados, há quem creia que a nossa Ley de Medios mantenha todas as baixarias, cafonices e grosserias que vemos e ouvimos na TV aberta e nos rádios, ou até mesmo aqueles neo-bregas que agora fazem "MPB de mentirinha" no Domingão do Faustão (certos que farão o mesmo na TV Brasil daqui a cinco anos).

Talvez seja preciso alguém com maior visibilidade que esses astros da intelectualidade para vermos que essa crença delirante não faz o menor sentido.

Senão, teremos que nos convencer que até Sarney e ACM também representam o "povo das periferias", por conta do entretenimento que eles claramente defenderam.

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