quinta-feira, 7 de julho de 2011

O "TRAINÉE" DOS BREGA-POPULARESCOS NÃO OS FAZ MAIS ARTISTAS



Por Alexandre Figueiredo

A geração neo-brega de 1990-1997 conquistou o primeiro time da MPB? Não, embora estejamos proibidos de dizer que "eles não são MPB" sem que alguma viva alma reaja com fúria e indignação.

Afinal, muitos acreditam que esses ídolos musicais do sambrega e do breganejo são "a verdadeira MPB" porque lotam plateias com facilidade. Em contrapartida, mestres como Chico Buarque tornaram-se os bodes expiatórios da vez, na medida em que oportunistas de direita travestidos de "esquerdistas" tentem usar a indignação contra os desmandos da ministra Ana de Hollanda para "fritar" toda a família.

Do clã, só Carlinhos Brown - por sinal, descasado de uma das filhas de Chico - seria poupado, pela condescendência que o talentoso músico tem com o brega-popularesco.

Pois "inocentes" são os ídolos de sambrega e breganejo que por "mera coincidência" aparecem no Domingão do Faustão, na primeira página de Ilustrada da Folha de São Paulo e do Segundo Caderno de O Globo.

Ídolos que por "mera coincidência" são até apadrinhados por um casal de cantora e produtor anti-castristas para cantar ao lado de George W. Bush. Que por "mera coincidência" votaram em Ronaldo Caiado para deputado federal. E que "por mera coincidência" fizeram sucesso em cenários políticos conservadores, através de rádios que apoiaram o regime militar, o AI-5 e os governos neoliberais de Collor e FHC.

Enquanto parte menos crítica da esquerda - a que não desconfia de figuras com DNA folhista como Pedro Alexandre Sanches - coça a cabeça para entender por que essa "cultura popular" nem de longe assusta figurões como Ali Kamel e Otávio Frias Filho (que dormem tranquilos com ídolos domesticados como a Banda Calypso), a cada dia essa suposta "cultura popular", sobretudo o setor musical, é questionada por pessoas cada vez mais esclarecidas com as armadilhas mercantis que estão por trás.

Afinal, essa "cultura popular" não é a cultura do povo. Pouco importam se multidões se formam quando o ídolo tal ainda está fazendo a passagem de som. O problema não é a questão da adesão popular, mas o fato de que essa pseudo-cultura só produz bens de consumo, mas não produz conhecimento nem valores sócio-culturais.

Além do mais, ela não é transmitida comunitariamente, mas pelo poder das rádios e da TV aberta. Ou seja, é uma "cultura" decidida de cima, dos escritórios empresariais, e isso até Umberto Eco já fala sobre a cultura de massa, uma "cultura" formalmente popular, mas dotada de padrões e valores veiculados pelas classes dominantes.

Por isso não há como considerar que os ídolos popularescos de 1990-1997 "finalmente são MPB". Até porque o processo que se dá nesse rótulo tendencioso é contraditório. Esses cantores, duplas e grupos dependem sempre das classes abastadas para serem reconhecidos como "legítimos ídolos populares". Na prática, porém, esses ídolos se tornam também aristocráticos, bem mais até mesmo do que muitos "aristocratas" da geração dos festivais dos anos 60.

O próprio processo de "sofisticação" de suas músicas neo-bregas - falsos sambas influenciados pelo brega da linha Odair José, falsas modas de viola inspiradas no brega choroso de Waldick Soriano e Lindomar Castilho - segue as regras de "montagem" da fase "burguesa" da MPB dos anos 80. Aquele processo que envolve muita pompa, muito luxo, muita formalidade.

Essa situação põe na berlinda os críticos da MPB que tanto falam mal dessa fase pomposa e grandiloquente dos anos 80, mas elogiam os ídolos "populares" dos anos 90. Quando estes se inspiram naquela para encher seus palcos de luz, terem banhos de loja, de técnica, de tecnologia e de marketing.

Um exemplo ilustrativo é do breganejo Daniel, que se inspirou na fase pomposa da cantora Simone, nos anos 80, para criar seu logotipo, a partir de uma assinatura em caligrafia (como havia feito a cantora baiana, hoje distante daquela fase).

Mas esse verdadeiro processo de trainée, que transforma os neo-bregas de vinte anos atrás em cantores arrumadinhos só serve para inseri-los num contexto de hit-parade à brasileira, válido dentro de seus limites de espetáculo e entretenimento oferecidos pela grande mídia.

No máximo, eles são apenas ídolos eficazes de um pop ultracomercial brasileiro, sem qualquer valor artístico. Mas a comparação deles com os verdadeiros cantores populares, sejam sambistas, violeiros, músicos nordestinos do pré-1964, até mesmo através dos covers que os neo-bregas gravam desses artistas, os põe, inevitavelmente, num grau de inferioridade artística gritante. Daí a intelectualidade midiática que, apavorada, nos suplica para não discutirmos questões estéticas.

Afinal, existe uma diferença enorme entre um cantor e compositor que se torna talentoso desde o começo, fazendo música de excelente qualidade, e um cantor e compositor que começa meio perdido num brega desajeitado, mas que é "treinado" a fazer o que ele pensa ser "MPB", ou seja, um processo imitativo de clichês consagrados pela "MPB de massa" da fase grandiloquente dos anos 80.

Essa diferença tanto ocorre que os "grandes criadores" que a mídia atribui à geração neo-brega de 1990-1997 se limitam praticamente a compor hits rotineiros que apenas lembram os sucessos do começo de carreira, isso quando produzem algum material inédito, porque com muita frequência eles chegam a se concentrar em CDs e DVDs ao vivo que repetem os mesmos sucessos, alternados com covers (oportunistas) de MPB.

Suas músicas nem constam de grande expressividade artístico-cultural. Esteticamente, deixam muito a desejar. Poeticamente, são apenas banais. E seu baixo valor artístico é tal que seu destino inevitável, depois de suas execuções nas rádios, é servir de trilhas sonoras para os fins de semana e feriados alcoólicos de coroas e idosos mergulhados no subemprego ou no ócio desempregado.

O apoio de Caetano Veloso não é garantia alguma para que sambregas, breganejos, forrozeiros-bregas, funqueiros, axézeiros etc sejam promovidos ao primeiro escalão da MPB, pelo simples fato de lotar plateias e estar sempre na mídia.

Em que pese o talento inegável do tropicalista de Santo Amaro da Purificação, e sua inegável bagagem de informações e vivências pessoais, é um fator negativo seu deslumbramento com a indústria cultural, menosprezando suas armadilhas. A postura condiz muito com o caráter "apolítico" que o cantor sempre teve, e que depois o fez alinhar com o "descompromissado" pensamento conservador e pós-moderno do demotucanato.

Por isso, os ídolos neo-bregas de 1990-1997, devido às "mutações" que tiveram ao longo dos anos, apenas se tornaram bons entertainers, a seguir corretamente o script da indústria midiática do espetáculo.

Mas nem de longe eles se tornaram mais criativos, mais artistas. Eles continuam seguindo sempre a mesma linha de montagem do mercado musical. Só foi mudada a técnica e o método.

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