terça-feira, 28 de junho de 2011

PEDRO A. SANCHES E A "POPULARIDADE" DO REGIME MILITAR


PEDRO ALEXANDRE SANCHES NO INSTITUTO MILLENIUM - Foto montagem ou premonição?

Por Alexandre Figueiredo

Quando folheei a revista Fórum, semanas atrás, li a entrevista do "colaborador" Pedro Alexandre Sanches com o historiador Gustavo Alonso, autor do livro Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga, da Editora Record.

Sabemos que Record, Alonso e Sanches, juntos, parecem com vontade de derrubar a reputação dos Buarque, já que a Record perdeu um prêmio literário por causa de um livro de Chico Buarque, Alonso investiu numa desnecessária oposição entre Wilson Simonal e Chico Buarque e Sanches queria ver cair a "MPB biscoito fino" simbolizada não só por Chico, mas por sua irmã ministra e também cantora Ana de Hollanda.

E sabemos também que a campanha de Sanches contra essa facção da MPB no fundo não é mais do que um desejo de substituir alhos com bugalhos. Será que um MinC hipotético com Frank Aguiar no lugar de Ana de Hollanda e com a turma do Som Zoom Sat no lugar do ECAD faria a música brasileira mais "humana"?

Definitivamente, não. Ficaria pior. A MPB "biscoito fino", com todo o elitismo a que se atribui a esse grupo, pelo menos se compromete com a qualidade musical e com o zelo de nossa cultura, a despeito de seus membros serem de classes mais abastadas. Já a "cultura popular" de joelmas, chimbinhas, reginhos, marlboros, catras, belos, chitões, chicletões etc não é mais que um arremedo da cultura brasileira submetido aos padrões ianques do "deus mercado", aqui vigentes pela vontade da grande mídia nacional e regional.

Mas o que estranha na atitude de um jornalista que tenta se autopromover às custas da imprensa esquerdista, além de lançar em suas páginas e arquivos htm conceitos direitistas sobre "cultura popular", é o consentimento que o colonista-paçoca teve quando Alonso afirmou que a ditadura militar era "bastante popular".

Alonso chega mesmo a comparar o general Emilio Garrastazu Médici a Lula, como se quisesse, numa troca tendenciosa, "emprestar" o carisma lulista ao general dos primórdios do AI-5 e, por outro lado, dar a Lula uma suposta continuidade do "milagre brasileiro" que existiu há 40 anos.

DESQUALIFICAR AS ESQUERDAS

Na entrevista de Sanches com Alonso, fica subentendida uma vontade de desqualificar as esquerdas de nosso país. Sob o pretexto de criticar o "sectarismo" e a "patrulha" esquerdista, o jornalista e o historiador, ainda que se digam "esquerdistas" - mas essa "postura" até Fernando Henrique Cardoso diz ter - , parecem dispostos a promover uma imagem negativa dos movimentos esquerdistas, tidos como "radicais".

Afinal, não se trata de desqualificar os equívocos naturais de grupos como a Vanguarda Popular Revolucionária, por exemplo. Trata-se também de tentar uma associação hipotética de Chico Buarque com o regime militar, ainda que de uma maneira menos radical que Paulo César Araújo, o sinistro historiador que tentou promover os ídolos cafonas como "cantores de protesto".

O que está em jogo nisso tudo é que, ao redor de Chico Buarque, há outros referenciais autênticos que seriam desqualificados e desmoralizados junto a ele. Seu pai foi Sérgio Buarque de Hollanda, integrante de uma maravilhosa e prestigiada geração de intelectuais herdeira das lições do Modernismo de 1922, que se destacou sobretudo nos anos 40 e 50. Essa geração teve seu auge no respaldo ao ISEB, o corajoso Instituto Superior de Estudos Brasileiros que estudava um projeto de desenvolvimento autônomo para o Brasil.

Chico, seja por ele mesmo, seja por seu pai, também traz ramificações com os Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, cujo legado hoje tornou-se injustiçado. Afinal, os CPC's da UNE também tinham ligações com o ISEB, mas se vinculavam com a modernidade cultural do início dos anos 60, como Edu Lobo, Carlinhos Lyra, Sérgio Ricardo e Nara Leão, que, fundindo-se com a sofisticação bossanovista, desenvolveu-se a admirável geração da MPB dos anos 60, paradigma hoje da geração "biscoito fino" tão reprovada pelo discípulo de Tavinho Frias.

Voltando à "popularidade" do regime militar, não existe um questionamento a respeito das condições de persuasão que as elites fizeram para conquistar a opinião pública. Além do mais, foi ignorada a ideia de que João Goulart, o "insuportável" político do Brasil progressista de 1961-1964, tinha sido muito popular em suas votações como vice-presidente brasileiro. Vale lembrar que se votava em separado para vice-presidente, conforme a Constituição de 1946 determinou.

E olha que Jango apavorou as elites brasileiras praticamente pelo mesmo projeto político e econômico que Lula desempenhou nos oito anos de seu mandato.

O pior de tudo é que Pedro Alexandre Sanches quer se impor como "o crítico musical de esquerda". Não é como Delfim Netto, o ministro do regime militar e artífice do "milagre brasileiro", cuja coluna na Carta Capital é um cantinho à parte que não se mistura à mídia esquerdista.

Ninguém diz que Delfim Netto é intelectual de esquerda. Mas Sanches, cuja teoria sobre cultura popular é "encharcada" de conceitos lançados por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto na Teoria da Dependência da linha weberiana e por Francis Fukuyama nos seus estudos sobre o "Fim da História" (Sanches demonstra defender o "Fim da História" para a MPB), quer estar associado à intelectualidade de esquerda, escrevendo para os três principais periódicos da imprensa esquerdista e tendo lançado dois livros pela Editora Boitempo, para defender dois cantores alinhados à direita ideológica, ainda que bastante talentosos e carismáticos.

Francamente, com essas e outras, estamos esperando o dia em que Pedro Alexandre Sanches, tendo conseguido o que queria, voltará como filho pródigo para a Folha e baterá ponto no Instituto Millenium.

Um comentário:

  1. Alexandre,
    Veja isso. O Azeredo quer censuraq outra vez.
    http://www.profissionaisti.com.br/2011/06/projeto-de-lei-para-controle-da-internet-do-senador-eduardo-azeredo-volta-a-cena/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+profissionaisti+%28Profissionais+TI+-+Pra+quem+respira+informa%C3%A7%C3%A3o.%29

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