segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DEFENDER O BREGA É QUE É UM PROBLEMA DE GOSTO



Por Alexandre Figueiredo

Um dos pontos mais polêmicos que envolve uma intelectualidade de esquerda é sobre uma visão de "cultura popular" que até agora não se definiu qual é. E, nessa indefinição, toma-se emprestada a mesma visão propagada pela mídia conservadora.

Tive uma polêmica com uma blogueira por conta dela ter colocado um vídeo de uma música de Waldick Soriano. Ela me respondeu com seu texto, que tentou afirmar que o direitismo de Waldick foi um mito, e que o cantor passou o tempo todo sendo renegado em sua carreira. Citando sobretudo o livro de Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não, um festival de inverdades que não preciso enumerar aqui, pois não é o contexto do presente texto.

Ser blogueiro de esquerda é assumir riscos. Colocar um vídeo de Waldick Soriano soa o mesmo que colocar uma cena de Regina Duarte no seriado Malu Mulher ou uma propaganda do Big Mac ou da Coca-Cola.

Sim, ninguém é obrigado a deixar de gostar de brega-popularesco. Como muita gente gosta de Big Mac, usa tênis Nike, bebe Coca-Cola. Mas escrever, num blogue de esquerda, que gosta de um cantor ou ídolo brega soa muito complicado. Poderia-se usar isso num outro blogue que não tenha a pretensão de expor um pensamento de esquerda. Porque o simples gosto musical acaba criando problemas, não para quem critica o brega, mas para quem o aprecia ou diz defender.

O brega é alvo de uma campanha apologética que estranharia os EUA dos anos 60. Pois os ídolos cafonas se assemelham muito aos imitadores de Elvis Presley que pipocaram quando o Rei do Rock foi prestar o serviço militar: Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin, etc. E tinha hitmakers como Paul Anka e Neil Sedaka, que só vieram a "acontecer" depois de largarem o fardo roqueiro.

Da mesma forma, houve o twist, um ritmo dançante lançado pelo cantor Chubby Checker, sem maiores pretensões de mudar o mundo.

Nos EUA que também tiveram Bob Dylan e Joan Baez, mesmo assim, nunca nomes como Paul Anka, Chubby Checker nem mesmo Pat Boone haviam pretendido se apropriarem dos "louros" da Contracultura. Ninguém, deles, quis se julgar acima de Bob Dylan, ninguém quis que "Bernardine", "Puppy Love" ou "Pony Time" sejam "também" vistas como "canções de protesto".


REGINA DUARTE - E se alguns blogueiros de esquerda colocassem um vídeo com uma cena de Regina Duarte em Malu Mulher, só porque achou a cena memorável?

Mas aqui vemos o pretensiosismo de forjar falsa militância nos ídolos brega-popularescos como Waldick Soriano e Tati Quebra-Barraco pelo simples motivo de que eles "são rejeitados". Nossos "Paul Anka" e "Neil Sedaka", ou seja, Benito di Paula e Odair José, são colocados no mesmo patamar de Geraldo Vandré, nosso cantor de protesto.

A música brega - assim como seus derivados neo-bregas, inclusive os "modernos" axé-music e "funk carioca" - poderia se passar por um pop brasileiro meramente comercial, sem qualquer compromisso. O problema é que ela passou por um surto de pretensiosismo ao perseguir, sem necessidade, o status de "arte superior", "cultura autêntica" ou atribuir a si uma suposta missão de mudar o mundo ou, ao menos, a humanidade brasileira.

E todo esse pretensiosismo se deu pelo simples fato de que tais ídolos foram "rejeitados", apesar do grande sucesso comercial que tiveram. Quer dizer, o mérito agora estar em "ser execrado, escorraçado, abominado" etc. É o que eu chamo de marketing da rejeição.

Dizem que a imagem direitista de Waldick Soriano foi "construída". Mas o próprio cantor assumiu claramente tais posições nas suas entrevistas, das quais incluem o Pasquim e o programa TV Mulher da Rede Globo.

Por outro lado, a imagem "militante" de Waldick também não teria sido "construída", com um discurso bem menos objetivo e muito menos realista, mas que toca fundo na emoção de uma classe média carente, mesmo de parte de alguns blogueiros esquerdistas de coração mais frágil?

A onda agora é promover uma imagem de "coitadinho", criar um sucesso às avessas, definido mais pela rejeição do que pela aceitação. Cria-se um maniqueísmo entre as plateias que apreciam o ídolo brega-popularesco e a "sociedade" que o rejeita que, dependendo do discurso, pode variar de uma "multidão de elitistas de classe média" ou de um "grupinho de moralistas".

Já pensou se tais contextos que tanto promovem a mediocridade cultural - da qual o Brasil se acha refém - fossem aplicados na Educação de nosso país? Estaríamos perdidos, não existe a menor dúvida.

Pelo marketing da exclusão que transforma coitadinhos em pretensos gênios, teríamos que reprovar os alunos que tirassem de notas 7 a 10 e dar aprovação automática a quem tirasse abaixo de cinco, só porque o aluno que tirou de 0 a 4 é o "coitadinho" do corpo docente da escola, mas o maioral entre seus coleguinhas.

Muitos ficam felizes quando ídolos brega-popularescos, como os cantores de "pagode romântico" ou "sertanejo", gravam covers de MPB como verdadeiros tapa-buracos para sua mediocridade artística, mas será que gostariam que os piores alunos da classe fizessem trabalhos escolares baseados na mera copidescagem de textos "pesquisados"?

E quanto ao gosto? Aparentemente, "não existe risco" para um blogueiro de esquerda colocar vídeos de Waldick Soriano, mas imagine se as mesmas justificativas servissem para explicar o uso de vídeos com cenas "memoráveis" de Regina Duarte ou Maitê Proença nas novelas em que atuaram com sucesso?

Queremos olhar para a frente, mas culturalmente muitos insistem em usar a alavanca da marcha a ré. A evolução da cultura das classes populares foi interrompida quando as rádios latifundiárias passaram a tocar os ídolos cafonas, mas como nossa intelectualidade é composta por pessoas que não viveram os tempos dos CPC's da UNE, das ideias de Carlos Estevam Martins, ninguém tem ideia real de coisa alguma.

Muitos limitam apenas a "relativizar as coisas", achando que rompem com preconceitos, mas acabam criando novos e maiores preconceitos. De repente, o maior preconceito está em dar mérito a alguém pela rejeição que ele recebe. O ruim vira "bom", e vice-versa.

Podemos baixar a lenha em Chico Buarque por sua poesia bem feita e pelas ricas melodias, mas não podemos sequer dar uma leve ralhada num Alexandre Pires associado a um casal anti-castrista cubano que o levou para cantar para George W. Bush.

A classe média ilustrada deveria assumir uma autocrítica. Será que é o medo de desagradar os pobres que o leva a defender ídolos cafonas, funqueiros, sambregas, breganejos e outros? O apoio ao brega não seria uma forma de ocultar nossos preconceitos, tentando agradar ao gosto radiofônico da empregada doméstica, temendo receber algum processo trabalhista diante de um ocasional deslize?

Ou não seria, por outro lado, o medo dos pobres superarem seu papel de culturalmente domesticados, de "coitadinhos admiráveis", de pessoas cujo único mérito está em "serem rejeitados", rompendo com os papéis que o poder político-midiático lhes impôs nos últimos 47 anos?

Sabemos que um povo culturalmente forte, livre de qualquer imagem de "coitado", mesmo a de "coitado triunfante e admirável", é o maior tabu sofrido pela classe média. Mesmo aquela de esquerda que mal se acostumou a tirar seus olhos das páginas da Ilustrada ou dos musicais do Domingão do Faustão.

Muitos intelectuais, mesmo de esquerda, possuem empregadas domésticas, vão aos botequins que tocam música cafona e coisa e tal. Seu ímpeto questionador da realidade acaba sendo filtrado por condições diversas como os jornalistas da "imprensa popular" convidando blogueiros progressistas para um chope, a empregada doméstica do blogueiro ouvir brega etc .

Mas essa atitude condescendente torna-se prejudicial na medida em que louvamos todo um contexto sócio-cultural de 1964-2002 marcado pela ignorância, pela mediocridade e pela crise de valores.

Esquecemos que uma música como "Chega de Saudade", na verdade, foi um manifesto contra todo o baixo astral que foi todo "recuperado" pela hegemonia brega-popularesca. Um caminho evolutivo da cultura popular foi interrompido pelo regime militar, que tirou das classes populares os sambas, baiões, lundus, maxixes, xaxados e modinhas, "substituídos" por paródias provincianas de countrys, boleros, mariachis, disco music, merengues e até miami bass.

Mas agora a intelectualidade corre em círculos dentro do limitado horizonte da "cultura popular" de 1964-2002, dos bregas e neo-bregas surgidos ao longo do tempo e seus derivados surgidos após 2002. Acham os intelectuais que elogiar coitadinhos musicais irá alçá-los à nobreza da MPB. Não vão. Só estão coniventes com a eterna baixa auto-estima que tanto castiga as populações pobres.

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