terça-feira, 5 de julho de 2011

NO BRASIL, A ARTE É REFÉM DO MERCADO



Por Alexandre Figueiredo

Diante de uma intelligentzia monopolizada por "divindades" como o "papa" Paulo César Araújo, o "cardeal" Hermano Vianna e o "arcebispo" Pedro Alexandre Sanches, totens sagrados protegidos pela visibilidade, a sociedade brasileira é desestimulada a exercer seu senso crítico, impedindo que se amplie o acesso de muitas informações esclarecedoras ao público.

Por isso, os conceitos se confundem dentro de uma retórica engenhosa que, mesmo com uma narrativa "científica", toca mais pelo apelo sentimentalista, tenta misturar alhos com bugalhos. Dessa forma, arte e entretenimento se confundem, assim como cultura e mercado, mídia e sociedade, indústria e artesanato.

Mas, em observações bem mais cautelosas, descobrimos que o pensamento expresso por Araújo, Vianna e Sanches, e tantos outros que seguem seu raciocínio, na verdade se inspira, até com certa evidência, com diversas correntes do neoliberalismo e do pensamento liberal precedente.

Em outras palavras, nos textos destes intelectuais festejados - mesmo os de Pedro Sanches nas páginas da imprensa esquerdista - há inspiração clara nas ideias lançadas por Auguste Comte, Henry Ford, Roberto Campos, Francis Fukuyama e o próprio Fernando Henrique Cardoso que hoje esses intelectuais tentam se desvencilhar como o demônio foge da cruz.

Mas, anos atrás, todos esses intelectuais estavam felizes mesclando a Teoria da Dependência de FHC com as pregações tropicalistas de Caetano Veloso pós-Tropicalismo e celebrado líder do establishment cultural brasileiro.

Certamente, para manter o "mistério da fé" da antropologia-sociologia de butique que teleguia as teses de PC Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alex Sanches, eles pedem para que não analisemos questões estéticas. Discurso tipicamente "caetucano". Porque assim ocultam-se teses incômodas, enquanto se mantém o mandamento maior da grande mídia golpista que é o jogo de "revelar e ocultar" conforme os interesses dominantes em jogo.

É muito estranho intelectuais pedirem para a gente não pensar. Deixem que executivos e tecnocratas - não nos esqueçamos que Araújo, Vianna e Sanches também são tecnocratas - exerçam seu poder de pensar e opinar pela sociedade. É uma lógica que vale tanto para FHC e Jaime Lerner, como vale para Merval Pereira e Pedro Alexandre Sanches. No fundo, todos "satélites" do "Rei Sol" chamado Roberto de Oliveira Campos.

DESMANCHA-PRAZER DA ESTÉTICA

Mas essa intelectualidade, como um verdadeiro desmancha-prazer da teoria estética, nos tira o prazer de verificarmos os questionamentos que pensadores brasileiros e estrangeiros fazem da chamada "cultura de massa". Tema que é analisado há quase 90 anos nos EUA, sem o receio de se analisar questões estéticas.

Pois o apelo da "enteligêntssia" brasileira, além de jogar até mesmo o filósofo Aristóteles no limbo, nos priva das lúcidas ideias do pensador italiano Umberto Eco. Em 1969, ele lançou um dos livros de grande valor na análise da indústria cultural, que é Apocalípticos e Integrados.

Não é uma leitura fácil. Os adeptos da permissividade popularesca podem até mesmo distorcer a leitura a seu bel prazer, aproveitando que o Brasil é o paraíso da informação fragmentada e deturpada.

Por isso, cabe aqui alertarmos, aos poucos, as ideias de Umberto Eco - autor dos romances O Nome da Rosa e Baudolino - , sempre dotadas de um senso crítico complexo, mas ponderado.

Pois na página 74 da edição brasileira, traduzida por Pérola de Carvalho e publicada na série debates da Editora Perspectiva, Eco, no capítulo dedicado ao termo kitsch - grotesco travestido de "cultura superior" - , cita duas definições de arte, que certamente esclarecem o contexto em que vivemos.

Eco confronta a noção grega e medieval de arte, como uma "tecnicidade inerente a uma série de operações diversas" e o conceito contemporâneo que define arte como "forma de conhecimento realizada mediante uma formatividade com fim em si mesma, que permita uma contemplação desinteressada".

Em outras palavras, a arte no enfoque grego e medieval é ligada a uma simples produção material através de métodos diversos estabelecidos. É um conceito ligado ao sentido meramente técnico, sujeito a mudanças tendenciosas, ou seja, conforme as circunstâncias.

Por outro lado, a arte, no seu conceito contemporâneo e de cunho social, representa uma produção que, sendo ou não material, tem sentido espiritual. Ainda que inclua técnica e métodos tais, sua finalidade é a produção social de conhecimento, transmitido comunitariamente, e que permite uma contemplação, uma apreciação que de nenhum modo pode ser confundida com consumo.

A CULTURA DO "DEUS MERCADO"

A teoria em defesa do brega-popularesco, por mais que tente nos fazer crer de que fala de uma "cultura popular pura", "saudavelmente" contagiada pelas "admiráveis impurezas" da "cultura globalizada" (eufemismo usado por eles para indústria cultural), vê a arte apenas como produção de bens de consumo "culturais" ditados pelo mercado.

Fala-se em "cultura espontânea", como se os resultados dos "produtos culturais" que observamos na TV, no rádio e nos cenários de entretenimento "popular" atuais fosse guiado pelo vento, mas por trás disso há muitos investimentos financeiros e publicitários.

O próprio discurso intelectual, até pelo apelo sentimentalista que provoca - não é pela metodologia "científica" que um Hermano Vianna e um Paulo César Araújo ganham projeção por suas teses - , serve a esse cenário fantasioso do "deus mercado". Num determinado sentido, nomes como Vianna, Araújo e Sanches são publicitários, na medida em que tentam manter o sucesso do status quo brega-popularesco através de uma mensagem persuasiva nem sempre verídica, mas verossímil.

Por isso, a intelectualidade que deveria exercer o senso crítico, age contra ele. Tudo para manter o sucesso financeiro de músicos, musas e celebridades que já representam o poderio midiático no entretenimento "popular". E que, "publicitariamente", esses intelectuais definem como ídolos "marginalizados" pela mesma grande mídia da qual fazem parte.

Almas do negócio.

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