terça-feira, 19 de julho de 2011

FALTA DE NOÇÃO DO TEMPO E DO ESPAÇO



Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, o chamado "popular de mercado", comprovou que cresceu demais e começa a sufocar as demais manifestações culturais mais autênticas.

Esse crescimento exagerado, feito nos últimos anos e realimentado por um marketing que vendia a imagem de "coitadinhos" para ídolos no auge da carreira e popularidade - uma campanha tosca e grotesca, mas que seduziu muita gente - , anda causando tantos problemas, que geram até mesmo a arrogância de fãs, assessores e empresários, que não gostam de ver seus ídolos questionados.

A falta de noção do tempo e do espaço, e a forçada perenidade dos ídolos brega-popularescos - que, na melhor das hipóteses, poderiam ter simbolizado uma "Jovem Guarda subtropicalista e brega" - , provoca distorções que podem causar efeitos negativos na cultura brasileira que, com uma história rica e batalhadora, é condenada a se reduzir a um hit-parade apenas dotado de clichês dos ritmos populares mais conhecidos.

A falta de noção envolve várias posturas. Mas é também reflexo da falta de medida própria da música brega e seus derivados (que incluem até a "moderna" axé-music e o "polêmico" "funk carioca"). Uma falta de medida notada na mediocridade melódica, nas letras exageradas e na quase ingenuidade dos seus ídolos.

Mas a falta de medida também é expressa na agressividade de fãs, assessores e outros defensores dos ídolos popularescos que, uma vez criticados, incitam a fúria de seus adeptos que não medem xingações para desqualificar os discordantes. Também é falta de medida desses defensores em não reconhecer que nem todos os blogues podem ser favoráveis a esses ídolos.

Mesmo tendências musicais autênticas, como a Bossa Nova e os artistas regionais dos anos 40-50, são localizados no tempo e no espaço. Mas eles tiveram força artística para superar-se no tempo e no espaço (ainda que, neste critério, eles tenham reconhecida a sua identidade regional específica).

O brega-popularesco até tem seu contexto limitado do tempo e espaço. Os primeiros ídolos cafonas são associados ao contexto de 1964 a 1968. Depois, veio a segunda geração de cafonas situada de 1968 ao fim da década de 70. Veio o "brega de luxo" dos anos 80, que pavimentou o neo-brega de 1990 (breganejo, lambada, "funk carioca" e sambrega) e de 1997 (axé-music, porno-pagode e forró-brega).

Todavia, a falta de medida dos ídolos brega-popularescos sempre os fazia serem, no fundo, expressões tardias de linguagens musicais gastas. Os primeiros ídolos cafonas imitavam boleros e serestas que saíram de moda, sem a graça original dos antigos seresteiros. A segunda geração cafona embarcou na Jovem Guarda quando ela já havia terminado. Os ídolos do "pagode romântico" e "sertanejo" da safra 1990-1997 só "descobriram" a "MPB burguesa" dos anos 80 há dez anos atrás.

Aliás, foi em 2002 que o brega-popularesco passou a ter pretensões (falsas) de "arte", pior do que os piores cacoetes do rock progressivo e fazendo pose de "coitadinho", veio o revival não-assumido. Enquanto se faziam documentários, cinebiografias, monografias e livros, que mal conseguiam disfarçar um saudosismo dos "áureos tempos" do "popular de mercado", seus ídolos, quase todos, vendiam uma pretensa imagem de "ascendentes", como se eles tivessem surgido ontem e nunca tivessem feito sucesso na vida.

Era uma coisa contraditória. Ídolos que faziam revival e se achavam "artistas do presente e do futuro". Ídolos que só gravavam covers e discos ao vivo, com pouca produção autoral (sofrível), mas que se julgavam os "grandes criadores de nossa música". E, no auge da popularidade, posavam de coitadinhos mais preocupados com a rejeição que recebiam de um público qualificado do que pelas plateias que lotavam os locais onde se apresentavam.

A propaganda maluca convenceu muitos incautos, e gerou tendências derivadas. Já não se inventava mais coisa alguma no brega-popularesco, os "novos ritmos" tinham sabor de coisa velha requentada.

O "funk carioca" apenas adotou o "tamborzão" (som de bateria eletrônica que imita batidas de candomblé) como recurso para turista ver. O arrocha é uma versão eletrônica do velho brega de 1968-1977, com alguns recursos vocais inspirados no "pagode romântico" e "sertanejo". O tecnobrega é um forró-brega tocado em ritmo do brega pós-Jovem Guarda de Odair José e companhia. A tchê music é um cruzamento de "sertanejo" com axé-music.

Isso não é reinvenção, como alardeia a intelectualidade midiatizada, mas apenas costuras de tendências para fins mercadológicos. E a falta de medida faz com que a axé-music e o forró-brega invadam tranquilamente redutos que antes eram fechados a eles, como o Sul e Sudeste, a ponto de criarem "reservas de mercado".

Aparentemente, isso pode até parecer correto, mas mostra o caráter imperialista e anti-regional desses ritmos. Chegou-se ao ponto da axé-music desprezar sua cidade de origem, a baiana Salvador, na obsessão de querer conquistar Niterói, Belo Horizonte, Florianópolis e até Nova York. Se deixarem, o carnaval pernambucano viraria uma sub-micareta monopolizada pelos baianos. Mas os axézeiros tiveram que voltar para Salvador antes que fossem chamados de "traidores" por não se dedicarem ao seu próprio reduto de origem.

A falta de tempo e espaço empurrou os estilos brega-popularescos para festivais de MPB, eventos de cultura alternativa, e a mesmice popularesca praticamente expulsou as expressões contrárias a essa mesmice, a cada dia com menos espaços. O rótulo "universitário" só fez agravar a situação e criou um clima "Brasil: Ame-o ou Deixe-o" de obrigar que, por exemplo, a Bossa Nova seja melhor apreciada em Nova York ou Tóquio.

A coisa chegou ao ponto de cantores conhecidos como Djavan e Milton Nascimento serem ameaçados de ostracismo. Djavan, então, seria quase um one hit wonder, conhecido apenas pela música "Oceano" (as demais músicas seriam apropriadas por grupos e cantores de sambrega). Não podemos criticar sequer os piores ídolos brega-popularescos, mas somos "estimulados" a esculhambar um nome respeitável como Chico Buarque.

A falta de medida continua aprontando. Os ídolos brega-popularescos acumulam fortuna, mas sempre são "gente humilde da periferia". Mas suas fortunas ultrapassam até mesmo o patrimônio financeiro de "burgueses" como Francis Hime, Fátima Guedes e Roberto Menescal, cujas finanças são muitíssimo modestas se comparados a qualquer ídolo do "pagode romântico".

O brega-popularesco também mostra sua falta de medida no noticiário policialesco que acha que pode se nivelar aos históricos Pasquim e Última Hora. Ou das popozudas que não mediam o tamanho de seus glúteos e de suas safadezas, servindo o entretenimento machista mas achando que estavam promovendo um "novo tipo de feminismo". Falta de medida também é falta de noção. E há as "marias-coitadas" que não faziam medida nas opções afetivas, sonhando com um Thiaguinho ou Vítor Chaves mas cismando com sósias nerds de Ian Curtis e John Lydon que apareciam no Orkut.

E, indo mais além. O brega-popularesco, mesmo alinhado, na prática, a contextos políticos e midiáticos conservadores, tentava se julgar "acima das ideologias". Empurrava-se o brega-popularesco até mesmo na imprensa esquerdista, com o mesmo discurso de coitadinho, até levado ao exagero. Mas, com o tempo, até "pregadores" da espécie de Pedro Alexandre Sanches já começam a ter problemas com a opinião pública de esquerda.

Enfim, essa falta de medida, que envolve arrogância, concentração de poder, invasão de espaços e desrespeito humano só faz essa "cultura popular de mercado" se desgastar violentamente. Seu desgaste, hoje, é resultado de um senso crítico que foi sufocado durante décadas, e cuja errupção repentina causa a fúria daqueles que acreditavam que o brega-popularesco era unânime. Falta de medida de público, de ética e de liberdade de opinião.

O brega-popularesco não sabe o que é democracia. Na sua falta de medida, ela quer a "democracia" de si mesma, a "diversidade cultural" de sua mesmice acumulada nas últimas décadas. Mas, como em toda falta de medida, o brega-popularesco está impotente diante das transformações que vivem a sociedade brasileira.

Seu império começa a ruir.

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