terça-feira, 16 de agosto de 2011

DEFENSORES DO BREGA-POPUARESCO USAM "ESQUECIDOS" DA MPB PARA SEU DISCURSO


JACKSON DO PANDEIRO, WILSON SIMONAL E ITAMAR ASSUMPÇÃO - Agora eles são usados pela intelectualidade para reforçar a defesa do brega-popularesco.

Por Alexandre Figueiredo

A campanha pela defesa do brega-popularesco e de sua forma musical, a Música de Cabresto Brasileira, está em larga escala há pelo menos uns dez anos.

Intelectuais, celebridades, jornalistas e até mesmo artistas se engajam para defender esse "livre mercado" da música brasileira, de qualidade artística bastante duvidosa, altamente tendencioso e que corresponde a um modelo de "cultura popular" defendido pela grande mídia conservadora desde o regime militar.

O esforço de defesa é tendencioso que só é comparável ao que o IPES-IBAD organizou entre 1961 e 1964 para defender o neoliberalismo no Brasil e pedir o golpe militar para pôr em prática essa ideologia.

Só que essa campanha tenta empurrar seus princípios goela abaixo para o público de esquerda que vemos esquerdistas de vontade frágil e senso crítico limitado se deslumbrarem com funqueiros, forrozeiros-bregas, sambregas e axézeiros. Em casos extremos, aderem de corpo e alma ao breganejo, optando culturalmente pela UDR enquanto, politicamente, diz serem simpáticos ao MST.

A campanha teve três etapas. A primeira é tentar inverter o sucesso estrondoso dos ídolos bregas e neo-bregas a um "fracasso", a título de obter o status de MPB. A segunda é usar os medalhões da MPB para defender ou até equiparar-se aos ídolos brega-popularescos no sucesso midiático, como forma de creditar uma suposta diversidade cultural.

A terceira manobra é mais engenhosa. Trata-se de criar referências mais "difíceis" para mais uma vez justificar a hegemonia do brega-popularesco, tanto para forçar a "superioridade intelectual" dos seus ideólogos quanto para fazer falsas analogias aos ídolos que aparecem facilmente nas rádios FM popularescas e na TV aberta.

Citei o caso do dirigente funqueiro que agora cita sambistas antigos para justificar-se culturalmente. Mas tem também o caso de outros retóricos do "funk" que usam uma salada complicada de referências - Semana de Arte Moderna, Revolta de Canudos, Pop Art, punk rock - para justificar o gênero, numa clara demonstração do "bom etnocentrismo".

Ultimamente, tenta-se usar até mesmo nomes como Jackson do Pandeiro, Wilson Simonal e até mesmo o paulista Itamar Assumpção - um dos agitadores culturais da Lira Paulistana, já falecido, e claramente influenciado pelo modernismo e tropicalismo - para uma validação desesperada do brega-popularesco radiofônico.

Isso se dá de muitas formas. Seja para dizer coisas como o "pagode mauricinho" de 1990 "agora é cult", seja para o ideólogo do brega-popularesco dar a impressão de que "entende tudo de cultura".

O queridinho da intelectualidade pequeno-burguesa, Pedro Alexandre Sanches, com toda sua formação ideológica que inclui Caetano Veloso da fase tropitucana, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Frias Filho e Francis Fukuyama, é um claro exemplo dessa intelectualidade que quer um pedestal todo para ela. Como Paulo César Araújo que, como historiador, não é essa preciosidade toda de que tanto alardeiam.

Numa semana, Pedro Alex Sanches diz que o tecnobrega é o "máximo", que Calcinha Preta, Parangolé e Banda Calypso são "geniais". Noutro ele vai escrever sobre Itamar Assumpção e outros esquecidos da MPB, como se tudo fosse a mesma coisa.

Está mais do que óbvio que uma Banda Calypso ou um Parangolé estão para Itamar Assumpção o mesmo que o acordo de Bretton Woods, nos EUA em 1944 está para a Revolução Cubana. Para os desavisados, o acordo de Bretton Woods foi o berço do FMI e do Banco Mundial.

HIPOCRISIA - A hipocrisia disso tudo se deve porque vivemos num país em que a memória curta é estimulada ao mais extremo limite. Isso para maquiar procedimentos que, no julgamento da posteridade, poderiam comprometer a reputação dos interessados.

Quando os ídolos brega-popularescos faziam sucesso nas rádios, entre 1989 e 2002, praticamente toda a MPB autêntica era desprezada, ignorada ao máximo. Ninguém fala dos antigos artistas populares da safra 1930-1968 (de gerações que vão de um Donga que já era veterano em 1930 até um Martinho da Vila que tornou-se mais conhecido em 1968, só para citar o caso do samba), quando os neo-bregas apareciam sorridentemente nos cardápios das FMs popularescas e na TV aberta.

Nem mesmo os medalhões de MPB eram lembrados, e toda a música brasileira de qualidade era esnobemente desprezada, porque "não dava dinheiro", "não tinha contato com as massas", "havia caducado (sic) de vez".

Mas, quando surgiu a primeira ameaça de desgaste do brega-popularesco de 1990-1997, os ídolos então receberam a ajudinha das emissoras de TV para fazerem duetos-tributo dos mais tendenciosos ao lado dos artistas de MPB mais conhecidos, mas também desprezados.

Eram breganejos cantando com Renato Teixeira e gravando covers do Clube da Esquina. Sambregas duetando com Alcione e gravando covers de Ataulfo Alves e até de Djavan. A essas alturas até Zeca Pagodinho ainda era ignorado, quanto mais Jorge Aragão e mais ainda Arlindo Cruz.

Criaram-se depois documentários, reportagens, ensaios acadêmicos, monografias, livros, dramas biográficos, para dizer que os ídolos bregas e neo-bregas que sempre fizeram parte do establishment popularesco das rádios e TVs eram "no fundo, vítimas de preconceito". A famosa manobra de promover gente vitoriosa como se fosse coitadinha, numa presunção às avessas.

Mas hoje tentam sofisticar sua campanha de defesa. O apertado cardápio radiofônico teve que "redescobrir" sambistas e violeiros autênticos, ou criar um rodízio de "ecléticos" da MPB autêntica, só para dizer que "se lembra da Música Popular Brasileira".

Mas, no fundo, isso é só um recurso que a grande mídia faz para permitir, depois, tiradas oportunistas dos bregas e neo-bregas de plantão. E não é toda a MPB autêntica que circula livremente nas rádios, mas - com exceção nas rádios especializadas em MPB - num rodízio de quatro em quatro artistas de cada tendência (samba, música caipira ou o que o mercado chama de "MPB eclética") por temporada.

É o que muitos especialistas denunciam. Se entra um Jorge Aragão nas rádios, Martinho da Vila vai embora. Se a onda agora é Maria Gadu, nada de Vanessa da Mata nos playlists. Há tempos Marisa Monte não rola nas rádios "populares", depois que Maria Rita Mariano veio em cena.

No entanto, se as rádios FM em sua maioria só dão espaço para quatro sambistas autênticos por vez, despejam direto várias dezenas de ídolos sambregas, que se limitam a fazer imitações caricatas de soul music com pandeiro e cavaquinho ou, quando muito, investem em imitações estereotipadas dos estilos de Zeca Pagodinho e Jorge Ben Jor.

Mas, nos últimos anos, a onda agora é pedir uma ajudinha para a intelectualidade de plantão, que, em suas monografias, ensaios, reportagens, resenhas, documentários e colunas, tentam enfeitar o engodo com a mais rica cobertura de glacês, cerejas, granulados, chantilis e outros.

É como o livro do É O Tchan, de Mônica Neves Leme, que ela tentou creditar o grupo baiano como se fosse "alternativo", cheio de longas referências que inclui uma falsa analogia ao lundu e acusações indevidas de "moralismo" aos que rejeitam o grupo. Mera monografia para "vender o peixe", como também são outras campanhas do tipo, mesmo o "sagrado livro" Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo.

Apela-se para referenciais culturais que nunca seriam lembrados quando os ídolos brega-popularescos faziam sucesso. Tanto faz se Wilson Simonal estava doente quando os "pagodeiros mauricinhos" faziam suas coreografias nos programas de TV aberta. Tanto faz se os mineiros do Clube da Esquina estavam no limbo, quando os "sertanejos" triunfavam nas rádios de todo o país.

Mas agora, quando os ídolos brega-popularescos são cada vez mais contestados, eles e seus intelectuais colaboradores tentam se lembrar justamente daqueles que os desprezaram no mais puro desdém. Vale tudo, de Oswald de Andrade a Itamar Assumpção, para "socorrer" os tais "sucessos do povão" da grande mídia.

Tudo isso para evitar que a verdadeira cultura de verdade chegue ao acesso do grande público ou, ao menos, à apreciação prioritária pelo mesmo. Porque cultura de verdade fortalece o povo e os torna mais críticos. E isso a grande mídia não quer.

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