terça-feira, 12 de julho de 2011

POR QUE A CULTURA DE DIREITA SE APROPRIA DO ESQUERDISMO?


CERTOS "ESQUERDISTAS" TENTAM ESCONDER SEUS BICOS DE TUCANOS, A TODO CUSTO...

Por Alexandre Figueiredo

Conforme escreveu Maurício Caleiro, do blogue Cinema e Outras Artes, é tanta gente que se diz esquerdista que a gente até desconfia. Juntando a isso uma ideia minha, de que, se fosse pelo que se dizem ser os brasileiros, o Brasil seria, em tese, o maior país socialista do mundo, isso significa que o pretensiosismo é a maior doença que atinge o povo brasileiro.

Beneficiados pela memória curta, muitos "esquerdistas" que eram felizes durante a Era FHC agora arrotam moralismo e tentam classificar como "direitismo" todo senso crítico que contestar o "estabelecido" pelas elites tecnocráticas ou pela indústria do entretenimento no país.

Chega a um ponto de que esse "esquerdismo de butique" mostra todas suas contradições. Acaba levantando bandeiras anti-esquerdistas. Mas seus integrantes se privilegiam com a visibilidade que aqueles que os contestam não possuem. E, o que é pior, por mais que o questionamento seja mais lógico, ele não repercute nem sobressai e muito menos prevalece, porque o que fica é a visão oficial de que aquele professor "reacionário demais" é "esquerdista", que aquele crítico musical neoliberal é "de esquerda".

Vemos o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, originário do regime militar, defendido pelo Governo Federal petista. Temos a CPMF, o "imposto do cheque", herança do tucanato. Temos o modelo de transporte coletivo de Jaime Lerner, tido como "progressista", mas implantado quando o arquiteto era prefeito de Curitiba pela ARENA, o partido poderoso no regime militar.

E temos essa "cultura popular" de bregas e neo-bregas, que vigorou no regime militar e teve seu auge nos períodos de Collor e FHC, mas que hoje é cinicamente atribuído como sendo "cultura das periferias". Não bastasse isso, temos até um professor mineiro que escreve como um Diogo Mainardi mais folclorista, Eugênio Arantes Raggi, mas jura que é "de esquerda", pelo menos até a primeira confusão que o faça correr chorando de avião para São Paulo se consolar no Instituto Millenium.

São coisas muito estranhas, e muitos "esquerdistas convictos" só faltam defender a universidade paga, a privatização da saúde e a desnacionalização dos setores estratégicos da economia. Ah, e tem a turma da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Tudo "esquerdista". Tudo "marxista" que não leu uma linha sequer da obra de Karl Marx, só virou "marxista" porque acha Lula legal.

Mas esses "esquerdistas" têm seus motivos. Acham que ser "de esquerda" é legal. No fundo, buscam vantagens pessoais, que variam de uma simples conquista das melhores mulheres à obtenção de verbas do Governo Federal, passando pelo fator óbvio de que certos direitistas, para não ficarem sozinhos enquanto seus familiares e colegas de trabalho aderem às esquerdas, viram "esquerdistas" de uma hora para outra.

Essa pseudo-esquerda carece tanto de verdadeiras convicções e justificativas que, quando um desses pseudo-esquerdistas é contestado, se limitam a gracejar. Se são orkuteiros, pior ainda, investem no antipaticíssimo e arrogante "Huahuahuahuah". Ou tentam dizer que "fulano (neoliberal) votou em Dilma", que virou a desculpa da moda. Daqui a pouco, vão dizer que Aécio Neves votou em Dilma, que o FMI é comunista, que o papa Bento XVI é ateu, que o Departamento de Estado dos EUA é guevarista.

Gracejar ou mandar os discordantes "para a m...", sob o pretexto de afirmar-se "esquerdista", é demonstração de medo ou covardia, e mostra o quanto os pretensos "esquerdistas convictos" se mostram mais equivocados do que imaginam ser.

Em muitos casos, o pseudo-esquerdista é um golpista que quer invadir o ringue e combater seus rivais, mesmo sob a condição de "aliados". E faz de tudo para parecer um "progressista", por métodos confusos, contraditórios e muitas vezes agressivos e irracionais. Daí que, quando é incapaz de argumentar, haja frases arrogantes como "você é patético", "vai para a m..." ou o cínico "huahuahuahuahuah".

Mas se vivemos num país marcado pelo antiintelectualismo - a missão oficial do intelectual brasileiro, infelizmente, é tão somente justificar o "estabelecido", sobretudo no entretenimento - , gracejar vira "lição de sabedoria". E aí vemos o costumeiro contraste entre forma e conteúdo, ou seja, entre a pose "esquerdista" e as praxes de direita.

Vemos pessoas que dizem que odeiam ler livros mas que querem ser "inteligentes" de graça. Mulheres que, na condição de "boazudas", servem o entretenimento machista mas querem ser vistas como "feministas", só porque não são sustentadas por homens. Vemos pessoas apegadas ao hit-parade mas se dizem "alternativas". E o entretenimento brega-popularesco da grande mídia agora é associado às "pequenas (?!) mídias das periferias".

Sobretudo no que diz à cultura de direita - que é esse padrão de entretenimento "popular" que vemos na grande mídia - , a própria apologia dos intelectuais ditos "de esquerda" se contradiz na medida em que ganha penetração fácil nos veículos da mídia golpista. O tecnobrega foi um exemplo. O que Pedro Alexandre Sanches escreveu na revista Fórum foi até endossado por Nelson Motta, membro do Instituto Millenium que faz sua crônica no Jornal da Globo.

Como acreditar que essa "cultura popular" é "de esquerda" se ela não assusta sequer o Ali Kamel e o Otávio Frias Filho que, todavia, também abraçam essa mesma causa? Alguém não percebeu, por exemplo, que até o Gilberto Dimenstein elogiou o tal "funk carioca de raiz"?

Não cola o fato dessa pseudo-esquerda dizer que ter senso crítico é de direita. Não faz sentido. A tradição da esquerda é exercer o senso crítico mais afiado. Por outro lado, quem defende o "estabelecido", como na pseudo-cultura brega-popularesca, é que adota um procedimento de direita. Confunde senso crítico com pregação moralista, diante de uma plateia, real ou virtual, que é manipulada pelo sentimentalismo fácil.

Por isso foi fácil a cultura de direita se apropriar das esquerdas. A direita despolitiza a cultura e joga seus valores retrógrados nela. E depois tenta servir, de bandeja, para uma plateia menos crítica de centro-esquerda, que adere a tudo isso através do sentimentalismo mais frágil.

Um comentário:

  1. Será que, nos anos 80, tinha direitista metido a "marxista"?

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