segunda-feira, 11 de julho de 2011

A CULTURA DE DIREITA SE ACHA "DONA" DAS ESQUERDAS


LIXO CULTURAL NO CHÃO OU EM QUALQUER LUGAR - Para a direita enrustida (que se julga "a verdadeira esquerda"), lixeiras só servem para se jogar preciosidades.

Por Alexandre Figueiredo

As conveniências sócio-políticas e a memória curta dos brasileiros, mais uma vez, impõem seu preço caro demais para o Brasil. E isso faz com que o Governo Federal, contaminado por alianças e demandas espúrias, se perca em projetos paliativos adotados no lugar de medidas transformadoras.

Sabemos que isso é um cacoete histórico de nosso país. Sempre construímos novos edifícios com andaimes podres e envelhecidos. A independência do Brasil foi de Portugal foi declarada sem que seja feita uma ruptura com o sistema sócio-político colonial. A república brasileira foi construída das ruínas da estrutura escravista depois convertida na "moderna" elite latifundiária.

A República Velha só foi assim conhecida de 1930 em diante. Antes, seus defensores faziam o possível para vendê-a como "nova" e "moderna". "República Velha? Huahuahuahua!", diriam, se adotassem a linguagem que se usa hoje em dia.

Vivemos um período de verdadeira esquizofrenia social. Mas isso também é coisa antiga. Tínhamos no Brasil a estranha espécie de "iluministas" que defendiam o regime escravista. Hoje temos "esquerdistas" com ideias de direita. Gente que é "de esquerda" porque "é legal".

Fui acusado de direitista pelo escritor Gustavo Alonzo Ferreira, que, além de escrever um livro sobre Wilson Simonal, tem um blogue, Cada Um Tem O Livro Que Merece - o linque é este para quem interessar - e ele veio com um comentário bastante lamentável, ao reproduzir um de meus textos sobre o livro dele:

"Crítica ao livro: o tom é parecido com os arautos das direitas... mas o autor se diz esquerdista "da gema". Alegria, alegria, pessoal!"

O comentário infeliz demonstra uma total incompreensão das coisas. Afinal, o rapaz deveria primeiro olhar ao redor de si e ver quem é que é o arauto da direita. Ele foi entrevistado por um, Pedro Alexandre Sanches, cujo DNA folhista-abrilino-global salta aos olhos de quem acompanhou a imprensa musical nos últimos 15, 25 anos.

E não sou eu quem diz isso. Mas o próprio Pedro Sanches é que demonstra com seus textos. Vamos comparar as próprias palavras de Pedro Alex Sanches e um depoimento de Francis Fukuyama para vermos o quanto o crítico "de esquerda" na verdade segue as ideias de um historiador neoliberal. O trecho escrito por Sanches mostra claramente a tese do "fim da história" aplicada à Música Popular Brasileira:

"Se o prumo saudosista persiste, mudemos de rumo. A espontaneidade das cenas de bastidores de 1967 é útil para não trazer nostalgias do que já não temos mais (ou nunca tivemos, no caso das gerações mais recentes)."

Sim, puro Francis Fukuyama, nas palavras escritas pelo próprio ex-funcionário de Otávio Frias Filho. E, para quem duvida isso, é bom deixar claro o que Francis Fukuyama definiu como "fim da história".

Segundo Fukuyama, o "fim da história" consiste no encerramento do processo histórico da humanidade devido à conquista da hegemonia absoluta da "democracia ocidental" (como os direitistas chamam o "neoliberalismo"). Tivemos etapas como a Antiguidade greco-romana, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a Revolução Russa, mas tudo isso foi superado e agora a humanidade apenas se destina, segundo Fukuyama, a desfrutar os "benefícios" da tecnologia e do mercado.

Pois é exatamente isso que Pedro Alexandre Sanches fala do "fim da história" da MPB. Tivemos Bossa Nova, baiões, sambas, modinhas, lundus, mas hoje os brasileiros apenas "desfrutam" dos "benefícios" da "cultura de massa". O folclore é coisa de museu, agora temos que usufruir, de forma acrítica, a "cultura popular" veiculada pelas rádios FM e pela televisão aberta. Neste sentido, o brega-popularesco é o neoliberalismo aplicado à canção popular brasileira.

Quanto ao nervosismo de Gustavo, ele certamente imaginou que eu havia ridicularizado Wilson Simonal. Nada disso. Ele foi um artista ímpar, um grande músico, que apenas não conseguiu sustentar seu sucesso repentino. Mas talentoso ele era, sim, da mesma forma que Chico Buarque também tem talento indiscutível. E eu até gostaria que Wilson Simoninha, o herdeiro artístico do "Simona", tivesse a mesma popularidade que o pai teve no auge.

O grande problema é que eu questiono o maniqueísmo que o autor e blogueiro em questão quer promover entre Buarque e Simonal. Questionar isso não é ser "arauto da direita".

Por isso Gustavo deveria prestar muita atenção aos verdadeiros arautos culturais de direita, como Pedro Sanches e Paulo César Araújo, integrantes de uma intelectualidade influenciada claramente pelos "ensinamentos" de Fernando Henrique Cardoso, mas que agora tentam controlar as esquerdas, se aproveitando da visibilidade que têm.

É bom deixar claro que a "cultura popular" que Sanches, Araújo e companhia defendem é a mesma que sempre foi trabalhada por um sistema midiático que historicamente esteve vinculado a governos conservadores como o regime militar e os governos Collor e FHC, e que foi fortalecido nos últimos 20 anos por rádios que foram explicitamente apadrinhadas por Sarney e Antônio Carlos Magalhães.

Agora tentam renegar essa realidade, como se a mídia que trabalhou com o brega-popularesco nunca tivesse sido ligada às oligarquias político-midiáticas que deturparam a cultura popular, transformando-a numa sub-Disneylândia atribuída às "periferias".

2 comentários:

  1. Genial este texto, Alexandre!! Acho uma pena que a Revista Fórum, Carta Capital e Caros Amigos (cujo nome remete a uma canção de Chico Buarque) insiste nessa marionete de Otávio Frias Filho que pensa ser o maior crítico de vanguarda do país.

    Você é que devia estar nas páginas desses veículos de imprensa. Você tem conhecimento de causa. Vá em frente, não se preocupe com os reaças que só querem lhe esculhambar.

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  2. E esse Pedro Alexandre Sanches se acha o maior crítico de esquerda? Com esse pensamento claramente influenciado por Francis Fukuyama, provavelmente por intermédio do padrinho do paçoqueiro, Otávio Frias Filho, não há como.

    O problema é que os leitores da imprensa de esquerda continuam lendo apressado como todo leitor de jornal em barbearia. Por isso não sabem discernir as coisas.

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