terça-feira, 26 de julho de 2011

AMY WINEHOUSE E O ENTRETENIMENTO BRASILEIRO



Por Alexandre Figueiredo

Uma das tragédias mais comentadas nos últimos dias, além do atentado em Oslo, na Noruega, é o falecimento prematuro da cantora Amy Winehouse. Não vamos aqui ficar no clichê das "mortes aos 27 anos" - que trouxe à memória curta e frágil das gerações recentes outros ídolos que não só Kurt Cobain, mas Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin e Brian Jones - , mas vamos nos ater às questões em torno do entretenimento, um problema ainda subestimado, mas que, nas suas veias, correm intrigas midiáticas perigosas.

A morte de Amy, que, sabemos, era usuária de drogas pesadas, ao mesmo tempo que causou comoção, despertou reações que variam da histeria moralista anti-drogas - que reprova o uso das drogas por si só, mas sem qualquer visão objetiva sobre o assunto, se limitando à condenação vazia e piegas - ao oportunismo de quem quer agora se promover às custas da genialidade da cantora.

Sim, porque Amy, apesar do seu estilo junkie, era uma artista genial. Tinha uma excelente voz, era compositora inspirada e mesmo seu estilo retrô, com cabelo tipo "bolo de noiva" dos anos 60 e sonoridade entre a soul music de 1967-1974 e o reggae e ska de 1979-1981, referências anteriores ao nascimento dela (que, na verdade, nasceu em 1983, portanto, morreu com 28 incompletos, a exemplo de Hendrix e Morrison), soa espontâneo e bastante expressivo.

Os jovens brasileiros até deveriam agradecer a Amy Winehouse porque, apesar do apelo midiático dela ser comparável a qualquer nome do pop eletrônico mais acessível, a cantora tinha referências da soul music sessentista que estavam esquecidas há tempos e não foram assimiladas pelas gerações atuais.

E vale também dizer que as gravações de Amy tinham a qualidade sonora das gravações hi-fi sessentistas, com aquele som de cantores e bandas se apresentando num salão, com efeitos de eco e tudo.

Numa época em que, em países como o Brasil, a mediocridade cultural vive seu apogeu e tenta empurrar com a barriga o eminente risco de desgaste - com o "jeitinho" de fazer trainée com os ídolos mais "veteranos", a turma neo-brega dos anos 90 que agora faz uma "MPB de mentirinha", falsamente sofisticada - , o talento ímpar de Amy desperta cobiça e inveja. Mas nada comparável à onda de certos "paçoqueiros" de combater Chico Buarque e tudo que se associe a ele.

Pois lá fora a mídia do entretenimento é discutida, questionada em suas entranhas, e mesmo ícones como Michael Jackson e Amy Winehouse são de alguma forma questionados. Mas é um questionamento que não tem o caráter rancoroso daquele que recebe Chico Buarque, pois o cantor carioca, na medida em que é atacado por certos críticos musicais "iluminados" ou por pós-graduandos em busca de visibilidade, acaba por simbolizar o golpismo enrustido que essa patota, que se diz "esquerdista" mas faz o jogo da direita tucana, faz.

Pois atacando Chico Buarque, animados pelo "sinal verde" que as merecidas críticas à Ana de Hollanda dão para certos calunistas, ataca-se não os erros que sua irmã de fato cometeu, mas também toda uma simbologia que inclui o ISEB, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico, Ana e outros irmãos), o Brasil de Jango, de Tom Jobim, de Cartola, da Previdência Social, da Companhia Siderúrgica Nacional e Vale do Rio Doce pré-privataria, das reformas de base, da reforma agrária e coisa e tal.

"Músico bom é músico morto", dizem os golpistas do entretenimento. Seja morto em vida ou em morte física. Bom mesmo é o ídolo de "funk melody" falando em festinha no apê, o ídolo sambrega que cantava sobre baratas bancar o pretenso sofisticado, os breganejos cantando com orquestra sinfônica, a popozuda posando de fada sininho. Legal é a mediocridade triunfante que depois se fantasia de algo "genial" para enganar a opinião pública.

E isso se dá a partir de antropólogos, sociólogos, historiadores e críticos musicais que exaltam o entretenimento fajuto da grande mídia brasileira, camuflando o óbvio envolvimento de famiglias midiáticas, latifundiários e barões do entretenimento jogando a "culpa" do processo nas periferias.

Eles não nasceram para acompanhar a trajetória da música brasileira do pré-1964 e, quando se deram por gente, já havia o AI-5 e toda a pregação midiática que separava a música brasileira de qualidade do seu povo, confinando até mesmo os melhores sambas na apreciação privativa das classes mais abastadas. O "zé povinho" que ficasse com o brega e "criasse algo" em torno daí...

Por isso nem mesmo uma cantora "neo-retrô" - um rótulo equivocado, mas usado para algum didatismo para definir Amy Winehouse - surge aqui no Brasil. Quando muito, o que temos são os empresários donos de agências de famosos que inventam grupos de "dance music" e fazem todo aquele marketing preciosista: os muitos Sublimes, Maurício Manieri, Fat Family, Rouge e Broz que desaparecem com o tempo, sem deixar marca. Empresários que pensam serem os descobridores do ouro ou da paz mundial, mas que só vivem entre seus escritórios e as boates noturnas onde lançam seus pupilos.

Mas temos um Chico Buarque que não é retrô de anos 60, porque é um personagem da própria década, e que mantém sua integridade musical que inveja certos críticos. Afinal, não é um ídolo que grava cinco discos bregas e medíocres até ficar rico e depois tenta uma sofisticação forçada pelas circunstâncias. Foi um cantor que desde o começo tem compostura e respeito consigo mesmo como artista.

Como artista, Amy Winehouse era íntegra e criativa. Mas, como pessoa, era muito falha. Mas isso é outro problema. Mas também, no brega-popularesco, temos artistas que, se aparentemente não cometem os excessos que mataram Amy, também estão longe de serem os "anjos guardiães" de nossa cultura.

Pelo contrário, eles deturpam os referenciais culturais para depois tentar se autopromover às custas de uma pretensa qualidade cultural. Não por acaso, muitos ídolos da mediocridade popularesca de 1990 agora se acham "artistas da cultura de raiz". Todos eles, felizes diante do circo midiático da Era Collor, pagando jabá para as rádios. Duas décadas se passaram e esse elenco todo arrota arrogância e falsa sofisticação para entrar no jet-set sob o rótulo de "verdadeira MPB" ou "MPB com P maiúsculo", entre outras demagogias.

Mas como acredita-se que o entretenimento no Brasil é inocente, que a pseudo-cultura "popular" é um bebezinho que engatinha inocentemente tanto pela Alameda Barão de Limeira e pela Casa Amarela, tanto pelo Projac quanto pelo Fórum Social Mundial (onde quer que o evento aconteça), então muitos ficam felizes com a morte prematura de Amy Winehouse. É um caso estrangeiro. Se fosse com funqueiros, axézeiros ou forrozeiros-bregas, a choradeira ia rolar.

No fundo, a "fauna" de defensores do brega-popularesco, dos troleiros de Internet aos antropólogos, sociólogos e críticos musicais "intocáveis", se aproveita da opinião pública que, segundo um Caetano Veloso e Gilberto Gil ainda distantes do encanto pelo "sistema", definiam como "as pessoas a falar de jantar tão preocupadas em nascer e morrer".

Aí Amy Winehouse morre, há um atentado em Oslo, jornal sensacionalista só é boçal no Reino Unido, o Oriente Médio explode e a intelligentzia feliz com seus "funks", axés e tecnobregas.

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