sexta-feira, 10 de junho de 2011

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E BREGA-POPULARESCO



Por Alexandre Figueiredo

Não é por acaso que os ídolos do "pagode romântico", do "sertanejo", da axé-music, "funk carioca" e "forró eletrônico" emergentes entre 1990 e 1997 cresceram dentro de um cenário político-midiático dos oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso.

Embora defensores dessa pretensa "cultura popular" desconversem e julguem seus ídolos como "acima da mídia e das ideologias", ou alinhados à "centro-esquerda", a verdade é que todos esses cantores, duplas e grupos, que representavam variantes da música brega travestidos de sambas, modas de viola, forrós ou afoxés etc, nada teriam sido na vida se não fosse o apoio decisivo de uma indústria cultural controlada pelo que hoje conhecemos como PiG e sob o claro apoio de donos de rádio alinhados com o poderio do PSDB e do então PFL (hoje, um DEM em frangalhos).

Até mesmo o sinistro Paulo César Araújo surgiu das profundezas do racionamento de energia elétrica para promover um apagão historiográfico, "resgatando" os ídolos cafonas dentro de um cenário favorável de controle social pela grande mídia que claramente apoiava FHC e seus aliados. Mas PC Araújo tocou no inconsciente emocional coletivo e aparentemente passou incólume sem que alguém com muita visibilidade denunciasse o contexto tucano-uspiano que orientou sua linha de raciocínio.

Não há como a memória curta hoje desmentir essa realidade. Soa estranho que pessoas defendam essa pretensa "cultura popular" com forte ranço mercantilista, historicamente apoiada pela mídia conservadora, tentem vender suas ideias para uma mídia esquerdista, mas certamente a manobra fracassa nos seus propósitos, apesar de um certo clima de silêncio.

Isso porque é impossível não enxergar, depois de uma leitura mais atenta, que as ideias de PC Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos e outros, na verdade, beberam, e com muita sede, nas ideias que o próprio ex-presidente FH, como sociólogo, difundiu ao lado de Enzo Faletto, a Teoria da Dependência na sua vertente mais influente, a partir do livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina, publicado em 1967 no exílio do sociólogo no Chile.

Se o regime militar tivesse lido esse livro, certamente teria dado anistia imediata, já naquele 1967, a FH, uma vez que a obra tornou-se um dos principais documentos sobre o neoliberalismo aplicado aos países da chamada "periferia".

ANTI-ISEB E ANTI-CPC

Nos anos 70, os livros de Fernando Henrique, apoiados no raciocínio lançado pelo livro que fez com Enzo Faletto, começaram a desconstruir todo o discurso nacionalista de esquerda que se via tanto em teóricos como Nelson Werneck Sodré e Celso Furtado, dos tempos do ISEB, quanto em intelectuais como o jornalista Perseu Abramo.

Havia debates desde nos salões da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, da Organização das Nações Unidas) até mesmo nas universidades a respeito da situação de subdesenvolvimento dos países latino-americanos. No Brasil, desenvolveu-se, no final do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), uma perspectiva marxista que se somou à experiência nacionalista trazida pela Era Vargas.

Com o golpe de 1964, esse debate foi interrompido, mas até então já havia atividades do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e dos CPC-UNE (Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes) que promoviam um desenvolvimento sócio-cultural que rompesse com a situação subordinada ante o capitalismo dominante do G7.

Com o decorrer do regime militar e a formação, em consequência de seu cenário político, de uma tecnocracia intelectual que ganharia contornos e adesões nas década de 70 e 80, desenvolveu-se um discurso que desqualificasse as atividades isebiano-cepecistas, tidas como "ideológicas" e "sectárias", portanto "ineficazes" e "inúteis".

ELITE TUCANO-USPIANA

Dessa forma, criando-se um "anti-ISEB" através da teoria de Fernando Henrique Cardoso e do ex-socialista José Serra (e de outros como Sérgio Paulo Rouanet e Francisco Weffort, depois comprometidos com o setor cultural), e, portanto, tinha que se criar um anti-CPC.

Enquanto as rádios trabalhavam o brega-popularesco - ainda que sem uma teoria que a apoiasse, que apareceu só nos anos 90 - , que simulava uma "cultura popular" dentro de valores subordinados ao imperialismo estrangeiro e definido pela mediocridade artístico-cultural, formava-se a elite neoliberal nas cátedras da Universidade de São Paulo (USP), que se tornou o paradigma de intelectualidade para todo o país, assim como a Folha de São Paulo (a partir do Projeto Folha, de 1984), tornou-se paradigma da grande imprensa em todo o Brasil.

E o que é a Teoria da Dependência descrita por Cardoso e Faletto (e diferente de outras teorias da dependência de cunho mais marxista)?

É uma teoria que sobrepõe o aspecto econômico ao político e, por conseguinte, ao sócio-cultural. Seu princípio maior é que países considerados subdesenvolvidos ou em desenvolvimento promovam seu desenvolvimento social e econômico dentro dos limites determinados pela hegemonia dos países mais ricos do Ocidente.

A soberania dos países em questão seria apenas política, jurídica e institucional, mas mesmo tais políticas estariam a serviço da chamada globalização econômica determinada pelo capitalismo internacional.

O SENTIDO CULTURAL

O que equivale à ideologia de Cardoso e Faletto no âmbito sócio-cultural é justamente o brega-popularesco que transforma as classes populares no seu próprio estereótipo. O povo pobre, sem uma verdadeira emancipação social, passaria no entanto a ter inclusão no mercado de consumo e no entretenimento, dentro de um padrão determinado pelo poderio da grande mídia, sejam redes de TV ou rádios FM, estas em rede ou regionais.

É certo que seus ideólogos tentam o máximo possível se desvencilhar da política tucana e evitam até quando podem uma associação a Fernando Henrique Cardoso e à midia que o respaldou (e que, em 2010, queria ver eleito seu discípulo José Serra). Isso porque a política tucana causou efeitos negativos e seu grupo político se desgastou no decorrer das circunstâncias.

Mas é inegável que o que lemos em textos de Hermano Vianna, Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros encontrem identificação perfeita com o que Cardoso e Falleto escreveram, numa exata aplicação ao âmbito sócio-cultural do povo.

Pois a julgar pelo que é a música brega-popularesca - que chamo de Música de Cabresto Brasileira - e seus valores associados, nota-se que o povo pobre tem sua imagem "reconstruída" dentro de conceitos explicitamente (mas não de forma assumida) neoliberais.

Alguns exemplos ocorrem no cenário "social" do brega-popularesco, onde profissões que deveriam ser provisórias, como as de prostitutas e camelôs, são consideradas "permanentes". À velhice, torna-se reduto o alcoolismo nas mesas de bar.

Em outras palavras, a miséria é glamourizada e o subemprego é tido como economia definitiva - e não provisória - do povo pobre que tem que se resignar com sua inferioridade social, porque ela é promovida pela mídia e seus ideólogos como se fosse "superior".

Junto a isso, a "cultura popular" torna-se "colonizada", subordinada a valores importados veiculados pela grande mídia e que não podem ser confundidos com "antropofagia cultural" porque nesta a soberania nacional se sobressai sobre o elemento estrangeiro assimilado localmente.

O povo deixa de ser sujeito para ser consumidor de valores "culturais", e passa a "criar" a partir de paradigmas lançados pela grande mídia nacional e regional. A mediocridade artística e cultural torna-se seu aspecto principal, e o povo pobre só é visto como "autêntico" dentro dos limites de sua inferioridade social, que, dentro de uma perspectiva politicamente correta - herança da Era Reagan traduzida aqui pelas eras Collor e FHC - , é considerada sua "superioridade" social.

Até o preconceito social é mascarado o máximo. Valores conservadores são travestidos de "modernos", usando a "polêmica" como pretexto. O grotesco é tido como "inerente" às classes populares. Trata-se a pobreza como "uma realidade linda" e as favelas são tidas como "paisagem urbana natural" ou "arquitetura pós-moderna".

Justifica-se a inferioridade social do povo pobre como algo que "não precisamos apreciar, mas temos que respeitar". "Respeitar" é uma maneira de dizer de uma elite com medo de que o povo pobre crie revoltas sociais. Na verdade, o que se quer dizer é "se conformar".

Na prática, o que esse discurso hipócrita mas dócil expressa é que o povo pobre sofre sua miséria social, educacional e econômica, mas "é melhor" que o povo viva assim, dentro de um forçado equilíbrio social ditado pela mídia e pelo mercado.

A diferença entre a verdadeira cultura do povo pobre do pré-64, insubordinada, digna, de alto nível, com a "cultura popular" medíocre, grotesca e estereotipada de hoje, é gritante. Não adianta disfarçar. Além disso, a associação da defesa do brega-popularesco às ideias lançadas por Fernando Henrique Cardoso é algo que a História registra e que só a memória curta se recusa a admitir.

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