quinta-feira, 2 de junho de 2011

PARÁBOLA SOBRE CIÊNCIAS SOCIAIS



Imagine se a discriminação do senso crítico se estendesse às ciências relacionadas à saúde? Essa é para quem acha que senso crítico é coisa de "mané", de "rancoroso" ou de "radical demais".

Imagine se todo o questionamento acerca da mediocrização cultural que atinge nosso país e trava o progresso real das classes populares fosse comparável ao esforço científico de curar doenças. E imagine se esse esforço da ciência fosse mal visto pela sociedade. É o que se lerá a seguir.

A ala etnocêntrica da sociedade está incomodada porque os cientistas se empenham a combater a doença, desafiando o estabelecido.

"Não existem células cancerígenas, isso é preconceito", diz o antropólogo tal, indignado com o esforço de cientistas para curar o câncer.

"Deixa de ser mané, vá a m... com suas pesquisas de bosta, seu Einstein de botequim", diz um jovem internauta ao cientista que quer combater células cancerígenas.

"O que se define como células cancerígenas, na verdade, são um grupo de células que, em busca de seu próprio espaço, são vítimas de completo preconceito", diz o historiador Proto Zoário de Araújo, autor do livro Eu Não Sou Verme, Não.

"Não são células cancerígenas. Esse rótulo é fruto de gente invejosa, moralista. Digamos que sejam células cancerianas, ou - por que não? - células leoninas, arianas, capricornianas, aquarianas... Tudo num imenso astral cósmico e transcendental", diz um músico biotropicalista.

"A sífilis, o herpes e a AIDS não são doenças. São fruto de uma mistura saudavel (sic) e gostosa que muitos não conseguem compreender", diz um sociólogo adepto do "pancadão" sexual.

"É um grande preconceito creditar a tênia como verme. Uma respeitável solteirona, oras, dona de seu próprio espaço, de seu próprio nariz (sic)...", diz outro sociólogo.

"Nossa, fiquei chocada quando falaram que o HIV era um vírus. Ele é tão bonitinho", diz uma internauta, que se recusou a seguir um blogue científico.

"Cara, você só fica preocupado em combater doenças. Será que você não está exagerando com isso? A lombriga é um animal como outro qualquer, a ameba parece massinha de modelar...", diz um internauta, classificando o cientista de "radical demais" e "rancoroso".

"Muita perda de tempo examinar doenças assim, consequência natural de toda a festividade sem freio com que vivemos. Ver que se combate nosso carnaval dentro de laboratórios científicos me dá nojo", diz o professor mineiro dado a polêmicas na Internet.

"Ih, lá vem o cientista dizer que a doença A ou B é grave. Estou cansada disso...", diz uma mulher desinteressada a ser seguidora de um blogue sobre ciência.

"Quando algumas células conseguem se destacar sobre outras e rompem fronteiras dentro do organismo, no auge de seu êxito, setores sociais se alarmam num estado de horror moralista, apavorados diante do natural destaque de células crescentes e bem sucedidas", diz outro antropólogo com grande visibilidade na mídia.

"São vermes, vírus, células cancerígenas, sangue diabético. Mas é tudo uma grande festa, em que eu, você, o outro temos que aceitar. Trata-se de uma mistura que parece promíscua, mas é retrato do grande caleidoscópio social em que vivemos, que não cabe discutir. Afinal, você não é obrigado a gostar de uma tênia ou de um paramécio, mas têm que reconhecer que eles têm seu espaço, é o retrato da grande nação microbiótica que no seu saudável caos representa nossa mistura, nossa diversidade", diz o crítico musical também de grande visibilidade.

Parece uma parábola dura, mas vale para a sociedade refletir a respeito da discriminação do senso crítico por parte da sociedade.

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