sábado, 23 de julho de 2011

A CULTURA NÃO É UMA VIRGEM BAILANDO NO PARAÍSO



Por Alexandre Figueiredo

A insistente contradição entre o ácido questionamento do noticiário político conservador e uma certa acomodação ao entretenimento de direita veiculado pela mesma grande mídia - até isentando a responsabilidade desta no processo - mostra a má compreensão que setores influentes da classe média brasileira tem sobre cultura.

Pensam que a cultura é como uma virgem imaculada que baila no paraíso, indo sem lugar definido, apenas bailando, bailando. Ou então imaginam que a cultura é um bebê que passeia pela casa sem saber aonde está indo, apenas sendo dirigida pelo seu impulso natural do instinto.

No entanto, a cultura é um processo que envolve relações sociais, transmissão de valores etc. E, num contexto de conflito de classes, a cultura sofre, até mais do que a política strictu sensu, os conflitos e manobras que envolvem dominadores e dominados.

Achar que a coisa explode no noticiário político e nos latifúndios, mas acreditando que reina a maior paz em "bailes funk", micaretas, vaquejadas e festivais de "pagodão" é cometer a mais grave das incoerências.

Primeiro, porque, desde 1964, a direita política e econômica fez de tudo - sim, de tudo - para evitar que os progressos sociais desejados pelos movimentos progressistas de então florescessem, e se o IPES-IBAD, os dois "institutos" golpistas, comandavam uma série de instituições e movimentos da direita brasileira, por que temos que reduzir as manobras direitistas de hoje para o âmbito rigorosamente político?

É evidente que manobras mais perigosas são feitas em âmbito cultural, porque o que está em jogo é o desenvolvimento do espírito social de um povo, com suas crenças, atividades e valores. As manobras da grande mídia neste sentido visam manter as classes populares domesticadas, e a aparente "felicidade" das mesmas não causa estranheza, até porque as massas se tornam inofensivas.

Afinal, a classe média manipula seu discurso: "estamos em outro país. Vejam as revoltas sociais explodindo lá fora, as passeatas, os protestos em Davos. É tudo lindo, mas aqui reina na santa paz, todo mundo ao Vibe Show ver seu cantor de 'pagode romântico', seu 'funk', seu tecnobrega, é uma beleza".

Parece coisa do Jornal Nacional nos tempos do regime militar. O mundo explode e se mobiliza lá fora, mas aqui reina na "santa paz" do mercado dominante e da massa obediente.

Só variam alguns detalhes do discurso. A grande mídia que investe no brega-popularesco, mesmo sendo a mesma grande mídia do discurso neoliberal, é vista como uma "acidental divulgadora" de seus ídolos e valores.

Se há uma grande mídia regional, ela é mídia "pequena", "independente" e "alternativa". Até porque seus empresários evitam no máximo o uso de paletós e gravatas, quase sempre aparecem de camiseta, jeans e tênis, e quando muito combinam paletós com camisas de algodão e tênis de caminhada.

Isso porque "lidamos" com uma "cultura popular" que é vista como a virgem do paraíso. Temos uma "Disneylândia" nas periferias, tudo é sonho e fantasia. Mas o discurso claramente contrasta com a realidade sofrida pelas classes populares. Sobretudo nas zonas rurais, onde a pistolagem corre solta.

Os recortes discursivos mal conseguem disfarçar o contraste que, por exemplo, vemos no Pará. De um lado, a "inocência lúdica" do tecnobrega, de outro os sangrentos conflitos de terra. De um lado o Pará-paraíso, de outro o Pará explosivo do coronelismo.

Difícil entender por que algumas pessoas insistem em contrastar a abordagem política da cultural. Gustavo Alonso Ferreira disse que a ditadura militar foi "muito popular" e eu é que sou "arauto da direita". O Jornal Nacional dos tempos de Cid Moreira e Sérgio Chapelin ainda está fortemente marcado na vida das pessoas.

O fato de se bater na tecla no assunto de cultura, numa abordagem que é um verdadeiro remo contra a corrente hoje vigente, é porque o país atravessa por transformações sociais que a classe média não consegue compreender. E que, em muitos casos, não aceita mesmo, investindo num recacionarismo furioso que contrasta com seu "esquerdismo de pose".

Esses reacionários falam mal de Fernando Henrique Cardoso no discurso, mas na prática seguem religiosamente suas lições. Os maiores discípulos se encontram naqueles que, ainda que xinguem seus mestres até de forma grosseira, seguem fielmente suas lições mais importantes. Sinal de que, em algum ponto, os discípulos continuam seguindo com entusiasmo os seus mestres "desafetos".

Um comentário:

  1. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/quinze-teses-laicas-contra-a-transcendencia-do-x

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