quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A FALTA DE MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL


NO CHILE, JOVENS ENFRENTAM ATÉ A POLÍCIA PARA SE MANIFESTAR. MAS AQUI "MOVIMENTO SOCIAL" É TODO MUNDO IR AO VIBE SHOW PARA OUVIR AS MAIS-MAIS DA NATIVA FM.

Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, na rede Record News, o jornalista Rodrigo Vianna, também responsável pelo blogue Escrevinhador, entrevistou o veterano político Plínio de Arruda Sampaio, que disputou a campanha eleitoral de 2010, e o jornalista e professor universitário Igor Fuser.

Comentando os movimentos sociais que ocorrem no exterior, os dois lamentam a falta de movimentos sociais de grande envergadura no Brasil. Reconhecem que, no exterior, os movimentos sociais, com suas falhas, sua desorganização e até mesmo a indefinição ideológica de alguns deles, pelo menos acontecem e expressam sua força.

Mas no Brasil "movimento social" ainda é o dos glúteos no "funk carioca", um dos carros-chefes de toda essa retórica demagógica do brega-popularesco, de uma intelectualidade festiva que, com medo de pagar salários melhores e encargos sociais para suas empregadas, bajulam o que estas ouvem no rádio FM e veem na TV aberta.

Bajulam "com categoria", em artigos, documentários, monografias, reportagens, ensaios, cinebiografias etc. Produções que, pelo seu sentimentalismo forte, transformam gente como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches em verdadeiros totens inabaláveis.

Raphael Tsavkko Garcia escreveu um artigo interessante, que se queixa dos deslizes do governo Dilma Rousseff e da preocupação de boa parte da esquerda brasileira em creditar como cidadania a mera inclusão das populações pobres no mercado de consumo. Como se promover consumismo fosse promover a cidadania.

No âmbito cultural, sabemos que isso significa dar continuidade à mesma pasmaceira "popular" que esteve em alta rotação na Era Geisel, na Era Collor e na Era FHC. Um modelo de "cultura popular" que foi teoricamente elaborado pela mesma elite da USP que fizeram parte Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

Nesse modelo, tenta-se reabilitar os antigos "sucessos do povão" com a imagem de "coitadinho" do antigo ídolo "popular". "Fulano foi escorraçado, fulano foi massacrado", como se tais ídolos nunca tiveram feito sucesso, só recebendo "pedrada".

Esse discurso melodramático, muitas vezes risível, no entanto soou convincente para muita gente, mas fez o preço de levar a sério demais ídolos bregas e neo-bregas que somente promoviam o consumismo das classes pobres.

Mas esse discurso começa a cansar e todo o endeusamento a que foram submetidos os intelectuais que desenvolveram o discurso brega-popularesco - vários infiltrados na esquerda - começa a ser posto em xeque.

Oficialmente, ainda continua valendo a visão deles. Waldick Soriano, ainda que tenha sido na verdade um direitista retrógrado, é oficialmente visto como "inimigo da ditadura". As popozudas são coitadinhas que exibem seus glúteos exagerados para pagar a escola do filhinho ou para ajudar a mãezinha. Os funqueiros são os coitadinhos discriminados pela sociedade (que sociedade?). Enfim, toda essa pasmaceira toda.

Esse discurso todo nada contribui para fortalecer as classes populares, antes as enfraquece na medida em que os sucessos musicais, os referenciais e os valores que elas consumiram desde o regime militar são vistos como "grande coisa". Exaltam a mediocridade cultural como se fosse alguma coisa "nobre" que "não conseguimos entender".

Queremos uma nova cultura popular, sem as rédeas da grande mídia, e somos acusados de "moralistas", "preconceituosos" e "elitistas". São acusações que a elite demotucana da USP fazia contra os CPC's da UNE, desde os anos 80. Por outro lado, os mesmos demotucanos aplaudem quando se vestem os ídolos neo-bregas da Era Collor de smoking e gravam com orquestra num cenário de luxo.

Surpreende a lucidez de Rodrigo Vianna, um blogueiro pouco apreciado pelos leitores de blogues progressistas menos iniciados (inclusive alguns pseudo-esquerdistas). Membro do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, ele até trabalhou na Rede Globo, mas teve a humildade de reconhecer que mudou de plano midiático e que teve experiência de trabalhar numa mídia conservadora que ele agora enxerga de maneira crítica.

Não é como um endeusado Pedro Alexandre Sanches que desceu na mídia esquerdista de pára-quedas e o máximo que pode escrever é um texto infantil sobre um abraço de Lula e Dilma. Filhote da Folha de São Paulo, ele nunca rompeu com o padrão ideológico cultural do antigo jornal, continua pensando igualzinho seus antigos colegas que ainda trabalham no jornal do Otávio Frias Filho.

Eu fico imaginando a rota de colisão de Pedro Sanches com a mídia esquerdista. Rodrigo Vianna, que tem a coluna Tacape, na Caros Amigos, já se queixou do continuísmo de um padrão demotucano de "cultura popular" (o mesmo brega-popularesco).

Já Sanches, da coluna Paçoca, é o propagandista dessa mesma pseudo-cultura. Chegará um dia em que o tacape e a paçoca entrarão em choque.

Um comentário:

  1. Não é fácil integrar movimentos sociais, Alexandre. Mesmo associações, que eu enxergo como tal. Digo isso de experiência própria, fazendo parte de uma associação de moradores e da Associação de Funcionários da Controladoria Geral do Município do Rio. Nós temos dificuldades, mas continuamos caminhando. Sabendo que conquistas se ganham. Jamais devem ser perdidas.

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