segunda-feira, 25 de julho de 2011

A SUTIL CAMPANHA CONTRA A CULTURA POPULAR AUTÊNTICA


LOURIVAL FONTES E FILINTO MÜLLER, OS CHEFÕES DO ESTADO NOVO - O legado de 1922 agora é "culpa" deles.

Por Alexandre Figueiredo

A campanha que se faz contra a verdadeira cultura popular brasileira - não essa "cultura popular" do "deus mercado", mas aquela que se formou durante séculos e é nosso patrimônio - é sutil e não-assumida, mas mostra o quanto as elites fazem para manter, a todo custo, a domesticação social das classes populares.

O motivo é muito claro: apavorados com as manifestações sociais que ocorrem de Roma a Cairo, passando por Atenas, Davos, Tel-Aviv e chegando pertinho daqui por Buenos Aires e pelos Andes chilenos, os donos do poder investem pesado no brega-popularesco que serve de água com açúcar para as classes pobres, mas que gera fortunas para os barões do entretenimento.

No barco afundando da grande mídia, seus mini-Murdochs passam o setor cultural do PiG para outros barcos, como quem quer salvar seu ouro deixando-o no depósito do inimigo.

A campanha contra a verdadeira cultura popular visa isolar a MPB autêntica da "ingrata" classe média universitária - Chico Buarque, Edu Lobo etc - , que ainda rola nas rádios FM adultas do país, para o usufruto isolado de profissionais liberais e socialites.

Enquanto isso, empurram a antiga música popular das classes pobres para o confinamento dos museus, já que eles são nosso patrimônio. Mas as elites não querem um patrimônio vivo, mas um patrimônio transformado em fóssil, em acervo arqueológico de um passado que os fukuyamas-paçocas não querem que volte.

A argumentação de que a verdadeira cultura popular do pré-1964 não pode voltar - ideia que notei implícita nas arrogantes mensagens do professor Eugênio Arantes Raggi no fórum Samba & Choro - é de que ela simboliza o "insuportável" nacionalismo do Estado Novo.

É como se essas elites intelectuais, tão festejadas e badaladas entre setores frágeis das esquerdas, mas encharcadas de conhecimentos herdados de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e outros, atribuíssem o patrimônio cultural brasileiro pré-1922 e a renovação trazida pelos modernistas como se viessem da imaginação dos dois chefões do Estado Novo, o diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) Lourival Fontes e o chefe de polícia Filinto Müller.

Filinto, aliás, teve um detalhe irônico. Ele havia sido, mais tarde, senador pela ARENA, o partidão do regime militar, e em 1973 ele faleceu no conhecido acidente aéreo que matou também o brilhante cantor Agostinho dos Santos.

Tal alegação tem como pretexto a confusão que se tem com o envolvimento de intelectuais modernistas na construção da identidade nacionalista da Era Vargas, como se a geração de 1922 fosse culpada pela instauração do Estado Novo. Daí para acreditarmos que até os rituais indígenas do pré-1500 não passarem de invenção de Lourival Fontes, é um pulo.

A intelectualidade vendida agora se sente à vontade para criticar Chico Buarque, porque é irmão da ministra, e baixar a lenha no legado cultural acumulado há séculos pelos brasileiros. "Legais" são os queridinhos musicais das eras Geisel, Collor e FHC e da Rede Globo, Caras e Folha de São Paulo, tratados feito coitadinhos nos artigos tendenciosos empurrados para a mídia esquerdista.

Sorridentes, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches dão um chapéu de frutas para Francis Fukuyama, uma frigideira para o historiador nipo-estadunidense batucar e depois dizem que nada têm a ver com "o fim da história". Acham que vão fazer "revolução cubana" com a "dança da bundinha". Quanta tolice...

Querem porque querem substituir a cultura popular pelo brega-popularesco apátrida, estereotipado, domesticado, o mero circo conservador do entretenimento resignado. Chegam ao ponto de obrigarmos a esquecer questões estéticas, pois só mesmo no Brasil para uma elite pensante pedir para que deixemos de pensar. E, cinicamente, ainda querem vender sua visão paternalista e idealizada do povo pobre como se fosse "generosamente socialista".

A direita cultural representada por esses intelectuais de classe média, sabemos, não assusta a grande mídia. Sua "generosa" visão do povo pobre hoje mais parece a do moleiro do conto "O amigo dedicado" de Oscar Wilde. Isso também se sabe. E está evidente.

Afinal, a classe média - não os universitários dos CPC's da UNE, que só queriam dialogar com o povo, mas a intelectualidade pós-tropicalista e tucano-uspiana que influi hoje em dia - queria se apropriar do antigo legado cultural popular, tal qual o moleiro sobre as flores cultivadas pelo jovem jardineiro no conto de Wilde. E dar-lhe, em troca, o "carrinho de mão" quebrado das referências do hit-parade norte-americano.

Essa campanha "generosa", a cicuta com sabor de cereja que a opinião pública tão alegremente sorve sem saber, só serve para reafirmar, no âmbito cultural, os interesses decadentes da velha grande mídia que acreditamos serem derrotáveis apenas no jornalismo político.

Esse empastelamento cultural promovido pela intelectualidade vendida só irá pavimentar o caminho para que governos mais conservadores e elitistas voltem ao poder, levando às últimas consequências o que certos grupos aliados já fazem de retrógrado no governo Dilma.

E, para o bem dos donos do poder que faturam com o entretenimento, a cultura brasileira corre o risco de desaparecer, dando lugar a um pálido hit-parade que de "cultura" só tem o rótulo e a campanha publicitária, de preferência travestida de monografia, reportagem ou documentário.

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