domingo, 24 de julho de 2011

A TRISTE MISSÃO DO INTELECTUAL BRASILEIRO


HERMANO VIANNA - Exemplo de como a visibilidade é moeda de troca para a projeção intelectual.

Por Alexandre Figueiredo

Triste sina do trabalho intelectual brasileiro. Triste saber que um dos países do bloco BRIC insiste em travar o progresso sócio-cultural para não comprometer o poderio econômico que envolve até mesmo o entretenimento.

O intelectual brasileiro sofre limitações, e só se dá bem quem estabelece pacto com a grande mídia. Seja Hermano Vianna ou Paulo César Araújo ou, de uma forma mais enrustida, Pedro Alexandre Sanches.

Mas quem não segue o circo da mídia e do entretenimento e não aceita o papel de ver cabelo no ovo do entretenimento, se dá mal.

Cientistas são obrigados a apelar para as universidades e centros científicos estrangeiros para fazerem seus trabalhos.

Intelectuais de senso mais crítico são obrigados a falar para pouca gente, porque não mostram a visão fantasiosa que ilude e arrembanha as massas.

Se é um blogueiro ou jornalista, a missão é tão somente de divulgar recados de autoridades, do empresariado e até dos ditos "artistas de sucesso". Sem questionar, apenas corroborar o que lhe é de obrigação divulgar.

Internautas e blogueiros que não concordam (mesmo!) com o status quo do establishment midiático são obrigados a aguentar mensagens agressivas de internautas que mais parecem dublês de censores de determinados blogues ou sítios de Internet.

Pensar é visto por parte da sociedade como algo perigoso. O raciocínio crítico, no Brasil, ainda é visto como se fosse um tabu, aceita-se apenas quando certas abordagens críticas são coletivamente compartilhadas.

Mas até mesmo questionar a Folha de São Paulo, um dia, foi visto como um ato anti-social. Quem criticava a Folha era acusado de preteri-la em favor do jornal O Globo ou do "tradicional" Estadão. Hoje sabemos que isso não tem a ver, que Folha é tão grande mídia quando Globo e Estadão.

Mesmo assim, torna-se ainda um problema criticar o padrão midiático de "cultura popular", defendido claramente pela grande mídia e pelos seus cavaleiros do Instituto Millenium, mas endossado por uma intelectualidade dita "de esquerda", como se no lado de baixo do Equador não existem os pecados conhecidos da indústria cultural, nem suas armadilhas, nem seus truques.

Nomes como Umberto Eco, Jean Baudrillard, Guy Debord, Eric Hobsbawn e Noam Chomsky praticamente falam para os ventos para uma plateia "de esquerda" que mal conseguiu abandonar suas leituras diárias do caderno Ilustrada da Folha.

Aí, tomadas dos mesmos chiliques dos "iluministas de engenho", que defendem o legado francês de 1789 apenas nos pontos que não atingem o regime escravista então vigente no século XIX, a classe média "esclarecida" brasileira só aceita os conceitos esquerdistas que não rompam com o establishment do entretenimento popularesco.

Por isso, uma tradição de mais de 80 anos de análises, debates e críticas da indústria cultural no Primeiro Mundo quase não têm reflexo no Brasil contemporâneo. Aqui o que vale é o mundo de sonho, de fantasia.

Afinal, no moderno escravismo pequeno-burguês, os "esquerdistas de botequim", tal qual os "iluministas de engenho", também possuem seus "escravos": os porteiros de prédio, as empregadas domésticas, os garis, os faxineiros. Eles são escravos do coronelismo eletrônico da mídia, que investe numa "cultura popular" baseada na domesticação do povo pobre.

Não podemos confrontar com esse mercado milionário, tal qual não podíamos, há 150 anos atrás, confrontar o mercado escravista, porque tem muita gente rica envolvida com isso. Só que, em termos politicamente corretos, somos capazes de creditar a grande mídia regional como se fossem "pequenas mídias das periferias".

Mas os Maioranas que, com seu grupo O Liberal, investem em tecnobrega, são tão "pequenas mídias" em relação ao poder midiático de hoje quanto os Frias e os Marinhos diante dos Murdoch nos EUA. Francamente, os mini-Murdochs do Norte e Nordeste dificilmente se enquadrariam no estado de espírito das verdadeiras mídias independentes.

Só que o poder midiático é mais sutil no âmbito cultural e o que vemos é a intelectualidade mais badalada ser premiada pela sua ingrata tarefa que vai contra a função social de produção de conhecimento: a redução do intelectual a mero menino de recados da grande mídia.

Isso vale tanto para um Hermano Vianna que se envolve com as Organizações Globo quanto um Pedro Alexandre Sanches que se esconde na mídia esquerdista. Literalmente, os dois pensam a mesma coisa, são garotos de recados do poder midiático, que pensam a "cultura popular" de uma forma em que uma observação mais cuidadosa reconhece conceitos do pensamento direitista clássico ou moderno.

É só ler os textos deles, de Paulo César Araújo, Denise Garcia, Mônica Neves Leme e outros, para ver a presença de ideias de Roberto Campos, Auguste Comte, Henry Ford, Francis Fukuyama e outros, adaptadas estas ao âmbito da "cultura popular".

A própria dicotomia "centro X periferia" citada por Fernando Henrique Cardoso parece ter divertido Hermano Vianna, porque este usa e abusa dos dois termos, o que mostra que ele leu muito as obras do ex-presidente. Mas o próprio Pedro Alexandre Sanches, de uma forma ou de outra, faz o mesmo, o que atesta sua formação tucana que aprendeu dentro das redações da Folha.

Até para falar em "pequenas mídias", eles não deixam de se enquadrar no pensamento direitista, como no deslumbramento em relação à globalização e à tecnologia, apenas usando eufemismos como "cultura alternativa", "mercado independente" e "pequenas mídias das periferias" para definir o mercado regional dominante do establishment brega-popularesco.

Todos esses intelectuais beberam das fontes da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, e juntaram tudo isso aos conceitos pós-tropicalistas de Caetano Veloso não mais como o rebelde de 1967 e já comandando o establishment da indústria cultural brasileira.

Seu método parece normal, com monografias, reportagens, documentários, ensaios, mas a roupagem "científica" e "objetiva" só serve para mascarar o caráter marqueteiro desses "garotos de recados" da indústria do entretenimento. Seus textos não contestam coisa alguma, a não ser aqueles que tentam contestar esse verdadeiro império recreativo que serve de enriquecimento extra aos mesmos barões da mídia que apavoram a opinião pública com seu "jornalixo" político.

Por isso, lamenta-se que o intelectual brasileiro tenha que atuar contra sua natural missão de exercer o senso crítico. Ver que o intelectual tem que louvar o estabelecido, aceitando suas contradições, investindo numa "problemática sem problemas", mostra o quanto se desperdiça a capacidade de raciocinar.

É tudo em prol da visibilidade fácil, dos tapinhas dos colegas, da paz forçada do poder midiático dominante, essa tarefa dos intelectuais mais badalados do país só usarem suas teorias para reafirmar o estabelecido, e não para estudá-lo da maneira realmente objetiva.

Essa intelectualidade vendida para a mídia se acha a maioral. As buscas do Google dão a crer que muitos sítios os tratam como quase divindades. Mas, no exterior, diante dos mais renomados intelectuais da Europa e dos EUA, eles não são mais do que uma massa inútil e ineficaz de popstars de seminários, não muito diferente do superficialismo dos gurus da autoajuda.

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