sábado, 25 de junho de 2011

PIRATARIA FAVORECEU CRESCIMENTO DE MÚSICA POPULARESCA



Por Alexandre Figueiredo

O crescimento do comércio de discos piratas nos últimos 15 anos foi um dos fatores decisivos para o crescimento da Música de Cabresto Brasileira, a suposta "música popular" que rola nas rádios controladas pelo poder oligárquico nacional e regional, mas que seus ideólogos atribuem às "pequenas mídias das periferias".

Isso soa muito estranho, na medida em que, durante algum tempo, os próprios ídolos brega-popularescos tenham ido à Brasília, com Fernando Henrique Cardoso no poder, para reclamar contra o comércio pirata de CDs. Reunião de protesto ou encontro de amigos?

É certo que o comércio pirata não traz dinheiro para artista algum, nem mesmo para os ídolos brega-popularescos. Mas o mercado de CDs, marcado por produtos caríssimos vinculados à música de qualidade - um preço alto muitas vezes injustificado - , fez os consumidores de classe média correrem atrás dos supostos "genéricos" da música brasileira que, no âmbito da MPB autêntica, possui CDs difíceis de serem comprados pelo cidadão comum.

Com o pedantismo popularesco que marcou os ídolos de "sertanejo" e "pagode romântico" de 1990, e da axé-music e forró-brega de 1997, todos eles seguindo as mesmas regras da "MPB burguesa", na medida em que os artistas da MPB autêntica ensaiavam seu êxodo fonográfico para gravadoras como Trama e Biscoito Fino, o comércio pirata - que, na prática, mistura CDs de fabricação original com suas cópias piratas, já que se comportam também como "sebos" - tornou-se um canal para a projeção da mediocridade cultural da Música de Cabresto Brasileira.

Isso fez com que a chamada classe média baixa, cansada de juntar dinheiro para comprar o novo disco do medalhão da MPB, fosse então adquirir a "MPB transgênica" representada pelos ídolos neo-bregas veteranos, que passaram até a gravar covers da MPB tradicional supostamente associados a seus estilos.

Dessa maneira, os ídolos do "pagode romântico" passaram a gravar sambas autênticos e músicos ecléticos como Djavan, e os "sertanejos" foram gravar clássicos da música caipira e canções poéticas como as do Clube da Esquina.

Era um processo tendencioso, dentro das normas luxuosas e cheias de pompa da "MPB burguesa", mas conseguiu desviar a atenção das classes mais baixas à MPB autêntica que, tempos atrás, ainda disputava com os ídolos bregas e neo-bregas algum lugar ao sol no cardápio apertado das FMs mais populares.

Com o sucesso comercial dessa manobra, vieram ídolos brega-popularescos de linha mais camp (grotesco explícito), como o forró-brega e o "funk carioca", passaram a explorar o comércio de camelôs para driblar o rigor excessivo da indústria fonográfica multinacional instalada no Brasil.

O que não quer dizer que seja um mercado alternativo de gravadoras independentes. Até porque a lógica desses "pequenos selos" que surgem regionalmente - muitas vezes financiados pela grande mídia local, pelas redes regionais de atacado e varejo ou pelo latifúndio - é a mesma das grandes gravadoras, com sua fome e apetite de lucro tão vorazes quanto os de qualquer executivo de uma major com seu escritório em Los Angeles ou Nova York.

Mas é através desses "pequenos selos" - como o Som Zoom, empresa de entretenimento com braços radiofônicos e agenciais cujo poderio derruba de vez o mito de "pequenas mídias das periferias" - que se propagaram e se multiplicaram os ídolos da música brega-popularesca.

Esse crescimento mercadológico chega ao ponto de sufocar completamente as tendências folclóricas - que eram a verdadeira cultura popular no que diz às manifestações geradas até 1964, longe da escravidão do mercado - e a banir o acesso das classes populares ao cancioneiro da MPB pós-CPC (como a geração universitária dos anos 60 e 70).

Mas o crescimento do brega-popularesco, num processo "cancerígeno", chega mesmo a sufocar até outras tendências brega-popularescas. No Norte-Nordeste, a hegemonia do forró-brega chega a ameaçar até mesmo a penetração da axé-music e do "sertanejo". Em certos lugares, o forró-brega e a axé-music tornam-se até mesmo rivais.

Um exemplo ilustrativo disso ocorreu no Carnaval da Bahia de 2008, quando ídolos da dita "música sertaneja" evitavam aparecer nos trios dos grandes nomes da axé-music, preferindo ir a trios de música afro-baiana apadrinhados por Caetano Veloso.

Com o comércio de CDs piratas servindo não apenas de "sebos", mas de divulgação para CDs supostamente rejeitáveis pelas grandes lojas - mas que servem apenas como mercado alimentador dessas redes - , a indústria cultural do interior do país estabeleceu seu crescimento que já a configura como uma grande mídia local.

Essa indústria só parece "mídia pequena" para os olhos de jornalistas e cientistas sociais que vivem trancados em seus condomínios de luxo nas capitais do Sudeste. Quem não pensa longe, pensa tudo pequeno.

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