quarta-feira, 1 de junho de 2011

UMA GÍRIA COMO MECANISMO DE CONTROLE SOCIAL



Por Alexandre Figueiredo

Há pouco mais de dez anos atrás, uma simples gíria era lançada pela grande mídia como teste de controle social da juventude. Era uma maneira dos barões da grande mídia de testarem seu tráfico de influência entre as novas gerações.

Pois essa gíria se chama "balada". Gíria muito comum dentro das casas noturnas do país, a partir de São Paulo, seu histórico parece muito nebuloso, mas remete a cerca de vinte anos atrás, o que pode explicar a origem de uma palavra que, até então, era relacionada tão somente aos sentidos de história dramática ou de música lenta.

A gíria teria surgido em 1991, através de um jargão de DJs relacionado a drogas. Essa revelação se deu por um internauta que mandou mensagem para outro blogue meu, O Kylocyclo, e que esclareceu muito sobre a origem da gíria, já que aparentemente a expressão, quando muito, soava uma corruptela simplificada de "badalação" ou algum derivativo da gíria "bala" (jargão clubber que significa algo entre "radical" e "maneiro").

Toda gíria normalmente tem um sentido social dentro de um grupo e uma vida provisória. As gírias surgem e morrem com as circunstâncias. São como pedaços de queijo que são utilizados intensamente na sua hora, mas são perecíveis se deixados guardados por longo tempo. Por outro lado, a gíria costuma ser privativa de determinados grupos, afinal não existe, a rigor, uma gíria feita para todo mundo.

O que estranha na gíria "balada" é que a expressão, nas mãos da mídia, é a sua pretensão de longevidade ou, se possível, eternidade, e, por outro lado, sua presunção de universalidade social. Eu até apelidava a gíria de "Gíria do Terceiro Reich", pelo seu caráter impositivo e totalitário, como se a gíria "balada" estivesse acima dos tempos e acima das "tribos".

DIVULGAR GÍRIA: QUESTÃO DE VISIBILIDADE

Pois numa observação mais atenta, descobre-se quem se responsabilizou em difundir a gíria par além das tribos clubber urbanas. A julgar pelo programa "Balada" da Jovem Pan 2 e de suas associações com o apresentador e empresário Luciano Huck, constata-se que a gíria "balada" é propriedade intelectual do próprio Luciano e de Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o Tutinha.

A escalada de ascensão da gíria "balada" mostra o quanto o dinheiro e a visibilidade podem influir na repercussão de tal ideia. Indica o quanto a fama de alguém pode influir na propagação daquilo que ele diz, pensa ou acredita.

A gíria "balada" era uma expressão privativa de um tipo de juventude relacionado às badalações noturnas, ao som de pop dançante e eletrônico e que frequenta as chamadas "academias" de ginástica, consumindo de vitaminas para cavalos a ecstasy. Era uma gíria que representava esse tipo de público, que chamamos de clubber.

No entanto, a campanha da grande mídia, unida, tentou empurrar o referido jargão para além dos jovens, das "tribos" e mesmo dos tempos. A revista Veja - sempre ela - tentou até dar aos seus leitores a falsa impressão de que existiam "baladas" nos anos 80. Não, não existiam. O que havia lá, além de várias festas, eram as danceterias. "Balada", mesmo, só a partir de 1990-1991, na carona do Technotronic, Black Box e derivados.

Chegaram a empurrar a gíria "balada" para headbangers, skatistas, para bailes dançantes etc. A gíria passou a ter seu próprio departamento comercial e sua própria estratégia de marketing. Virou até merchandising de novela da Globo.

A cada ameaça de desgaste da gíria, lá surgiam novas notas de sítios de celebridades na Internet citando o mesmo jargão: "Ator tal 'cai na balada' com namorada". Até os telejornais "sérios" deixavam de dizer "festa" para falar "balada", sobretudo em reportagens sobre moda, beleza e comportamento.

DESGASTE - Mas a gíria "balada" se desgastou. Ela não conseguiu derrubar a tradicional expressão "festa", e teve que se contentar em se tornar um jargão do colunismo social, ou, na melhor das hipóteses, de gíria de dondoca fofoqueira.

A palavra festa retomou toda a sua força e, a essas alturas, a ideologia clubber já havia entrado até nos noticiários policiais, devido ao tráfico de drogas, à violência entre gangues ou indivíduos, ao drama do álcool, aos crimes passionais, à ação de pitboys.

Mas a pretensão da grande mídia e seus barões de promover uma gíria como se gíria não fosse, na arrogância de impô-la para além dos tempos e dos grupos sociais, ainda que mostrasse seu grau de ridículo, mostrou o quanto existem mecanismos de controle social da juventude.

A gíria "balada" quase tornou-se de uso universal. Até os pais foram contaminados pelo jargão. A expressão foi dicionarizada, o que diz muito quanto ao poder da grande mídia até mesmo no simples entretenimento, no simples uso de uma gíria.

Se os barões da grande mídia conseguem controlar a juventude induzindo-a a utilizar uma gíria, eles podem exercer nos jovens controles e manipulações ainda piores.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...