quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ENTENDENDO MELHOR A CULTURA DE DIREITA


REINALDO AZEVEDO E PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Dois lados de um mesmo disco.

Por Alexandre Figueiredo

A ingenuidade maniqueísta em que se encontra a intelectualidade média brasileira faz com que certas coisas não sejam percebidas.

Ignorando sutilezas e armadilhas, essa intelectualidade, talvez por uma inocência paternalista, ou por algum cinismo elitista enrustido, define esquerda e direita pela postura escancarada com que se elogia ou xinga as classes populares e seus representantes político-midiáticos.

O maniqueísmo torna-se, dessa forma, passível de erros, o que permite que muita gente de direita seja considerada "esquerdista" pela maneira paternal com que suas mãos acariciam as cabeças dos cidadãos pobres de seu convívio direto, como empregadas domésticas, porteiros de prédio e tudo o mais.

Já falamos muito da ação de pseudo-esquerdistas, e eles representam muitas vezes uma das faces mais sutis e perigosas da militância cultural de direita, pessoas que muitas vezes se infiltram nas causas esquerdistas sob o intuito de brecar os avanços sociais e manter o controle sócio-cultural das elites sobre as classes pobres em continuidade.

A cultura de direita, traçada sutilmente a partir das atividades do IPES nos anos 60, o "instituto" de pesquisas e estudos sociais que, na verdade, era uma espécie de partido político "informal" da burguesia brasileira, envolve uma "cultura de massa" que enfraqueça as identidades regionais e nacionais e a auto-estima popular, através de uma cultura "brasileira, mas nem tanto" enxarcada de estereótipos tragicômicos das classes pobres e de referenciais "universais" ditados pelo imperialismo.

A cultura de direita tem por objetivo separar as manifestações culturais de qualidade - que fortaleceriam a auto-estima e a identidade social das classes populares, o que estimularia sua mobilização política - para o usufruto privado das elites mais elitistas, enquanto o povo passa a consumir um padrão de "cultura popular" previamente estabelecido por emissoras de rádio e TV controladas por grupos oligárquicos.

O que oficialmente se conhece como "cultura de direita" por setores dominantes da opinião pública é tão somente a metade do processo. Entende-se o direitismo cultural, neste caso, apenas o protecionismo erudito das classes abastadas, uma paranóia "purista" e uma relativa apreciação à cultura das classes pobres do passado, apenas como um simulacro de identidade cultural brasileira.

Mas a outra metade do processo se mostra muito sutil e traiçoeira, embora se esforce de todas as formas para dar a falsa impressão de "verdadeira solidariedade às classes pobres", nem sempre de forma lógica e coerente, ou talvez até quase nunca. Mas sempre apelando de forma sentimental, buscando convencer a opinião pública de que a "cultura de massa" é o "novo folclore brasileiro".

CENTRO-DIREITA

A direita cultural que se compromete com o protecionismo erudito de seu patrimônio cultural, na verdade, é uma facção de extrema-direita, comprometida com a defesa dos interesses das próprias elites.

É essa a direita representada sobretudo por jornalistas políticos ranzinzas, celebridades excessivamente moralistas, estudiosos culturais radicalmente elitistas, que defendem os interesses de gente granfina, abastada, que entendem por "civilizada" e "formadora de opinião".

Mas o outro lado, em que pese sua aparente generosidade para com as classes pobres, também demonstra seu elitismo que até é explícito, mas é o "bom elitismo" do moleiro do conto "O amigo dedicado", do escritor e pensador socialista Oscar Wilde.

Esta é a centro-direita da abordagem cultural conservadora. Afeita a defender o comercialismo cultural brasileiro - o brega-popularesco de popozudas, jornalistas-broncos, imprensa populista, cantores bregas e neo-bregas - como se fosse a "verdadeira cultura popular", eles contam com um sofisticado e engenhoso esquema de pregação ideológica, a ponto de alguns de seus ideólogos se infiltrarem na imprensa esquerdista, como é o caso do "filhote da Folha" Pedro Alexandre Sanches.

O ÍDOLO "POPULAR" COMO UM "COITADINHO"

O método usado por essa campanha é confuso, contraditório, mas vale pelo sentimentalismo fácil que inspira nas pessoas. Monografias, documentários, reportagens, resenhas, críticas são lançadas para promover a hegemonia do brega-popularesco agora acima da MPB e do folclore brasileiro, cada vez mais postos à margem da apreciação pública ou, quando muito, só veiculadas quando associadas ao comercialismo de celebridades bregas, neo-bregas ou vulgares.

A ideia central é manipular a ideia de inferioridade social das classes populares de uma maneira sutil e enrustida. A visão elitista de que o povo pobre é uma "ralé do mais baixo nível" é carinhosamente diluída num discurso em que essa inferioridade é entendida como uma "superioridade" que nós "não conseguimos" entender.

Assim, sem que se defenda uma real melhoria para as classes populares, inverte-se o seu quadro de inferioridade, que não é resultante de qualquer paranóia moralista, mas do sistema de desigualdades sociais que a economia, a política e mesmo a cultura impõem na sociedade.

Dessa forma, os problemas sociais passam a ser vistos como "soluções", dentro da manobra elitista de dar ao povo pobre a impressão de que resolverá sozinho seus problemas, isentando as autoridades de qualquer atividade que possa resolver as desigualdades sociais, muitas delas consequentes do abuso de poder econômico das elites.

Em outras palavras, isenta-se as elites da culpa pelas desigualdades sociais e transforma-se subúrbios e zonas rurais em verdadeiras Disneylândias do entretenimento pobre, sem melhorias sociais autênticas, apenas uma relativa "inclusão social" dentro dos padrões do consumismo.

Nesse discurso engenhoso, transforma-se "burrice" numa "nova inteligência". A "alienação" é uma "nova identidade social" numa suposta integração entre global e local dentro dos padrões da grande mídia.

REINALDO E PEDRO

Para entender melhor essas duas vertentes, nada como compararmos o caso de Reinaldo Azevedo, colunista de Veja, e o Pedro Alexandre Sanches, cria da Folha de São Paulo que (por enquanto) passeia pelas redações da imprensa esquerdista.

Aparentemente, são jornalistas diferentes. Reinaldo não gosta de "funk" e Pedro gosta. Mas a verdade é que os dois servem a um mesmo propósito elitista de impedir que o povo pobre se fortaleça culturalmente.

Dessa forma, Reinaldo Azevedo defende o gosto pessoal de dondocas e doutos. Pedro Sanches parece defender as empregadas e os choferes das dondocas e doutores, mas no fundo defende mesmo é o mecanismo de controle do radinho e da televisãozinha que as empregadas e os choferes consomem.

Daí o discurso enrustido de Pedro Sanches que, aparentemente, soa agradável e positivo. Mas é o mesmo discurso de privar o povo pobre do aperfeiçoamento cultural, obrigando-o a se contentar com a mediocridade vigente há mais de 40 anos, uma "cultura popular" de mercado que serve a interesses de grupos regionais oligárquicos, empenhados no controle social sobre as classes populares.

Mas tudo isso tão enrustido que ninguém percebe as doces armadilhas. É como quem vê uma ratoeira e ninguém percebe a armadilha, deslumbrado que está com o queijo que nela está como isca.

A "PAÇOCA" DE ALI KAMEL

Sem que muitos percebam a gravidade desse discurso generoso, surgem analogias gritantes entre o discurso socialmente dissimulador do jornalista da Globo, Ali Kamel, e as "admiráveis" pregações de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Mônica Neves Leme, MC Leonardo e outros que uma leitura atenta inevitavelmente comprovará.

Pois se trata de um discurso que se baseia em mascarar os problemas sociais em vez de resolvê-los, um costume que vem desde o regime militar ou mesmo do latifúndio de tempos mais antigos. Diz-se que os problemas "não existem", em vez de reconhecê-los e combatê-los.

Ali Kamel, dessa forma, disse que "não existe racismo" no Brasil. O discurso brega-popularesco, mesmo "de esquerda", segue o mesmo caminho, dizendo que "não existe mediocridade", "não existe burrice", "não existe machismo", "não existe vulgaridade", "não existe baixaria".

É um discurso que, embora "impunemente" transite pelas páginas das revistas Fórum e Caros Amigos graças ao funqueiro amigo das Organizações Globo, MC Leonardo e ao supracitado "filhote da Folha", transita livremente pelas páginas de veículos "flexíveis" da mídia golpista, como as próprias Organizações Globo, o Grupo Abril e o Grupo Folha.

Mas se tratam dos mesmos veículos que condenam os movimentos sociais, mas estranhamente corroboram a pregação "progressista" sobre a "cultura popular" midiática, mercadológica e sem qualquer utilidade real para o progresso social das classes pobres. Antes essa "cultura" as mantém no atoleiro, salvas apenas pela relativa inclusão no consumo e no espetáculo.

Como esse discurso é visto como "esquerdista" é algo difícil de entender. Afinal, até mesmo a palavra "periferia", tão utilizada nessa campanha ideológica, é influenciada pela teoria neoliberal de Fernando Henrique Cardoso que, ao lado de teóricos conservadores como Auguste Comte e Francis Fukuyama, inspiram explicitamente toda essa ideologia da suposta "cultura das periferias". A Teoria da Dependência já falava da dicotomia "centro X periferias", o que inspirou fortemente o discurso resultante dela.

OMISSÕES E IRONIAS

Sabe-se que ninguém desmente as acusações de direitismo dadas a essa intelectualidade "solidária" ao que entende por "cultura das periferias". Eles apenas se posicionam formalmente às esquerdas enquanto não despertam desconfiança na maioria das pessoas.

Nessa situação, a intelectualidade prefere ser omissa. Prefere apenas admitir a "contradição humana" e não dar qualquer explicação sobre o fato de que seu discurso penetra facilmente na velha grande mídia (mesmo a ranzinza Veja se rendeu ao tecnobrega, por exemplo).

Mas ironias ocorrem, para não dizer sobre o reacionarismo de troleiros ou outros internautas. Mas esse é um outro tema. As ironias da intelectualidade que aqui descrevemos se referem a ideias como "alienação cultural", por exemplo.

Esnobam a alienação cultural justificando o "sucesso" dos ídolos brega-popularescos nas classes pobres imersas no provincianismo social. Usam clichês da ideologia neoliberal sobre globalização e até informática - para definir as "pequenas mídias das periferias", que de "pequenas" só têm o nome e de "periferias" só tem o público alvo consumidor, mediante o poder econômico de seus "humildes investidores" - para dar suporte à sua teoria.

Outra omissão constante nessa ideologia é ignorar que, por trás dessa "cultura popular", estejam empresários e políticos interessados na manutenção do controle social, efetuado por músicas medíocres, musas vulgares e imprensas grotescas, que trabalham as classes pobres de forma caricata, estereotipada e domesticada.

OBJETIVOS OCULTOS

Pois os objetivos ocultos dessa pregação tão "generosa" e "solidária" é tão somente manter esse controle social e, em contrapartida, exercer o poder midiático da intelectualidade associada, endeusada por uma "panelinha" de outros intelectuais amigos.

Dessa maneira, Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo não estão posicionados, no poder midiático, de forma diferente da de um Otávio Frias Filho ou de Ali Kamel. Assim como suas posições sociais não possuem preconceitos diferentes daqueles notados em "urubólogas" e "calunistas".

O discurso "positivo" dos defensores do brega-popularesco é que engana as pessoas, pelo paternalismo bondoso que tal retórica sugere às classes pobres. Mas, por trás dessa retórica cordial, existe um processo perverso de manter o mercado do entretenimento que rende bilhões de reais no seu todo, além de manter o controle social das classes pobres, jogadas a uma falsa felicidade social que previne a ocorrência de protestos sociais que, no exterior, tiram o sono dos capitalistas.

A extrema-direita dos "calunistas" e "urubólogas" é apenas o "lado A" de um mesmo disco anti-popular. O "lado B" dos ideólogos do brega-popularesco parece agradável aos ouvidos de muita gente, mas é tão somente a outra face do mesmo disco que pretende impedir que as classes populares tenham realmente uma voz própria, sem intermediários.

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