quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CRISTINA KIRSCHNER VETA EXPLORAÇÃO SEXUAL PELA MÍDIA



Por Alexandre Figueiredo

A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, baixou decreto, na semana passada, proibindo a publicação de anúncios de prostituição na imprensa de nosso principal país vizinho, mostrando sua firmeza em relação às pressões midiáticas e diante da fúria dos murdoquinhos portenhos.

"A oferta sexual não é só um veículo para o delito de exploração das pessoas, mas uma profunda discriminação à mulher. O decreto é um grande passo contra a dupla moral e a hipocrisia", esclareceu a presidenta na sua mensagem no Twitter.

Como é de praxe, os barões da midia de lá classificaram a medida como um "atentado à liberdade de expressão". Ao que Cristina respondeu: “Um diário não pode exigir em sua primeira página que o governo lute contra a exploração sexual e oferecer sexo nas páginas comerciais”.

Cristina dá um bom exemplo para o Brasil na sua luta para impor limites aos abusos cometidos pela mídia dominante, que pela sede voraz de lucros passam por cima de valores éticos, estéticos, morais e qualquer outro que se relacione à construção da cidadania e da qualidade de vida. E o que os cronistas de esquerda definem como Ley de Medios.

No Brasil, onde as críticas midiáticas ainda se restringem ao âmbito político - mesmo o ramo do entretenimento só é criticado quando comediantes adotam atitudes extremas ou posições políticas reacionárias - , a exploração sexual midiática não só é estimulada, como chega a ser defendida, com alguma sutileza no discurso.

Pior: ela é defendida por uma parte da intelectualidade dita "de esquerda", apoiada em "pensadores-divinos" como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, ou por Hermano Vianna e até MC Leonardo. Seus defensores, sonhando alto demais, chegam a crer que os glúteos de uma mulher-fruta podem ser usados a favor da cidadania, até mesmo infantil.

Essa versão pós-tropicalista e de fala mansa do Tea Party, dotada de ideais supostamente "progressistas", mas composta de uma classe média que vê o povo pobre de uma forma paternalista e cordialmente elitista (por mais "generosa" que pareça no discurso) chega mesmo a acusar os críticos da vulgaridade sexual de "moralistas" e "preconceituosos".

Pois uma atitude como a de Cristina Kirschner, se nos basearmos em textos "progressistas" de PC Araújo e Pedro Alex Sanches, seria creditada a de uma dondoca desvairada e pudica. Ou seja, dentro do enfoque cultural de Araújo e Sanches, não haveria diferença alguma entre Cristina Kirschner e Sarah Palin, a estrela do Tea Party.

Mas o Tea Party, mesmo, são os intelectuais etnocêntricos e sua plateia deslumbrada que coloca seus críticos e cientistas sociais no posto de "deuses" na maioria dos textos buscados pelo Google.

Sentem medo quando empregadas domésticas passam a ter consciência política e a romper com aquele indigesto cardápio musical da Nativa FM e similares. Até mesmo uma doméstica ouvindo Jackson do Pandeiro causa horror para intelectuais que, há pouco, "descobriram" esse genial artista das verdadeiras periferias (não as periferias de plástico endeusadas até pelo Fantástico).

Por isso, querem ver o povo pobre mergulhado numa vulgaridade ao mesmo tempo grotesca e infantilizada, sem medidas para qualquer coisa, seja na vulgaridade extrema e grotesca do sexo, seja pela pieguice histérica do fanatismo religioso.

Aqui, a exploração sexual vulgar faz a festa de periódicos "inocentes" como o jornal Meia Hora, que não chama a atenção dos críticos brasileiros da mídia porque não conta com um Murdoch no comando. Pelo contrário, a "Contracultura de butique" da intelectualidade etnocêntrica solta fogos quando aparece uma "popozuda" nesses jornais. É mais "divertido".

Não por acaso, um dos "intelectuais-deuses" da Bahia, o antropólogo Roberto Albergaria, criou uma tese infeliz chamada de "auto-esculhambação". Machista e claramente entreguista, o professor da UFBA define como "auto-esculhambação" o mito de que o povo pobre gosta de tirar sarro com a própria miséria. Mas a tese, tão "despretensiosa e descontraída", tem seu quê de crueldade que assusta.

Albergaria, também famoso por teses entreguistas - certa vez ele disse que o povo baiano não quer acarajé, quer hamburguer, e que os baianos preferem o pop à cultura baiana - , através da "auto-esculhambação", quer reafirmar a situação de miséria das classes populares, e defender que o povo, em vez de lutar pela sua melhoria social e pelo desenvolvimento da cidadania, se divirta às custas de sua própria inferioridade social.

Nada mais "partido do chá" ou "festa do chá" - o idioma inglês usa a mesma palavra party para festas e partidos políticos - do que achar que o povo pobre gosta de se divertir com sua própria miséria, como se fosse maravilhoso torrar o salário miserável com bebidas alcoólicas.

E isso partindo de um intelectual comprometido com o estudo da sociedade, com o estudo do homem, que, "sem preconceitos", não vê a diferença entre um subúrbio e uma comunidade pré-histórica, e que vende a sua tese como "progressista" para um público que endeusa intelectuais que acreditam que a única missão do povo pobre é servir de bobos-da-corte para a classe média, talvez reduzidos a micos do realejo eletrônico das emissoras de rádio e TV.

E isso vem a questão do sexo. O discurso que defende o brega-popularesco como "verdadeira cultura das periferias" trata a prostituição como um mercado definitivo, quando na verdade ele é provisório.

Se observarmos bem, as prostitutas não querem viver do sexo pelo resto da vida. Muitas delas querem ser professoras, costureiras, cozinheiras, mas a baixa instrução delas e a falta de oportunidades de trabalho as impede de sair da "profissão do sexo", que constrange muitas dessas moças que gostariam de viver com dignidade.

Pelo contrário, o "sistema", para amarrá-las nesse "trabalho" - escondendo o objetivo de servir ao recreio machista de intelectuais divorciados - , criou até uma ideologia que "sindicalizou" e criou até "rádios comunitárias" para as prostitutas que apenas queriam mudar de vida.

E também o "funk carioca", principal trilha sonora defendida por esse Tea Party pós-tropicalista e seus "intelectuais-deuses", investe pesado na vulgaridade sexual e nas baixarias gratuitas, o que faz uma Tati Quebra-Barraco derrubar todo o árduo esforço de uns poucos parlamentares íntegros em encerrar a baixaria nas emissoras de rádio e TV.

Tati, que foi entrevistada por um Pedro Alexandre Sanches que ainda dava "bom dia" para seu para-todo-o-sempre mestre Otávio Frias Filho, tentou se vender como uma falsa "sem mídia", quando sutilmente era inserida nas trilhas de novela da Globo. Só não apareceu no Domingão do Faustão porque este é um programa "família", seu grotesco desagrada até mesmo fãs de outras tendências da Música de Cabresto Brasileira.

Desgastada aliás pelo seu grotesco às últimas consequências, Tati Quebra-Barraco ficou rica, virou evangélica, tentou concorrer a um cargo político, mas foi deixada de lado pelo mercado, porque sua substituta, Valesca Popozuda - que, por razões concorrenciais, "desapareceu" das notas machistas do portal Ego da Globo.Com - , é sósia da Carla Perez, que a faz "digestível" mesmo com os apelos similares à grotesca intérprete de "Sou Feia Mas Tô Na Moda".

Chega a ser risível que outras mulheres-frutas ou dançarinas do "pagodão" mais caricato e abjeto - tipo o ultramachista É O Tchan - , entre outras "boazudas", reclamem quando suas fotos são reproduzidas em sítios europeus e asiáticos de prostituição.

Ora, essas "musas", capazes de avacalhar freiras e enfermeiras com ensaios "eróticos" de profundo mau gosto, servem a essa histeria sexual cuja utilização, ainda que ilegal, de suas fotos em sítios de prostituição, é apenas uma consequência natural desse fanatismo erótico que começa na própria imprensa "popular".

Ou seja, para essas "musas", é bom que enfermeiras e freiras tenham sua imagem abalada com a exploração "sensual" de suas profissões, mas quando as mesmas "musas" são utilizadas por anúncios de prostituição on line, elas não gostam. Grande incoerência.

Aqui sabe-se que a versão brasileira da Ley de Medios será difícil de ser implantada. Primeiro, pela razão óbvia de que a presidenta Dilma Rousseff anda abusando de sua cordialidade com a grande imprensa. Segundo, por uma intelectualidade que deseja ver as classes populares no Brasil serem entregues ao "deus-dará" cultural, acreditando que o povo fica "mais feliz" com isso.

Até que a "teoria da auto-esculhambação" revele os Bóris Casoy e Jair Bolsonaro que estão dentro do inconsciente dessa intelectualidade divinizada por seus fãs.

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