quinta-feira, 21 de julho de 2011

NOSSOS 'NEWS OF THE WORLD' NÃO SÃO MELHORES DO QUE OS INGLESES



Por Alexandre Figueiredo

Está na pauta do debate público a crise que atinge um dos magnatas da mídia do mundo inteiro, o empresário australiano Rupert Murdoch, dono da Fox (que inclui produtora cinematográfica e redes de televisão) e de outros complexos jornalísticos dos EUA (The Wall Street Journal) e do Reino Unido (The Times, The Sun e o recém-falido News Of The World). No Brasil, é também dono das operadoras de TV paga Sky e DirecTV.

Consta-se que ele também é dono da marca "News" usada pelo canal de TV paga Globo News, o que alimenta rumores de "parcerias" entre ele e os Marinho, o que até faz um bom sentido, porque, pela famosa origem da Rede Globo, nota-se que a famiglia Marinho tem uma quedinha pelo capital estrangeiro. Não só ela. Os Civita fazem franquias de revistas estrangeiras, o que aparentemente não é mal, mas dá um indício do apetite da famiglia do Grupo Abril por uns dólares de apoio pelos CEO estrangeiros.

Os críticos da mídia, com o cacoete de reduzir as críticas midiáticas ao âmbito político-jornalístico, foram logo fazer uma analogia insólita do decadente News Of The World, periódico sensacionalista. Sabe-se que o periódico foi envolvido em um sério escândalo ligado a escutas telefônicas da família real britânica, e o escândalo se agravou com a misteriosa morte de um ex-editor do jornal, Andy Coulson.

Pois a delirante analogia do News Of The World se deu, pasmem, ao noticiário político veiculado pela Folha de São Paulo, Veja e pelo quarteto Rede Globo/O Globo/Época/Globo News. Ou seja, até parece que nossa imprensa sensacionalista é feita de anjinhos. Não tendo um Murdoch para controlar, a "mídia boazinha" vira "mídia libertária" sem sê-la de fato.

Pois o News Of The World é um periódico que, dentro do contexto do Reino Unido, equivale exatamente ao que conhecemos em jornais como o Meia Hora, do Rio de Janeiro, e o Supernotícia, de Belo Horizonte.

Ou seja, trata-se de um periódico que explora o lado fútil das celebridades - muitas vezes de forma "positiva" - , publica notícias pitorescas (tipo "o pedreiro que tem um "bilau' do tamanho da Via Dutra") - noticia crimes de forma neurótica (tipo "a monstra (sic) da Zona Oeste faz picadinho da própria afilhada") - ou promove o fanatismo esportivo através da curtição de seus astros dos gramados.

Sim, mas tendo um Rupert Murdoch por trás, o News Of The World mais parece um News Of The Hell. Mas isso se dá não só pela associação de um periódico sensacionalista a um magnata com forte concentração de poder econômico. Se dá pela politização que se constrói com o episódio. Pois nem a associação dos nossos periódicos sensacionalistas com magnatas da mídia brasileira consegue abalar a "reputação" dos mesmos.

O Expresso, por exemplo, é um periódico carioca das Organizações Globo. Os próprios críticos da mídia - descontando os lúcidos Altamiro Borges, Emir Sader, Fábio Konder Comparato e Venício Artur de Lima, que não se iludem com a "mídia boazinha" - fazem vista grossa a isso. E o Notícias Populares, tutelado pela famiglia Frias, virou "preciosidade histórica" pela mesma intelectualidade festiva que acha que Pedro Alexandre Sanches é "crítico musical de esquerda".

Ou seja, há uma tendência, até certo ponto sutil, de achar que nossos "News Of The World" são melhores do que os "News Of The World" deles, os ingleses. Aqui o sensacionalismo envolve entretenimento, e, pelas regras ideológicas que se vive no país, o entretenimento é sempre associado a uma ingenuidade paradisíaca, por mais que tenha as impressões digitais e o DNA da velha grande mídia.

Como o Brasil vive a hegemonia da cultura de direita, que se julga "dona" do pensamento de esquerda, tanto através da militância da intelectualidade etnocêntrica quanto do reacionarismo de troleiros virtuais, somos obrigados a ver o entretenimento midiático como "algo libertário". Chega a ser constrangedor que certos críticos que esculhambam a Folha tratem o Notícias Populares como se fosse uma relíquia cult.

A crise do News Of The World é a crise da grande mídia, de fato. Mas é uma crise maior ainda, que envolve uma grande bola de neve que atinge veículos de mídia que não cumprem sua missão social em seu meio, que varia de acordo com o tipo de alcance de cada veículo.

Portanto, não serão os glúteos de Valesca Popozuda que irão servir para desviar a bola de neve de atingir os excessos e abusos da "mídia boazinha", aquela mídia conservadora que não morde e quase não late.

Só que até quando muitos de nós têm que esperar que surja um novo Bóris Casoy atacando garis na "mídia boazinha" ou o Meia Hora entrar num surto machista paranóico para entender as sutilezas da grande mídia, mesmo através de concorrentes secundários, não se sabe.

Também existem Murdochinhos minúsculos, pequenos, que tentam ser amigos nossos nas rodas de botequim. Eles não são menos perigosos do que a grande raposa velha da Fox.

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