sexta-feira, 29 de julho de 2011

A INCURÁVEL SÍNDROME DE VIRA-LATA



Por Alexandre Figueiredo

Embora o Brasil passe por transformações de ordem política e econômica, culturalmente ainda há uma campanha para que, sem assumir no discurso, o povo brasileiro permaneça eternamente na sua síndrome de vira-lata.

A "cultura popular" de mercado, como é o complexo brega-popularesco, insiste em manter sua hegemonia, tentando nos fazendo esquecer de seu vínculo com contextos político-midiáticos conservadores. Agora todo mundo é "progressista", "votou em Dilma", e há até breganejo metido a engraçadinho dizendo que "virou trotskista".

Todo o establishment do entretenimento popularesco, da Música de Cabresto Brasileira, da imprensa jagunça, das musas "popozudas", tudo agora é "cidadania", "liberdade" e "cultura das periferias". Como se fôssemos ingênuos, essa pseudo-cultura forja uma "Contracultura" de ranço demotucano mas que, pelas relações tendenciosas do mercado midiático, é empurrada goela abaixo para a mídia esquerdista, aproveitando a boa-fé de certos progressistas de coração mole.

O eterno cacoete da síndrome de vira-lata, que trava ainda mais o desenvolvimento social de nosso país, até mais do que qualquer pressão dos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional, se recicla agora em novos métodos, dentro da adaptação do velho jeitinho brasileiro dentro dos "modernos" conceitos de politicamente correto aqui vigentes.

O discurso de defesa dessa pseudo-cultura "popular" dá o tom dessa síndrome, reciclada, atualizada e ampliada. E que se tornou um verdadeiro discurso de pedinte, usado, pasmem, pela mesma classe média que fala em "defesa das classes pobres" nas suas festejadas palestras e nos badalados sítios da Internet, mas não estão aí para resolver os verdadeiros problemas vividos pelas classes pobres. Se há deslizamento de terra, haja lágrimas de crocodilos dessa classe "esclarecida".

O que vemos nessa "maravilhosa" defesa da "cultura popular" de mercado, moldada pela grande mídia mas "inocentemente" atribuída à "autossuficiência das periferias"? Balelas, tão somente! A suposta autossuficiência das periferias é um discurso, inspirado no que as classes dominantes dos EUA fazem com os pobres de lá, que tenta dar uma falsa impressão de que os pobres não precisam de ajuda para sobreviver.

Vemos o povo pobre transformado em atração do circo midiático. O povo só deve ser "bom" naquilo que ele tem de "ruim". Isso é discurso moralista de direita? Não é. Por outro lado, desde quando é discurso de "arautos da direita" questionar a domesticação sócio-cultural representada por cafonas, neo-bregas, popozudas e tudo o mais?

Discurso direitista é o contrário, é defender a prevalência de tudo isso. É toda essa defesa que vemos em textos dos "inabaláveis" Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, que continuam expressando sua santidade na maioria dos textos vistos na busca do Google. Eles é que defendem o status quo, usam mil argumentos para tentar nos convencer de que é melhor um povo pobre domesticado diante da TV e do rádio do que lutando por melhorias de vida.

É essa classe média demagógica, pseudo-esquerdista - e nem um pouco estou sendo direitista ao falar isso - que acha lindo que as revoltas sociais ocorram bem longe daqui, no Oriente Médio, em Madri, Atenas, Roma e Davos. Quando o assunto é aqui, esses "esquerdistas convictos" - que há 15 anos só faltaram sentar no colo de FHC feito bonecos ventríloquos do sociólogo-presidente - só querem que "movimentos sociais" sejam mesmo o povo pobre deslocando que nem gado para os galpões que tocam os sucessos da rádio FM popularesca tal.

E aí eles usam a síndrome vira-lata de, pelo menos, duas formas.

Primeiro, diante dos cantores, grupos e duplas de brega-popularesco no auge do sucesso, usa-se não o discurso naturalmente triunfante do sucesso conquistado, mas o marketing da exclusão, a cosmética da pobreza etc. De repente, aquele cantor no auge do sucesso banca o coitadinho e diz que é "vítima de preconceito" só porque não é reconhecido pelos estudiosos da MPB.

Mas o segundo aspecto justifica a rejeição descrita no primeiro. Que é o "artista" ou celebridade de brega-popularesco, podendo ser na música ou no comportamento, querer bancar o "correto" depois de ter cometido atos constrangedores e patéticos.

É o cantor, grupo ou dupla que passam anos gravando discos ruins, produzindo canções medíocres, para depois, tardiamente, sonhar em "fazer MPB".

É a popozuda que exibe os glúteos para a mídia, se possível na cara do telespectador, que diz coisas tipo odiar ler livros, ou posa como freiras ou enfermeiras eróticas, para depois bancar a "certinha" e posar de fada-madrinha em sessões promovidas pelo jornal popularesco tal.

É o apresentador bronco que se autopromove divulgando a violência do "mundo cão", mas depois quer ser o comunicador cult de auditório.

PRECONCEITO CONTRA SI MESMOS

Enfim, é a celebridade que primeiro se enriquece às custas de sua mediocridade para depois querer ser o "genial", o "correto", o "decente". Isso acaba sendo uma verdadeira falta de respeito da própria celebridade consigo mesma, e até mesmo um preconceito que ela sente contra si,

Ou seja, quando convém, o cantor de sambrega faz sua imitação de soul music ou mesmo de brega romântico com instrumentos de samba. O cantor breganejo faz sua imitação de country e mariachi com violões brasileiros. Todo mundo cantando letras de sofrimento amoroso que, de tão caricato e grosseiro, chegam a ser ridículas. Em outros estilos, como o "funk", o forró-brega a axé-music, ocorre a mesma coisa.

Aí, quando chegam os cinco anos de carreira fonográfica, os mesmos ídolos musicais de sucesso descobrem tardiamente que seus primeiros trabalhos são irremediavelmente medíocres e, em certos casos, jogam culpa nos empresários e produtores. E acham, esses "músicos", que depois de tanto tempo têm direito de fazer parte do primeiro escalão da MPB.

Só que, se eles hoje sentem a obsessão pela MPB, por que não sentiram isso antes, há 20 ou mais anos atrás? Por que só recentemente "descobriram" Renato Teixeira, Jorge Ben Jor, Wilson Simonal, Gal Costa, Elis Regina, se eles rolavam nas rádios durante a infância desses cantores popularescos?

Ou, no caso das popozudas, que, apesar de conhecerem ícones do charme feminino como Luíza Brunet, só tardiamente se interessam por alguma coisa próxima. Isto é, quando se interessam. Mesmo assim, fazem questão de dizer que "não são vulgares", ou, no momento extremo, posarem de ninfas, fadas-madrinhas, brancas-de-neve, Betty Boop ou ícones clássicos como Marilyn Monroe.

Tudo isso tardiamente, na última hora. O que quer dizer que impera, implicitamente, a norma: "Eu pago mico primeiro para depois fazer correto". E isso vem de um preconceito contra si mesmos.

Afinal, ninguém nasce sabendo, mas o próprio erro consiste em transformar sua ignorância inicial em milhões de cópias vendidas. É tirar sarro de si mesmo, se auto-esculhambar, que é o mesmo que faltar o respeito a si mesmo. Quando chega a hora de querer fazer as coisas direito, é tarde demais.

Primeiro o ídolo musical faz sua mediocridade alegremente. Depois sente vergonha e quer fazer bonito. E, no caso da música brega-popularesca, os ídolos "veteranos" tentam depois, na última hora, fazer MPB, como se fosse adiantar muita coisa. Não adianta. Os motivos abaixo são evidentes.

Primeiro, porque eles se afirmaram pela breguice que fizeram. Segundo, porque seguem as mesmas normas da chamada "MPB burguesa", com todos os seus clichês de luxo e pompa, que apenas os faz neo-bregas "aristocratizados". Terceiro, isso só expressa a visão confusa desses ídolos, que acham que podem ser "cultura popular de verdade" vestindo roupas de grife, enfeitando os cenários e enchendo de orquestras.

Por isso o fracasso de cantores brega-popularescos que tentam, muito tardiamente, alguma sofisticação musical. Por mais que se esforcem, apenas se tornam forçados, soam fake. Acabam por empolgar apenas os mesmos fãs de suas fases escancaradamente bregas, que acompanharam seus ídolos ao longo dos anos pela mídia.

Assim como as musas vulgares que, desesperadas, querem se passar por "musas sofisticadas" ou "militantes feministas". Ou por apresentadores grotescos que querem ser "grandes comunicadores". Ou a imprensa jagunça que quer ter o mesmo prestígio do Pasquim.

Toda essa pretensão tardia, na última hora (pegando carona no trocadilho, o Notícias Populares querendo ter o prestígio do jornal Última Hora), soa forçada, tão grotesca quanto as grosserias que querem dar a impressão de que deixaram para trás. E, muitas vezes, não deixaram.

Outro motivo é que essas guinadas sempre são tendenciosas, quando torna-se vergonhoso bancar o "pagodeiro brega", o "sertanejo brega", a "popozuda grosseira", o "jornalista brucutu", e aí o pessoal só opta para ser "decente" ou "sofisticado" quando as coisas pegam mal para ele.

Isso não significa melhora, porque esses ídolos, verdadeiras mercadorias do entretenimento, até tentam se aperfeiçoar como produtos, mas continuam humanamente medíocres e toscos. Até porque essas guinadas tentam apenas mascarar a responsabilidade dos "artistas" envolvidos com as grosserias, breguices e tosqueiras que fizeram quando eram ídolos emergentes.

Tentam escapar das consequências de seus erros, com suas guinadas para "melhor". Mas são como lata velha pintada com verniz de ouro. Não ganham brilho próprio, mas o brilho falso do tendenciosismo.

No fim, é a mesma síndrome do vira-lata. Primeiro o músico, o jornalista, a celebridade, se afirmam fazendo coisas ruins ou medíocres. Se enriquecem com isso, e, quando nada lhes desfavorece, ficam felizes com a ruindade que fazem.

Mas depois, com as pressões futuras, tentam mudar, fazem pose de vítimas e querem ser "geniais" sem fazer por onde. Mas tentam, tentam e tentam, querendo impor uma superioridade que não têm. Mas aí foi tarde demais.

3 comentários:

  1. Será que o "meteoro" Luan Santana, quando sair de moda, vai posar de "marxista"? Ou ele vai DESAPARECER DE VEZ, como aconteceu com aquele Felipe Dylon que cantava "Ô menina, deixa disso, quero te conhecer..."?

    ResponderExcluir
  2. Alexandre, gostaria que vc visse um post meu: http://pele-coral.blogspot.com/2011/07/cotas-para-negros-questao-polemica.html

    ResponderExcluir
  3. Nós também somos acusados de termos síndrome de vira-latas, Alexandre. Por esses governistas que estão promovendo essa bandalheira da Copa 2014 e da Olim Piada 2016: sejam os governos lulo-dilmo-petistas, PMDBistas, PSDistas ou demo-tucanos. Pois nós apontamos que nosso país não tem condições de sediar tais eventos, porque não estamos preparados para impedir a roubalheira, os superfaturamentos, as propinas e as dívidas monumentais deixadas por tais eventos. Não importa que sejamos diferentes: você um progressista autêntico interessado na valorização da boa cultura e na soberania popular, e eu um patriota nacionalista longe de ser regressista ou neoliberal. Somos chamados de vira-latas da mesma maneira.

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...