quinta-feira, 28 de julho de 2011

A VISÃO DOS "CAROS AMIGOS" SOBRE CULTURA


FRANCIS FUKUYAMA E PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Tese do "fim da história" chegou à MPB pela porta dos fundos. Mas chegou.

Por Alexandre Figueiredo

A mídia esquerdista ainda não encontrou sua cara própria quando o assunto é cultura. Infelizmente, ainda predomina, oficialmente, abordagens que corroboram a mesma visão da mídia golpista, que patrocinou e promoveu tendências brega-popularescas, que são a "cultura popular" escravizada pelo "deus mercado".

Três periódicos esquerdistas, Carta Capital, Caros Amigos e Revista Fórum, ainda sofrem pelo maniqueísmo fácil que nada contribui para uma visão realmente de esquerda da cultura popular: de um lado, a MPB autêntica para usufruto privativo das classes mais abastadas; de outro, a "cultura popular" de mercado, estereotipada, apátrida e domesticada, que é a "cultura" brega-popularesca.

A ilusão da intelectualidade de esquerda é que esse fosso que separa a "MPB de classe média" da "cultura popular de mercado" fosse resolvido com a integração de um e de outro, num claro viés paternalista, como se o povo pobre fosse reduzido a um bando de mascotes "inofensivos".

Quando muito, cria-se uma "terceira via" através tanto da regravação de sucessos - manjados e, de preferência, com temática inofensiva - da MPB por ídolos brega-popularescos (como os ditos "sertanejos" e "pagodeiros" vestidos com pompa e luxo), seja por grupos "performáticos" como a Orquestra Superpopular, uma espécie de Banda Vexame que quer ser levada a sério, ou algo como um Festa Ploc 80 "mais cabeça", no sentido caetânico do termo.

Essa utopia mostra uma grande falha na formação até mesmo de certos analistas de esquerda. Uma formação de classe média, pequeno-burguesa, que mais uma vez tem um surto de paternalismo no auge do politicamente correto brasileiro.

Essa formação aponta o distanciamento desses pensadores da realidade do povo pobre, vista de longe nos documentários da TV paga ou no convívio superficial com empregadas domésticas, porteiros de prédios, camelôs, feirantes, garis e faxineiros. Nada que possa garantir uma compreensão aprofundada das periferias, apesar de alardearem o contrário.

Esse é o problema. E isso historicamente mancha as atividades das esquerdas. Negocia-se uma transformação parcial, de uma forma ou de outra mantendo sempre o status quo de algum contexto, já que grupos de interesses pressionam para que o idealismo esquerdista cedesse muito de seu impulso inicial.

O grande problema na imprensa esquerdista é que o setor cultural ainda é muito de direita. Até mesmo o caderno "Mais!", extinto suplemento da Folha de São Paulo, apelidada de Folha Serra Presidente pelo perfil claramente demotucano do jornal, foi mais esquerdista do que certas abordagens culturais "de esquerda".

Isso por conta de colaboradores ligados à direita midiática de alguma forma, mas que, como um cão que não quer largar o osso, escrevem para a imprensa esquerdista pondo seus preconceitos "sem preconceitos".

Um deles é um dirigente funqueiro que tem coluna na Caros Amigos, mas também tem outra no jornal Expresso, das Organizações Globo. O referido funqueiro põe na Caros Amigos uma visão de periferia digna do quadro "Parceiros do RJ", aquela visão estereotipada de comunidade pobre de filme da Globo Filmes. Aquela que glamouriza a miséria, como se a pobreza fosse uma coisa linda.

E até agora nenhum funqueiro desmentiu qualquer associação com a mídia golpista, antes esnobasse, em mensagens na Internet, quem criticasse o sucesso deles ou mesmo a aparição deles na Rede Globo.

Outro, conhecemos, é o festejado crítico musical Pedro Alexandre Sanches, cuja obsessão parece ser a de passar pelo maior número possível de veículos de imprensa de São Paulo. Este crítico escreve para a Fórum, Carta Capital e Caros Amigos, mantendo seu tráfico de influência na intelectualidade esquerdista, que nem ao menos expressa seu desconfiômetro diante do DNA folhista do colonista-paçoca.

Pedro chegou a escrever até mesmo sua tese sobre o que é ser crítico musical. Diz que para ser crítico não precisa de regras e que seu trabalho busca estimular a reflexão do público. Na prática, porém, em que pese seu inegável talento de entrevistador, o que Pedro Sanches faz é justamente a propaganda de modismos, algo que ele diz reprovar dos demais críticos.

Entrando de gaiato na imprensa esquerdista, sabemos, através deste blogue, que tudo o que Sanches fez foi reforçar essa visão viciada do maniqueísmo entre a "MPB burguesa" e o "brega-popularesco" e a ilusão de que juntando um e outro se irá promover a efetivação de uma cultura popular autêntica.

Embora tenha um respeitável elenco de entrevistados - o que, exageradamente, faz Pedro Sanches ser endeusado por seus fãs - , Pedro Alexandre Sanches tem uma visão de "cultura popular" bem próxima dos preconceitos caetucanos do jornal que o consagrou, a Folha de São Paulo.

Portanto, ele em nada expressa a extensão, no âmbito da crítica cultural, da ruptura que observarmos em analistas como Emir Sader, Venício Lima e Altamiro Borges no âmbito midiático. Vale lembrar que cultura e mídia se integram, e não dá para defender a Lei dos Meios, a regulação dos meios de comunicação, se nos limitamos a reafirmar, sem qualquer crítica, a pseudo-cultura "popular" historicamente vinculada à velha grande mídia.

Pelo contrário. Por mais que Pedro Alexandre Sanches deixe a sua plateia leitora extasiada porque entrevistou e escreveu sobre a MPB autêntica dos anos 70, ele sugere a mesma tese do "fim da história" lançada pelo historiador neoliberal Francis Fukuyama, há cerca de vinte anos.

Pois Fukuyama também fez um discurso parecido com o de Sanches, ao se referir à história da humanidade. Fukuyama, na sua abordagem, reconheceu que a história da humanidade teve seus heróis, seus personagens audaciosos, e seus vilões. Que houve muitas transformações e façanhas. Mas, segundo ele, com a queda do Leste Europeu entre 1989 e 1991, a história da humanidade cumpriu seu termo, e agora o que vale são os "benefícios" da sociedade tecnocrática e neoliberal, atribuída a ele como "moderna democracia global".

A mesma análise faz Sanches, quando afirma que a MPB teve suas façanhas, seus méritos e seus avanços, mas hoje o que vale é praticamente a "cultura popular" do mercado. Mesmo quando tenta disfarçar a ótica fukuyamiana, Sanches deixa claro que a era de gênios como Cartola, Luiz Gonzaga ou mesmo Chico Buarque acabou, e o que temos é apenas a geração de ídolos que "não somos obrigados a gostar", mas cuja mediocridade artística é vista como "sabedoria intuitiva das periferias".

Em outras palavras, se Francis Fukuyama disse que a história da humanidade acabou e que agora homens e mulheres do mundo inteiro só precisam participar do circo institucional do "deus mercado", Pedro Alexandre Sanches disse que a história da Música Popular Brasileira cumpriu seu termo e agora homens e mulheres só precisam consumir os sucessos da "cultura popular" veiculada pelo "deus mercado" fonográfico e radiofônico.

Neste sentido, Sanches dialoga com Fernando Henrique Cardoso, na medida em que o crítico vem de uma formação ideológica que aplica ao tema cultural os mesmos conceitos lançados pela Teoria da Dependência, na corrente defendida pelo ex-presidente da República.

Embora Hermano Vianna deixe a mesma influência sociológica bem mais clara do que Sanches, pela citação mais frequente da dicotomia "centro X periferia", o ex-empregado de Otávio Frias Filho não deixa de também apresentar essa visão, deixando subentendido a "superioridade" do poder radiofônico (ligado a oligarquias que respaldam o capital estrangeiro) na "construção" de uma pretensa "cultura popular" que alimente o mercado "popular" de entretenimento.

A cada dia, se mostra que a cultura é um tema pouco analisado pelos analistas de esquerda, que acreditam ver nesse tema uma virgem inocente que baila à revelia do processo político.

Enquanto isso, nos últimos 50 anos, boa parte dos sucessos radiofônicos consumidos pelo povo da periferia são acertados nos escritórios fonográficos - dos quais as "pequenas gravadoras" do Norte-Nordeste são extensão provinciana desse sistema voraz - , nas fazendas dos "coronéis", nas gerências radiofônicas. O povo pobre é reduzido a bobo da corte da classe média paternalista.

A propósito, "Caros Amigos" é uma alusão à famosa música de Chico Buarque e Francis Hime, dois "incômodos" artistas brasileiros. Por que agora virou moda atacar Chico Buarque e endeusar os bregas e neo-bregas que batem ponto no Domingão do Faustão e na Ilustrada?

Assim não há esquerda que permaneça no poder mantendo o coronelismo cultural da grande mídia e da Música de Cabresto Brasileira.

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