terça-feira, 21 de junho de 2011

A NOVA MPB É A QUE ROMPE COM O POPULARESCO


JACKSON DO PANDEIRO - As classes populares sabem fazer música de qualidade, sim.
Por Alexandre Figueiredo

Até agora, o que se viu foi o maniqueísmo mercadológico de duas correntes extremas que se conhece oficialmente como música brasileira.

De um lado, a MPB burguesa que corteja e acolhe o legado produzido ou apreciado pela geração pós-Bossa Nova dos anos 50-60.

De outro, a linhagem brega-popularesca que começou com os primeiros ídolos cafonas da safra 1958-1964 de Waldick Soriano e Orlando Dias (este apadrinhado por Abraão Medina, pai de Roberto "Rock In Rio" Medina) e que, com o tempo, se desdobrou em funqueiros, forrozeiros-bregas, sambregas, breganejos etc.

Enquanto os primeiros são de apreciação quase privativa por parte das elites de classe média alta e nível universitário, os segundos se tornam a força dominante de consumo pelas classes populares ou pela classe média baixa.

Junto a isso, criam-se duas correntes ideológicas que pouco contribuem para a efetivação da cultura brasileira.

Uma é o extremo purismo emepebista, que rejeita a música das classes populares, autêntica ou falsa, sem separar o joio do trigo. Esta corrente quer transformar a MPB numa espécie de Academia Brasileira de Letras musical, onde o que vale é o elitismo pós-Bossa Nova de seguidores de terceira ordem de Tom Jobim.

Outra é a apologia ao brega-popularesco, tido como "a verdadeira MPB" porque lota plateias e estabelece êxitos de ordem econômica ao grande público. São os ditos "sucessos do povão" das FMs dominantes no país e das redes de TV aberta. Essa corrente, que acusa a supracitada de "elitista", acredita que o brega-popularesco é a "salvação" da MPB, transformando a Música Popular Brasileira numa "casa da sogra", onde cabe qualquer um.

É um maniqueísmo que só interessa ao mercado e que nada contribui para a efetivação da verdadeira cultura popular. Mas também tentar juntar o "injustiçado" joio ao trigo das elites até agora também só representou o convívio mercadológico entre as duas forças, mais num processo "fisiológico" do que de uma verdadeira solidariedade sócio-cultural.

"CONFRATERNIZAÇÃO" SEM EFEITO

O convívio "solidário" entre a chamada elite da MPB e os ídolos do brega-popularesco, seja em duetos, covers, tributos ou eventos produzidos por emissoras de rádio e TV, parece à primeira vista algo bonito, conciliador, democrático e libertário.

Mas, além de não deixar marca alguma na nossa música - e, cá para nós, tudo é bonito, mas o resultado é difícil de ouvir (a questão de gosto volta à tona sempre na hora H) - , nada contribui para a renovação da música popular, fora apenas a garantia de mais lucro para o ECAD.

Primeiro, o grande público não vai ouvir o artista da "MPBzona" porque seu ídolo neo-brega regravou sua música ou duetou com o artista. Até porque não terá a necessidade disso, a gravação do ídolo popularesco lhe basta.

Segundo, porque depois da "confraternização" entre MPB e brega-popularesco, tudo cai no esquecimento, até porque a questão do gosto e da estética, tabus entre a intelectualidade, sempre retornam, como fantasmas não-exorcizados, diante do botão de play do toca-CD.

NÃO ADIANTA PROGRAMA TRAINÉE

Assim como não adianta fingirmos crer que a música medíocre dos ídolos brega-popularescos tem sua "boa qualidade que não podemos (sic) compreender", também não adianta adestrar os ídolos das ondas popularescas de pouco tempo atrás para parecerem "MPB de verdade".

Isso foi sintomático quando se trabalhou, já no final dos anos 90, na lapidação de imagem dos ídolos neo-bregas surgidos entre 1990 e 1997. Banhos de loja, de tecnologia, de técnica, de publicidade, tudo isso fez esses ídolos não artistas de verdade, ainda que muitos insistam em tal ideia, mas em tão somente crooners e entertainers profissionais.

Afinal, o repertório desses "artistas" não melhorou em qualidade, com toda a técnica e tecnologia feitas. Pelo contrário, em certos casos há duplas "sertanejas" que passaram a se perderem num ecletismo "urbano" e "juvenil", quando, antes, elas eram apenas bregas e medíocres, mas pelo menos mais sinceras.

Uma coisa é ser entertainer, outra é ser artista. O entertainer pode adotar um espetáculo cênico de primeira, mas sua música pode ser de milésima categoria. Porque, neste caso, o que valem são os efeitos especiais, as luzes, a coreografia e até mesmo o caráter animador do cantor, que pode não fazer música que preste, mas sabe animar a plateia e até contar piadas.

Por isso, por mais que se invista na popularidade desses ídolos, o que se viu com esse programa trainée dos medalhões do brega-popularesco foi apenas torná-los astros profissionais, mas musicalmente continuam não deixando marca alguma no cancioneiro popular brasileiro, por mais que rádios e TVs insistam.

O VERDADEIRO ARTISTA POPULAR

O verdadeiro artista popular fazia música de qualidade. Por isso os nomes do cancioneiro popular brasileiro produzido até 1964 eram de arrepiar. Os nomes são muito conhecidos, e perduram porque deixaram marca nas suas obras.

Não eram artistas que, mesmo autênticos, dependiam da chancela da burguesia para terem reconhecimento. E nem eram artistas que valiam pelo esporte de lotar plateias com rapidez. Mas eram artistas que tinham o compromisso social de produzir conhecimento e valores culturais.

Isso é o que as gerações mais recentes ou mesmo muita gente crescida não consegue entender. Educados pela hipnose da TV aberta, estão tomados com o mundo do espetáculo mercantilista e veem a realidade através dessa ótica televisiva.

NOVA MÍDIA, NOVA CULTURA

Por isso, numa época em que questionamos os desmandos da grande mídia golpista, por que temos que deixar de contestar a "cultura popular" resultante dessa mesma forma de fazer televisão, rádio e jornais?

Seria muito patético se quiséssemos uma nova mídia, mais cidadã e mais plural, e manter a continuidade do projeto brega-popularesco, que não é a cultura popular por excelência, mas uma pseudo-cultura desenvolvida pelo mercado e que, por uma questão de circunstâncias, é consumida e apreciada pelo povo pobre, sem algo melhor que lhe apresente.

Isso colocaria o projeto midiático que queremos na lata do lixo, porque serão os mesmos valores, ídolos, musas, conceitos, métodos da velha mídia que continuarão prevalecendo.

Nada de mentir e dizer que os "sucessos do povão" das FMs de vinte anos atrás só se tornaram sucesso por causa do Twitter ou do YouTube. Eles vieram da mesma grande mídia que condena os movimentos sociais.

Não é coincidência que uma mídia que chama os agricultores do MST de "criminosos" se rende gratuitamente ao tecnobrega. É sinal que o tecnobrega atende a interesses da grande mídia, sim. Como o "funk carioca" atendeu, até explicitamente.

A nova MPB, a nova cultura popular, é aquela que rompe com o popularesco. Não serão os performáticos paulistas prestando tributo ao brega, nem os brega-popularescos "descobrindo" a MPB depois de décadas de carreira medíocre que recolocarão a cultura popular verdadeira nos eixos.

Terão que ser novos rostos, novas ideias, e melodias, ritmos, acordes fortes e mais expressivos. Gente com muito a fazer e muito a dizer, sem depender do marketing, de falsa modéstia, nem da pose de coitadinho justificando o "sucesso" porque é "vítima de preconceito". De gente coitadinha o mercado da publicidade está cheio, cheio.

É isso que a intelectualidade comprada pela indústria cultural tem medo. De haver uma nova geração de músicos que retome o curso da MPB pré-1964 e levar adiante, sem cafonice alguma, ainda que travestida de delírios modernosos ou pseudo-sofisticados.

Mas esses intelectuais terão que enfrentar essa nova realidade, que é a recuperação integral, e não caricata, de nosso patrimônio cultural de mais de 500 anos. E que nunca deveria ter sido empastelado nem diluído a bel prazer pelo mercado.

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