segunda-feira, 4 de julho de 2011

A CULTURA DA ERA ITAMAR


MARISA MONTE - Símbolo da reação contra o liberal-populismo collorido.

Por Alexandre Figueiredo

O governo Itamar Franco pode não ter sido um governo progressista. Não pode ser comparado com outro governo subitamente assumido pelo vice, o governo João Goulart, nem sequer pelo governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek.

Mas depois da breve farra populista de Fernando Collor, o governo Itamar Franco, cuja única realização de grande porte foi o Plano Real, representou um cenário sócio-cultural de recuperação, depois da mediocridade simbolizada pelos governos de Sarney e Collor.

Muito se fala que o governo Sarney foi marcado pelo Rock Brasil. Não. O governo Sarney foi o governo de Sullivan & Massadas, de Wando, Fábio Jr. e de uma Rosana convertida de uma promissora cantora soul dos anos 70 para uma cantora brega dos anos 80. E ainda havia a axé-music apadrinhada pelo "painho" Antônio Carlos Magalhães que, como ministro das Comunicações, fez concessões politiqueiras de rádios e TVs com José Sarney.

Essas concessões de rádio e TV, pela mentalidade dos "empresários" beneficiados pelos dois oligarcas, desenharam o perfil padrão de "cultura" que certos intelectuais ideólogos, por boa fé ou mesmo por puro cinismo, atribuem ser das "pequenas mídias das periferias".

A Era Collor, por isso mesmo, foi simbolizada pelos tendências que diluíram os ritmos regionais brasileiros. Vieram o "sertanejo" (ou breganejo), o "pagode romântico" (ou sambrega), a lambada (que diluía ritmos afro-caribenhos tradicionais) e o "funk carioca", além do avanço mercadológico da axé-music para fora do território baiano (claro, ACM prosseguia no poder, apoiando Collor).

Com o escândalo da corrupção collorida - quando se descobriu que os confiscos das poupanças eram para pagar "dívidas" do esquema de Paulo César Farias - , veio a revolta que unificou classe média e classes populares e fez o Congresso Nacional votar o impedimento político de Collor.

Com isso, assumiu o vice Itamar Franco, que mudou seu ministério e representou um cenário político menos problemático. Na sociedade, isso já foi suficiente para significar um novo astral, representado por referências e fatos que, felizes ou não, impulsionavam a sociedade a se manifestar e se mobilizar.

1993 foi o ano em que Guilherme de Pádua, ator que, com sua então esposa, matou a colega dele Daniella Perez, no final do ano anterior, ficou preso. Também foi o ano da prisão de 14 banqueiros do jogo do bicho, que formavam um esquema de comércio criminoso. Mas mesmo as tragédias da Candelária e Vigário Geral, ambas no Rio de Janeiro, eram fatos negativos que geraram imediatamente reações da coletividade, estimulando a mobilização.

Na cultura, o desgaste dos ídolos brega-popularescos da Era Collor abriu caminho para a MPB autêntica, que, depois de tanto tempo desprezada pelo público jovem, diante dos excessos pomposos da geração 80, voltava à tona. A geração que havia tentado algum lugar ao sol em 1989, como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan e Cássia Eller, além de Zeca Baleiro, Lenine e Chico César, finalmente conquistava o grande público.

Embora não fosse uma geração revolucionária - de uma forma ou de outra, essa geração lembrava o que a geração emepebista fazia nos anos 70 - , representou uma luz no fim do túnel, e valia pela novidade circunstancial, pois a juventude estava apegada ao Rock Brasil e ignorava completamente o legado da MPB.

Por isso era até um fato positivo adolescentes ouvirem Paulinho da Viola, Jorge Ben Jor e a Gal Costa de 1967-1971, e nessa época a própria MPB começava a se tornar um segmento para rádios FM, além de seu repertório integrar também o cardápio musical das chamadas rádios "adultas". A redescoberta da MPB, depois de tanto tempo, arejava a cultura brasileira.

Além do mais, o jornalismo policialesco, de Notícias Populares (do grupo Folha) e do Aqui Agora do SBT começava a ser criticado pelos intelectuais. O "esforço" da grande mídia em transformar o povo pobre num misto de bobos da corte e aberrações de circo começava a ser contestado por intelectuais que, independente da corrente ideológica, também eram independentes do mercado e dos interesses da mídia.

Só que, depois, com o início da Era FHC, o mercado popularesco da Era Collor voltou com apetite redobrado. Vieram tendências mais grotescas do brega-popularesco, numa fúria dos barões do entretenimento contra as classes populares, tamanha a sede, a fome e o apetite do poder midiático em domesticar o povo pobre.

Vieram as musas "popozudas" num retorno ao grotesco lúdico da Era Geisel. O jornalismo policialesco se multiplicava, para que quando alguns veículos se desgastassem - Aqui Agora e Notícias Populares se extiguiram - , o mercado os substituísse imediatamente por outros similares.

Multiplicaram-se as tendências brega-popularescas, já com o fortalecimento de empresas regionais. Mas ainda não havia muitos intelectuais "vendidos" para o poder midiático. Apenas Milton Moura e Roberto Albergaria, cientistas sociais baianos, eram "comprados" pelo establishment midiático carlista, e Hermano Vianna mal havia conseguido seu diploma de doutorado.

Ao longo da Era FHC, os mesmos ídolos musicais brega-popularescos da Era Collor ganharam um banho de loja, de técnica e tecnologia e, sob as bênçãos da mídia golpista, se infiltravam em tributos tendenciosos da MPB para gravar covers, dando a falsa impressão de que eles "também eram MPB".

Infelizmente, hoje vivemos um período de grande cooptação. A direita cultural brasileira tenta se impor acima das ideologias e dos interesses políticos e midiáticos. Grande engano. Ela sempre se alimentou do poder midiático, político e econômico.

Mas 1993, talvez mais pelo fim da Era Collor do que pela simbologia social do governo Itamar, provou que reagir a essa direita cultural é possível.

Um comentário:

  1. Alexandre, porque você não escreve nenhum texto sobre a cultura da Era Figueiredo falando não só do Rock Brasil, das FMs segmentadas e da Lira Paulistana como também, por exemplo, da música "infantojuvenil" dos Abelhudos, do Balão Mágico e dos Menudos?

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