domingo, 17 de julho de 2011

PARA A MÍDIA GOLPISTA, QUALQUER COISA VIRA 'CULT'



Reportagem de hoje do Segundo Caderno de O Globo mostra o revival dos grupos do chamado "pagode romântico", o sambrega, através de uma coletânea de sucessos pela Som Livre.

Até aí, nada demais, a não ser a infeliz ideia do jornalista Bernardo Araújo de classificar o estilo como cult, num certo exagero publicitário para um gênero que nunca saiu da grande mídia nem do establishment do hit-parade, mas que ainda não possui um mercado próprio de âmbito nacional - seu mercado, ainda que forte, é o regional - , já que precisa estabelecer parcerias com o "sertanejo" para fazer sucesso em âmbito nacional.

Um dos gêneros do brega-popularesco da Era Collor, o sambrega tem pelo menos dois cantores - ex-integrantes de grupos - e dois grupos musicais (um deles já sem um vocalista, que inicia carreira solo) que atravessaram as décadas fazendo sucesso. O estilo é herdeiro do sambão jóia, estilo de diluição do samba que imita, sob um apelo mais piegas, o samba rock de Jorge Ben Jor, Originais do Samba e companhia.

Portanto, não há como chamar o sambrega de cult. Está mais para kitsch, pela sua diluição caricata do samba. Na melhor das hipóteses, apenas foi um estilo de sucesso que pretende voltar a ser sucesso, mas sem qualquer associação a uma revalorização supostamente preciosista.

Mas, numa época em que Chico Buarque começa a ser "atacável" pela intelectualidade etnocêntrica, e a MPB autêntica é marginalizada a cada dia por uma campanha populista de caráter conservador, e da qual o sambrega, como o "funk carioca" e o tecnobrega, é apenas uma de suas amostras.

Em se tratando de grande mídia, faz sentido que O Globo tenha uma visão equivocada de cult. O jornalixo cultural tem dessas coisas, de promover tendências meramente comerciais com um pedantismo preciosista, e confundir entretenimento com arte.

É brincadeira, mas os decadentes Ego (portal de celebridades), Quem Acontece (revista) e Fantástico (programa de TV) são tratados pelas Organizações Globo como se fossem "paraísos cult". Seus responsáveis, para se ter uma ideia, não conseguem diferir a inexpressiva Lady Gaga, a "diva" do fait divers, de mestres da arte pós-moderna como Andy Warhol e o grupo Living Theatre.

Isso nada beneficia, de forma real, o legado cultural de nosso país, hoje levianamente distorcido pelo brega-popularesco que já tem espaços demais na mídia para se dizer "vítima de preconceito".

Um comentário:

  1. Será que o proto-emo dos Raimundos até o CPM 22 também vai virar "cult"?

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