quarta-feira, 6 de julho de 2011

O "CAMPO MINADO" DOS BUEIROS CARIOCAS



Por Alexandre Figueiredo

Talvez certas pessoas tenham nojo de textos como este, que sempre põem em xeque o otimismo fabuloso do grupo político de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, endeusados até o extremo por seus súditos que sonham posar em fotos ao lado de Pelé, Joseph Blatter, Bernardinho, Carlos Arthur Nuzman, Ronaldo Nazário e outras celebridades esportivas.

Mas a verdade é que vários infortúnios e trapalhadas desafiam a cada mês esse grupo político, marcado por medidas anti-populares - como os baixos salários dos bombeiros e a repressão a seus protestos e a padronização visual dos ônibus cariocas que hoje confunde desesperadamente os passageiros - e a explosão dos bueiros no Rio de Janeiro é um dos episódios que desafiam as referidas autoridades.

As explosões ocorrem desde 2004, e mostram o quanto é histórica a má fama da Light, que em outros tempos era conhecida por sua precária energia elétrica - que continua até hoje - , que até rendeu uma marchinha conhecida: "Rio de Janeiro / Cidade que seduz / De dia falta água / De noite falta luz".

A Light também foi marcada pelo seu péssimo serviço de bondes cuja velocidade e, pelo fato de rodarem, em certas ruas, no sentido oposto ao do tráfego de carros, ônibus e caminhões, ganharam o apelido de "mata-paulistas", numa hipotética alusão aos paulistas desavisados que passearem pelas ruas cariocas. O então governador Carlos Lacerda, em 1961, teve que cassar a concessão da Light e substituir o serviço de bondes pelo de trolebuses da CTC, que anos depois - com o célebre político e jornalista já no exílio - foram substituídos por ônibus.

Os episódios tinham que ocorrer num bairro internacionalmente famoso e bastante movimentado como Copacabana - que, na prática, se constitui uma cidade à parte dentro da Cidade Maravilhosa - , e não em bairros suburbanos, cuja ocorrência tivesse repercussão bastante minimizada. Questão de classes sociais...

E tinha que envolver também turistas estrangeiros, num dos episódios mais dramáticos. O casal Sara Lowry e David McLaugheim foi atingido gravemente pela explosão de um bueiro enquanto passeavam pelo famoso bairro da Zona Sul carioca. Tiveram, respectivamente, 80% e 35% de seus corpos queimados e ficaram vários dias internados. Sara foi jogada a cerca de oito metros do local da explosão.

São vários fatores que permitem que absurdos como este ocorram.

Primeiro foi a onda de privatizações envolvendo setores estratégicos, como energia elétrica e telefonia, entregues a empresas que só pensam em lucro e não possuem competência técnica suficiente para suprir as transformações da sociedade.

Segundo, pelo descaso político de autoridades que exaltam o "cidadão" - espécie de "João Buracão" da classe média - , mas pouco fazem para atender ao interesse público. Só para dar um exemplo, o projeto "Minha Casa, Minha Vida" não pretende resolver os problemas habitacionais antes de 2014. E o caos habitacional nas zonas suburbanas continua. As obras são lentas e as medidas, parciais,

Enquanto a desfavelização não é feita de forma justa, com investimentos maciços em moradia digna para todos, as autoridades enxotam moradores de invasões populares como quem expulsa um cachorro vira-lata da calçada de um bar, açougue ou mercado.

E, terceiro, a preocupação excessiva com projetos pomposos, como a Copa de 2014. Isso dá até um nervosismo nas autoridades, que no fundo não estão dispostas a assumir rigorosamente todas as responsabilidades, preferindo apenas as medidas de fachada e os projetos mais chamativos, como a construção de pistas para o famigerado Bus Rapid Transit.

Enquanto isso, nas batalhas do cotidiano, os cidadãos no Rio de Janeiro enfrentam os verdadeiros "campos minados" que se tornaram as ruas cariocas...

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