terça-feira, 26 de julho de 2011

COMO MONTAR UMA PSEUDO-CULTURA "POPULAR"



Por Alexandre Figueiredo

A dita "cultura popular" veiculada pela mídia nada contribui para o progresso sócio-cultural das classes pobres. Elas apenas aparecem como meras consumidoras ou, recrutadas para o meio artístico, se limitam a reproduzir valores dominantes veiculados e promovidos pela grande mídia.

Desde o regime militar, essa pseudo-cultura é transmitida em larga escala, e seus produtos chegam a ser "diversificados" para o "gosto do freguês". Criaram-se modismos regionais, sob o claro apoio da mídia oligárquica de cada região, mas hoje existe uma campanha que quer vender todo esse elenco desse entretenimento midiático como se fosse a "verdadeira cultura popular".

Sabemos desse mecanismo todo e seus defensores tentam nos convencer de falsas alegações "sociais", "intelectuias" etc, como os antigos golpistas de 1964 falavam de "democracia e liberdade".

Mas aqui vamos mostrar os procedimentos principais para dar a impressão de que essa "cultura" é "verdadeira", e como se dá sua insistência em prevalecer essa visão.

Eis as regras dadas aos "artistas" e "musas":

1) NACIONAL, MAS NEM TANTO - Quem se envolve com música tem que fazer ritmos com alguma "regionalidade", mas bastante limitada. Precisa obrigatoriamente colocar alguma influência estrangeira, inspirada pela superficialidade radiofônica dos "sucessos das paradas". Isso visa aliar, culturalmente, os valores do coronelismo, através da linguagem "regional", e o capitalismo hegemônico, através da supremacia dos elementos estrangeiros.

2) NADA DE CONSCIÊNCIA CRÍTICA - Os ídolos musicais do brega-popularesco não podem adotar uma visão crítica do mundo. Eles terão que sorrir apenas e falar, nas entrevistas, sobre sua origem humilde, suas relações familiares e só. Nada de defender o MST, por exemplo, porque irritaria os fazendeiros que despejam milhões de reais para promover, por exemplo, ídolos "sertanejos", e a trazer ídolos da axé-music e "pagode romântico" para cantarem em rodeios.

Quando muito, o "artista" deve adotar uma visão ufanista do país - tipo dizer que acredita "no povo do nosso país" - e um certo puxa-saquismo a políticos em ascensão (podendo ser um Fernando Collor ou Dilma Rousseff conforme as circunstâncias). Até para escolher os covers de MPB para gravar, deve-se tomar muito cuidado. "Construção", de Chico Buarque, ou "Caminhando" de Geraldo Vandré, nem pensar. Algumas opiniões confusas sofre sexo e fidelidade conjugal são ótimas para estimular a popularidade.

3) O CELIBATO DAS "MUSAS" - As chamadas "musas calipígias", que nada fazem de relevante senão exibir os corpos "turbinados" para a mídia, são obrigadas a quase sempre romper com seus namorados e maridos para não "atrapalhar a carreira".

Em certos casos, os maridos e namorados até são indenizados pelos empresários das "musas" para viverem longe delas. Quanto a elas, até mesmo uma falsa imagem de "encalhadas" pode ser criada, como no caso das dançarinas do É O Tchan.

4) SER "POLÊMICO" OU "SOFISTICADO", É SÓ ESCOLHER - Os ídolos brega-popularescos podem optar por adotarem estilos "polêmicos" ou "sofisticados", conforme o receituário de certos estilos. A axé-music, o sambrega ("pagode romântico") ou breganejo ("sertanejo") tentam ser pretensamente sofisticados.

O forró-brega, o "funk carioca" e o porno-pagode ("pagodão baiano") costumam ser pretensamente polêmicos. Em certos casos, porém, o forró-brega pode parecer "sofisticado" quando tenta emular o baião de raiz, e o "funk carioca", aliado ao brega de Odair José & cia, já possui uma vertente chamada "funk melody".

5) SER ADAPTÁVEL E OBEDIENTE - O ídolo popularesco tem que estar pronto para mudar conforme os ditames do mercado. Mudar o visual, a tecnologia e a técnica para atender às demandas do mercado. Se começou a carreira fazendo uma imitação "caipira" de Waldick Soriano, passe depois a imitar o Clube da Esquina.

Mas o ídolo deve prestar atenção no tendenciosismo e nas imposições do empresário. De Geraldo Vandré, por exemplo, já tem "Disparada" para coverizar. Nada de letras críticas, sofrimento só aquele fictício das letras amorosas. A opção é seguir o que o empresário disser: que música de samba autêntico, de caipira autêntico, de baião autêntico gravar, qual o terno que cai bem, qual será a roupagem musical a assumir, se a onda é imitar Wilson Simonal ou Jorge Aragão, Renato Teixeira ou Flávio Venturini, se há um bom tributo musical promovido por uma grande rede de TV, e por aí vai.

A adaptação também tem por fim tentar um pretenso desvínculo com a grande mídia. Saber aparecer no Domingão do Faustão da Rede Globo, fazer seu Arquivo Confidencial, para depois ir para a Rede Record reclamar do boicote da grande mídia a ele. O público não vai questionar mesmo, vai ver a choradeira e isso será crucial para o aumento de popularidade.

E, como o empresariado do brega-popularesco precisa continuar faturando, eles lançam mão até de investir na intelectualidade para esta defender uma música de mero consumo como se fosse a mais sublime arte do folclore brasileiro. Aí será ótimo para o intelectual, porque aí ele não vai esperar chegar verbas do CNPq para fazer sua tese de pós-graduação. Ele faz sob o patrocínio dos barões do entretenimento.

Quanto à intelectualidade, os procedimentos devem ser estes:

1) RETÓRICA ENGENHOSA - Crie todo um discurso que aproveite os mais sofisticados recursos da retórica linguística. Se faz reportagens, encha de new journalism, com uma pitada de História das Mentalidades, com alguns maneirismos inspirados nos textos e entrevistas de Caetano Veloso, paradigma de guru da intelectualidade média brasileira.

Se faz monografias ou ensaios acadêmicos, melhor ainda, e aqui não precisa ser "científico" se o intelectual possui visibilidade no meio acadêmico. Basta ser um "nome de respeito" que qualquer besteira é publicada. Ninguém vai desafiar a reputação do intelectual influente e cheio de contatos poderosos.

2) ETNOCENTRISMO DO BEM - O intelectual tem que atribuir ao "outro" - no caso o ídolo brega-popularesco e seu público - uma sabedoria e um engajamento que este na verdade não tem. No "funk carioca", por exemplo, a regra é atribuir a esse ritmo chinfrim referências das mais díspares, como a rebelião de Canudos, a Semana de Arte Moderna, a Pop Art anglo-estadunidense e o punk rock. A regra, em suma, é essa: procurar cobrir uma caixa de presentes vazia de conteúdo com o máximo de embalagem sofisticada.

Isso é eficaz, porque o público e os "artistas" de brega-popularesco passam a ter a falsa impressão de uma sabedoria e um engajamento que eles nem têm ideia do que se trata ou para que serve. O intelectual se torna senhor de sua consciência, ainda que de forma "positiva". Isso cria dois efeitos contraditórios entre si, mas eficazes para o sossego dos poderosos: o povo pobre não é encorajado a mobilizar-se, porque é "feliz", mas é induzido a pensar que mobiliza, apenas porque consome os sucessos "mais polêmicos" do brega-popularesco.

3) FALSA INDEPENDÊNCIA MIDIÁTICA - A intelectualidade etnocêntrica, que defende o brega-popularesco, é dependente da grande mídia. Sim, dos mesmos barões da grande mídia em que se enquadram calunistas, urubólogas e produção de reporcagens. Afinal, esses intelectuais se formaram dentro da ideologia neoliberal ensinada por Fernando Henrique Cardoso e companhia, e isso inclui até mesmo as "recomendações" midiáticas de "titio" Otávio Frias Filho.

Mas mudam-se as circunstâncias e a intelectualidade tem que fingir que nada tem a ver com a mídia. E aí vai Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, entrar de gaiato na mídia esquerdista. A desculpa é que o brega-popularesco está acima da grande mídia e, por isso, acima das ideologias. Mas isso até o mestre não-assumido de Sanches, Francis Fukuyama, fez: o historiador do "fim da história" também se dizia "acima das ideologias".

Cria-se até uma "matemática" estranha para a projeção de seu discurso e a dos ídolos que defende na grande mídia. Se aparece na Globo e na Folha de São Paulo, mas no dia seguinte está na Rede Record, então "está fora da mídia". É como se houvesse uma equação fictícia que diz: "G1 + R7= -M" (alusão a G1, portal da Globo, R7, portal da Record, e "m" de mídia).

4) INVERSÃO DE VALORES - A intelectualidade tem que criar uma inversão de valores para promover os ídolos brega-popularescos como "modernos". A própria promoção de seus estilos musicais a pretensa "superioridade cultural" é uma inversão, se sabemos que as músicas brega-popularescas são medíocres e antiquadas.

Nesse sentido, promove-se o machismo das musas "popozudas" como se fosse "feminismo", daí o celibato forçado da maioria delas. O discurso intelectual tem que promover os ídolos no auge do sucesso como "coitadinhos vítimas de preconceito", numa tentativa de colocá-los no primeiro escalão da MPB (o que sabemos ser impossível). E tenta esnobar acusações (verídicas) de alienação, mediocridade e baixo valor estético. Aliás, a norma é esquecer toda e qualquer análise estética. Até livros de Aristóteles são condenados ao lixo. Tudo para manter a validade do brega-popularesco sem se preocupar com problemas que comprometeriam seu sucesso financeiro.

Outra manobra é inverter os sentidos de sabedoria e ignorância. O público de brega-popularesco, tal qual seus ídolos - classificados, para o bem da retórica, de "povo da periferia" - , como sabemos, é tido como portador de uma "sabedoria" que não sabe do que se trata nem para que serve. Da mesma forma que o que entendemos como ignorância popular é tido como "ignorância nossa" de "não" entendermos a "sabedoria intuitiva" desse povo.

Quer dizer, é uma coisa doida, surreal. Ao povo pobre é atribuída uma sabedoria que este não tem a menor ideia do que seja. E nossos conhecimentos críticos, fruto de muito raciocínio, são na verdade uma "ignorância" que temos diante da "sabedoria popular" que está aí. Quer dizer, o povo sofre miséria e sua ignorância é fruto de suas óbvias limitações sociais. Mas é "sábio e inteligente" por causa disso. E nós, que raciocinamos e refletimos criticamente, porque sempre procuramos saber das coisas, somos "burros" porque nosso senso crítico vai contra o estabelecido pela indústria do entretenimento.

No fundo, todo esse processo acima citado visa manter os lucros dos empresários que lucram com o entretenimento dessa pseudo-cultura "popular", que também garante o controle social, mantendo as classes populares domesticadas e menos estimuladas a mobilizar-se por melhorias sociais.

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