terça-feira, 23 de agosto de 2011

FALSA ANTROPOFAGIA CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

Nem tudo é antropofagia cultural. A assimilação de influências estrangeiras na música brasileira ocorre de duas formas: quando a ótica local prevalece e quando a ótica estrangeira prevalece.

Muitos pensam que qualquer influência estrangeira assimilada no Brasil é necessariamente uma antropofagia cultural, porque em muitos casos a mediocridade artística de certos fenômenos nacionais expressa uma fraca identidade local, em frouxas expressões da cultura local.

Esta mediocridade cultural mostra expressões caricatas que não revelam uma regionalidade forte, mas muito antes um provincianismo caricato, subordinado ao poder radiofônico e televisivo, formas de transmissão dos valores neoliberais para as populações pobres.

A antropofagia cultural, pensada por Oswald de Andrade, só ocorre quando a influência estrangeira, podendo ser até um estilo todo estrangeiro, é introduzida mas subordinada à linguagem nacional. Como foi o caso do Rock Brasil, que se moldou em linguagens bem brasileiras.

Não sejamos ingênuos em dizer que isso ocorre necessariamente porque o produto cultural é expressado em língua portuguesa e por brasileiros. No entanto, os ideólogos do brega-popularesco - pretensa "cultura popular" que, provinciana e entreguista, une o coronelismo local com o neoliberalismo associado ao poder dos EUA - tentam desconversar de outra forma.

É como pode-se ver nos argumentos desesperados de Pedro Alexandre Sanches em prol dos seus queridinhos do tecnobrega. Ele tenta dizer que o estilo "é muito mais do que mera influência estadunidense". O texto dele sobre o tecnobrega, em especial Gaby Amarantos - que, depois de brincar de Beyoncè, promete brincar de Clara Nunes, Elis Regina ou Gal Costa - , intitulado A Índia Negra Branca do Pará é um típico exemplo disso.

Neste texto, como num outro mais recente, Sanches tenta definir o brega-popularesco como algo "bem brasileiro". Mas o "lindo texto" sobre Gaby Amarantos é, na verdade, um desfile dos delírios etnocêntricos do jornalista, e o longo texto não é mais do que uma coleção de referências que só existem na imaginação do colonista-paçoca.

Afinal, se o "povão" do Pará não conhece Itamar Assumpção, muito menos Oswald de Andrade. Só Sanches conhece, e ele apenas emprestou uma visão paternalista para definir um reles estilo da música comercial, que se serve puramente do cardápio radiofônico das FMs controladas por oligarquias nacionais ou regionais. Só isso.

Ouvindo com muita atenção os sucessos popularescos, nota-se que eles não vão muito além da influência estadunidense. Apenas traduzem as influências numa linguagem superficialmente local, que não produz conhecimento nem valor artístico. São apenas sucessos para consumo momentâneo.

Não há como creditar uma criatividade que não existe. Estilos brega-popularescos são marcados pela "linha de montagem", onde a "matéria prima" vem de fora, dos valores dos filmes enlatados, da mediocridade sensacionalista da TV aberta, dos sucessos fáceis do rádio, geralmente hits, blockbusters, modelos de programação comercial de TV de Miami, tudo isso assimilado sem a menor visão crítica sequer.

Na antropofagia cultural, a assimilação do elemento estrangeiro é feito de forma crítica. Não é um mero capricho de "traduzir localmente" o que vem de fora, mas verificar criticamente o elemento estrangeiro, assimilá-lo não de forma subordinada, é ver o exterior mas sem deixar de enxergar o que há dentro do seu lugar.

O brega-popularesco sofre uma espécie de hipermetropia cultural. Se vê muito bem o que passa lá fora, pelo filtro populista e sensacionalista da TV aberta e das rádios FM. Mas se vê muito mal o que se passa por perto.

Como quem vê cabelo em ovo, os ideólogos do brega-popularesco veem criatividade onde ela inexiste, e ainda reclamam daquilo que dizem ser "preconceito", que é a rejeição que os ídolos que tocam nas rádios "do povão" (mas de propriedade de grupos oligárquicos nacionais ou locais) sofrem.

Só que o maior preconceito que tais ideólogos sentem é contra eles mesmos. Eles tentam minimizar as coisas, deixando questões estéticas de lado. Mas eles é que são preconceituosos consigo mesmos, porque não percebe que o brega-popularesco não compartilha das nobres informações que seus ideólogos tão habilmente dizem possuir.

Até agora as pessoas que ouvem o tecnobrega estão pouco se lixando sobre o tal do "dotô osváldi".

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