sexta-feira, 1 de julho de 2011

GLOBO E FOLHA FORJARAM DISCURSO "SOCIALIZANTE" DO "FUNK CARIOCA"



Por Alexandre Figueiredo

Há dez anos, um discurso "socializante" passou a ser adotado para relançar o "funk carioca", alvo de constantes críticas negativas. Ritmo meramente dançante, sem qualquer relevância artística, era marcado pelo poderio dos empresários-DJs das equipes de som.

Aproveitando a deixa da intelectualidade pós-uspiana, influenciada pela ideologia acadêmica lançada por Fernando Henrique Cardoso e que teve, em 2001, o antropólogo Hermano Vianna e o historiador Paulo César Araújo como seus principais expoentes, os empresários funqueiros se aliaram à grande mídia - também influenciada por FHC - para criarem um discurso "socializante" que perpetuasse o sucesso comercial do "funk carioca", evitando que o ritmo seja apenas uma "onda do momento".

FHC, EM CRISE, QUERIA DEIXAR SEU LEGADO IDEOLÓGICO À CULTURA

A crise política de Fernando Henrique Cardoso ocorrida desde 1998 fez com que a medíocre música brega-popularesca dos anos 90, respaldada pela mídia apadrinhada pelo conservadorismo político - vide as concessões de Sarney e ACM, este por sinal um senador poderoso nos anos de FH - , fosse usada como última trincheira do tucanato, mediante os fracassos políticos e econômicos de então.

Depois da tragédia da Plataforma P-36, os ídolos breganejos e sambregas foram gravar covers de MPB em tributos caça-níqueis organizados pelas Organizações Globo. Isso não acalmou os protestos da crítica, e diante da crise política do governo do PSDB/PFL, de um lado, e do desgaste do brega-popularesco dos anos 90, seus ideólogos tinham que mexer.

Foi aí que Paulo César Araújo foi glorificar o brega do passado, tentando dissociá-lo do inegável vínculo com o regime militar (ou, pelo menos, com as rádios e o mercado do entretenimento que apoiavam o regime militar). E foi Hermano Vianna, o hermano do Paralama Herbert, glorificar o brega do presente e do futuro, sob as bênçãos dos irmãos Marinho.

FALSA IMAGEM DE COITADINHO

Aliás, foi aí que as Organizações Globo, com o apoio "discreto" do Grupo Folha - que juntos promoveram o fenômeno Collor que abriu as portas para essa pseudo-cultura "popular" - que estabeleceram todo o discurso apologético que definia os fenômenos brega-popularescos como "a verdadeira cultura popular".

Foram os veículos impressos das famiglias Marinho e Frias que transformaram Paulo César Araújo, o ideólogo pioneiro do brega-popularesco (embora o baiano Milton Moura, sob as bênçãos do "painho" ACM, tenha exaltado o pagodão pós-Tchan nos idos de 1996).

No "funk carioca", a pregação ideológica se deu a partir de uma associação entre jornalistas da grande mídia e cientistas sociais de inspiração tucano-uspiana. Um discurso que se tornou dominante, adaptando para o contexto atual as alegações usadas por PC Araújo para relembrar os antigos ídolos cafonas.

É o mesmo discurso do "coitadinho", que contradiz o caráter de sucesso comercial sempre associado aos ritmos popularescos. Um discurso estranho, em se tratando de fenômenos musicais sempre bem-sucedidos, porque fala em "derrota" e não em "vitória". Mas que funciona no seu apelo sentimentalista e sensacionalista, ainda que seja uma falsa imagem de "coitadinho" relacionada a seus ídolos.

O discurso apologético do "funk carioca" tenta compensar a evidente mediocridade musical do gênero com alegações delirantes, desesperadas e uma retórica confusa que se permitiu prevalecer sobretudo por causa da influência hegemônica do establishment caetânico que toma as rédeas da indústria cultural nos últimos 35 anos.

DISCURSO SOFISTICADO PARA DEFENDER UM RITMO GROTESCO

O discurso engenhoso do "funk carioca" tem a façanha de criar uma retórica sofisticada que contradiz seriamente com o ritmo, dotado de uma grande mesmice rítmica e de uma baixíssima estética artística e cultural.

Criam-se alegações e desculpas delirantes, usam-se dos mais diversos recursos discursivos, desde uma simples mensagem de cunho publicitário ou panfletário até técnicas de narrativa como o New Journalism e a História das Mentalidades. E criam-se comparações das mais insólitas, envolvendo desde o maxixe ao punk rock, desde a Semana de Arte Moderna até o movimento Pop Art.

É um discurso rico em referências, ainda que confuso e anti-científico, apesar de transmitido até em monografias universitárias. Um discurso que até chega a convencer quem nunca ouviu "funk carioca" na vida. Mas é só botar um CD do gênero para toda essa rica retórica se desfazer feito castelo de areia...

FOLHA E REDE GLOBO

A campanha foi transmitida e bolada em larga escala por gente ligada direta ou indiretamente às Organizações Globo e Grupo Folha. Era como se o "caçador de marajás" das Alagoas desse lugar aos "funqueiros vítimas de preconceitos" do Rio. A hipocrisia é a mesma, mas a campanha que elegeu um político influente agora presta serviço à perenidade de um ritmo da mediocridade cultural.

Reportagens de capa do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, foram lançadas. O mesmo com o Segundo Caderno de O Globo. Aliás, todo o "funk carioca" ganhou as graças da Rede Globo de Televisão, contrariando qualquer desculpa de que o ritmo estava fora da mídia. O ritmo estava não só dentro da grande mídia como prestava gratidões aos Marinho e Frias.

A presença do "funk carioca" nos veículos das Organizações Globo daria uma monografia à parte. O ritmo chegava a ser trabalhado com diferentes imagens, conforme o perfil do programa ou do canal.

Alguns exemplos. O "funk" poderia ser um ritmo de "sucesso", se veiculado na rádio carioca Beat 98 FM ou no Caldeirão do Huck da Rede Globo. Mas poderia se passar por "cult", se veiculado pelo canal Multishow. Ou virar um fenômeno fashion, na Quem Acontece, ou ser empurrado para o público trintão de classe média, como num episódio do seriado Sob Nova Direção.

Até personagens foram criados, seja a novelesca Raíssa, sejam os humorísticos MC Ferrow e MC Deu Mal, do "entucanado" Casseta & Planeta.

O que prova, por A mais B, que o discurso "vanguardista" do "funk carioca", como o de outras tendências do brega-popularesco (até mesmo o tecnobrega) foi forjado nos escritórios da grande midia golpista e da intelectualidade de formação tucana.

Um comentário:

  1. A famiglia Frias está dando o maior apoio para o Mr. Catra, que já é queridinho da Rede Globo.

    Pelo jeito os "Caros Amigos" andam meio desinformados das coisas.

    Quem duvida é só ver este link:
    http://guia.folha.com.br/shows/ult10052u946890.shtml

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