quarta-feira, 27 de julho de 2011

OS "LUZIAS" E "SAQUAREMAS" DO BRASIL DE HOJE



Por Alexandre Figueiredo

O historiador Ilmar Rohloff de Matos havia lançado, em 1986, o livro O Tempo Saquarema, pela editora Hucitec, que recebeu até prêmio literário. Falava da disputa política nos tempos do Segundo Império brasileiro, entre o Partido Conservador e o Partido Liberal.

A origem dos apelidos "luzias" e "saquaremas", apelidos originários da reação pejorativa - um apelido era dado pelo oponente e vice-versa - se deu, respectivamente, quando os movimentos liberais de 1842 resultaram em várias derrotas, uma delas em Minas Gerais, no combate de Santa Luzia, quando os liberais foram derrotados pelas tropas do então Barão de Caxias, o mesmo Luíz Alves de Lima e Silva depois conhecido na posteridade como o Duque de Caxias.

Desse modo, os adeptos do Partido Conservador apelidaram os liberais de "santa-luzias" ou "luzias", como forma de marcar negativamente os rivais políticos.

Já o termo "saquarema", por sua vez, teria vindo de um grupo de proprietários de terras, adeptos do Partido Conservador, que reagiram aos desmandos de um padre e subdelegado de polícia de Saquarema, José de Cêa e Almeida. O termo teria surgido de forma jocosa, para definir esse grupo e seus protegidos, mas depois foi adotado pelos próprios seguidores do Partido Conservador, a ponto de lançarem periódicos com o nome de O Saquarema, em Pernambuco e São Paulo.

Os tempos passaram, mas a posteridade registrou a frase popular anotada por Ilmar de Matos sobre a falta de diferença essencial entre os "luzias" e "saquaremas": "nada tão parecido com um saquarema como um luzia no poder".

E quem seriam os "luzias" e "saquaremas" dos dias atuais?

Bingo. Os "saquaremas", sabemos, seriam o grupo político mais claramente conservador e inflexível, o grupo do PSDB e do DEM e das elites associadas aos mais ortodoxos interesses dominantes. Seria o Partido Conservador propriamente dito, o "partido" do demotucanato e da mídia golpista propriamente dita.

Mas há também os "luzias", que, embora pareçam idealistas, são também conservadores. São o "partido liberal" dos conservadores heterodoxos, da direita mais flexível. Se enquadram nesse grupo o PMDB e seus partidos-satélites (PP, PR, PRB, PSC e outros), ou mesmo a centro-esquerda mais frágil e cooptável, existente no PT, PDT, PC do B e PSB.

Os "saquaremas" de hoje são criticados pela pregação anti-social de seus princípios privatistas, elitistas, saudosos de tempos em que eram dominantes, sobretudo no regime militar.

Mas os "luzias" são poupados porque, parecendo flexíveis, parecem "solidários" às causas progressistas. Mas no fundo também defendem o "livre mercado" e o controle social das classes populares a partir de medidas paliativas e de um padrão mercantilista de "cultura popular" trabalhado por uma mídia mais flexível.

No entanto, são valores que também são aceitos, em momentos de maior paternalismo, pelos "saquaremas", na medida em que a pseudo-cultura midiática permite que o povo pobre continue submisso aos ditames das "pequenas mídias das periferias", eufemismo para um complexo empresarial que reúne as grandes mídias regionais e as grandes empresas regionais de entretenimento, apoiados por grandes redes de comércio atacadista e varejista.

A grande bronca que se dá às esquerdas no nosso país é essa vontade mole de ser cooptada por uma direita flexível que parece "solidária" e "identificada" com a revolução social, mas que no fundo tão somente recorre ao jeitinho brasileiro de manter o status quo das classes dominantes sem ofender as classes populares, mas fazendo o possível para que ela continue manipulada pelo poder midiático, culturalmente domesticada e posta à margem do debate público nacional.

Essa incapacidade da esquerda de romper com certos mecanismos dominantes, encontrando, no meio do caminho, "luzias" que se chamam Paulo Skaf, jornal Meia Hora, Gilberto Kassab, Eugênio Raggi, Mário Kertèsz, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Michel Temer, José Sarney, Fernando Collor, Edir Macedo, Eduardo Paes, Jaime Lerner e outros, a enfraquece, fortalecendo a reação de oposicionistas que estejam ou não alinhados com os "saquaremas", também não se comprazem com o poder "generoso" e "cordial" dos "luzias".

Portanto, nada tão parecido como um saquarema como um luzia no poder.

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