domingo, 3 de julho de 2011

REGULAÇÃO DA MÍDIA SERVE TANTO PARA UM DIOGO MAINARDI QUANTO PARA UMA VALESCA POPOZUDA


ARGENTINA E SEU PROJETO DE REGULAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Por Alexandre Figueiredo

Voltamos ao Século XIX, quando determinadas elites pensantes desejavam a "revolução francesa" à brasileira, mantendo todo o sistema escravista. Até agora os debates sobre a democracia na mídia se restringem ao âmbito político, enquanto a cultura hoje é um tema que ainda é precariamente discutido.

Ainda sofremos a hegemonia de um modelo de cultura e entretenimento herdados da Era Geisel e dos governos Collor e FHC. E que prevaleceram depois, na Era Lula, por causa ao marketing da exclusão, esse discurso de "coitadinho" que os ídolos dessa pseudo-cultura "popular", no auge do sucesso, passaram a fazer. Ou seja, eles tomaram o poder, mas em vez de assumirem isso, tentam impressionar as pessoas fazendo pose de vítimas.

O que ajudou muito nesse prolongamento da "cultura" brega-popularesca, que poderia muito bem ter se esgotado e parado nos anos 90, foi, além do marketing da exclusão, a debandada de barões midiáticos regionais - na verdade políticos ligados a partidos como PMDB, os atuais PP e PR e até mesmo o PDT - do apoio tucano para a adulação ao governo petista.

Outro fator foi o fato de que os ídolos popularescos que encontram seu paraíso astral nas páginas da Folha de São Paulo e nas telas da Rede Globo também buscam, "camaleonicamente", aparecer na mídia concorrencial. E isso cria até uma malandragem: o ídolo aparece na Rede Globo, mas também aparece na Rede Record, então ele está "fora da mídia".

Só que não interessa se os ídolos popularescos podem aparecer tanto em Caras quanto num zine universitário "pós-moderno" (afeito a certas "provocações" trash), na Ilustrada ou numa monografia de pós-graduação, na Rede Globo ou na rádio comunitária de uma cidade do interior, o fato dos ídolos brega-popularescos sempre marcarem ponto na mídia golpista é um fato que não pode ser visto como mero acidente de circunstâncias.

Afinal, não é a grande mídia que se rende ao brega-popularesco, como se entregasse o ouro para uma suposta rebelião popular. É o brega-popularesco e a grande mídia que se afinam perfeitamente nos seus interesses mercantis e nessa pseudo-cultura asséptica, caricata e medíocre que hoje deslumbra as gerações mais jovens porque elas não têm outra opção de impacto na atualidade.

Esse pessoal até conhece não só um Tom Jobim, mas é capaz de conhecer até coisas bem mais ousadas da MPB. Mas as referências são sempre a grande mídia, a Ilustrada da Folha, a programação da Rede Globo, as páginas de Caras. Por isso, por melhor que seja um Jackson do Pandeiro, o público médio não se sente estimulado em ouvi-lo no lugar de um Parangolé, de um Latino ou de um Exaltasamba.

Faltam teorias da comunicação que analisassem a mídia brega-popularesca. E falta sobretudo um senso crítico maior a respeito de que cultura nós queremos. É muito fácil justificar o conformismo pela estabilidade forçada pelos mecanismos de poder que existem no entretenimento, mas que muitos fazem vista grossa. Para todo efeito, até o já superpoderoso Som Zoom, megacorporação que está por trás do forró-brega, é "pequena mídia das periferias".

No brega-popularesco, o povo faz o papel de bobo-da-corte de uma classe média tida como "esclarecida", mas altamente paternalista e dotada de mil preconceitos sociais que tentam mascarar com uma falsa conscientização social no discurso.

Os defensores dessa "cultura popular" tentam dizer que o povo é "genial" na sua mediocridade que não é admitida como tal, mas no fundo ficam mesmo felizes porque as classes populares estão submissas no seu consumo midiático e "criando" dentro dos limites que não concorrem com o privilégio cultural das elites.

Por isso a mobilização em torno da regulação da mídia será um processo inútil, se houver a continuidade do império popularesco que domina na indústria cultural. Imaginamos que as regras reguladoras dos meios de comunicação só servirão para domar jornalistas como Diogo Mainardi, Merval Pereira, Miriam Leitão e outros.

De que adiantou, por exemplo, toda a campanha contra a baixaria na TV, se a intelectualidade mais badalada caiu de amores pelo "fenômeno" Tati Quebra-Barraco, que praticamente devolveu toda a baixaria que a sociedade tanto se esforça em combater?

É por isso mesmo que a regulação da mídia atingirá não só Mervais, Mainardis e Cantanhedes, mas também toda a "fauna" brega-popularesca de pagodeiros "mauriçolas", forrozeiros de plástico, funqueiros e sertanejos de butique. Além de jornalistas "broncos" e musas "boazudas", também representantes da velha grande mídia que usam a camuflagem da mídia concorrente para evitar qualquer associação com a grande mídia.

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