sexta-feira, 24 de junho de 2011

LIVRO SOBRE SIMONAL E A CRISE DA MPB



Por Alexandre Figueiredo

Está em lançamento um livro que acirrará as discussões sobre a crise da MPB, mas que redundará no mesmo maniqueísmo cafonice/sofisticação que tempera os parcos debates da turma da visibilidade plena.

Pedro Alexandre Sanches, desta vez, "rachou" um mesmo tema para a revista Fórum e a Caros Amigos. Na primeira, publicou uma entrevista, na segunda uma resenha, sobre o mesmo livro, Simonal - Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, que Gustavo Alonso lança pela Editora Record.

Sanches, na reportagem-entrevista da Fórum, puxou a brasa para sua sardinha cafona, em tempos de 80 anos de FHC, citou Paulo César Araújo, que no ano do apagão de 2001 fez um livro que se tornou obra básica para entender a aplicação da Teoria da Dependência de FHC e Enzo Faletto aplicada à música brasileira: Eu Não Sou Cachorro, Não, também pela Record.

No seu projeto ideológico, o pupilo de Otávio Frias Filho, em suas entrevistas, às vezes escreve ou comenta sobre a (suposta) injustiça vivida pelos brega-popularescos. Suposta, porque eles são o establishment, embora oficialmente não se reconheça isso. Mas aqui a missão se aproxima mais de uma iconoclastia à chamada elite da MPB, que é aquele lado ABL da música brasileira.

O livro de Gustavo Alonso, a princípio, só coincide com o livro de PC Araújo, supracitado, no esforço de combater as chamadas "vacas sagradas" da MPB. O alvo é sobretudo Chico Buarque, cujo perfil combativo durante o regime militar, certamente, é superestimado. Mas há uma ânsia incrível em desmitificá-lo, como quem desejasse derrubar uma estátua pelo simples prazer de derrubá-la.

Para quem desejaria ver como "heróis" Chimbinha, Gaby Amarantos e Tati Quebra-Barraco, como o colonista-paçoca, faz sentido uma ânsia, por mais respeitosa que seja, de ver Chico Buarque como um oportunista que se enriqueceu durante o regime miltar com seu "suposto" engajamento.

Gustavo Alonso até não pega tão pesado quanto PC Araújo - que tentou promover os ídolos cafonas como se fossem "cantores de protesto" e achava que quem fazia a trilha sonora dos anos de chumbo era o compositor de "A Banda" e "Vai Passar" - , mas contribuiu para a lavagem de roupa suja da Editora Record, que não gostou de ver o compositor e escritor ganhar um prêmio literário, em detrimento de um romance de Edney Silvestre, jornalista da Globo, publicado pela editora.

Também a reportagem, da parte de Pedro Sanches, também é outra revanche de querer "derrubar" um mito cuja irmã é a ministra da Cultura Ana de Hollanda que, como cantora, é ligada à ala "biscoito fino" da MPB, antipatizada pelo colonista-paçoca.

Mas o que surpreende na obra é a mea culpa que Gustavo parece atribuir ao povo brasileiro quando o assunto é regime militar, sobretudo durante o período do "milagre brasileiro". É certo que uma tradição conservadora de anos fez o povo defender o golpe militar e o "milagre brasileiro", mas aqui mostra-se uma ânsia de desqualificar as esquerdas no país, ainda que o autor do livro se diga "de esquerda".

O que aliás é uma mancha que tira de Pedro Sanches qualquer mérito dele ser reconhecido como imprensa de esquerda. Até porque parecia que era ontem que ele servia a outros senhores: Frias, Civita e Marinho.

Evidentemente a desqualificação de Chico Buarque segue a mesma lógica da desqualificação dos CPC's da UNE e do ISEB, feita por uma intelectualidade amestrada desde os anos 80 pelo pré-tucanato da USP. E que gerou as bases teóricas para a defesa do brega-popularesco no fim da Era FHC, por PC Araújo, Hermano Vianna, Pedro Sanches e outros.

É uma lógica de desqualificar projetos progressistas de cultura popular, e, em oposição aos mesmos, criar um outro paradigma de "cultura popular" associado a regras mercadológicas do neoliberalismo, e bem ao gosto dos barões da mídia, do entretenimento e do atacado & varejo.

SIMONAL - Quando li o livro de Ricardo Alexandre sobre Wilson Simonal, Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (Editora Globo), constatei, refletindo, que o episódio que classificou o cantor de "dedo duro" foi, na verdade, fruto de um desentendimento entre o cantor e dois seguranças, que resolveram se vingar e espalhar a versão de que "Simona" torturou e sequestrou um sócio e que iria denunciar, feito um macartista brasileiro, artistas que estivessem engajados em combater o regime militar.

Wilson Simonal, como disse Gustavo Alonso, certamente não era ingênuo. Mas seu sucesso estrondoso foi algo que lhe escapou ao controle. Simonal criou uma empresa para cuidar de sua carreira, o que talvez fosse demais para um sucesso tão meteórico. E, com os problemas trabalhistas, veio o desentendimento com um sócio. E depois uma discussão com seus seguranças. E aí estes resolveram destruir a carreira do cantor, com a boataria.

Simonal não era de esquerda nem de direita. E era um artista ímpar, que traduziu a influência da soul music com elementos de samba e Bossa Nova sem qualquer pedantismo e uma criatividade que misturava senso de humor e refinamento. Era um artista que ficava a meio caminho entre a sofisticação de Agostinho dos Santos e a jovialidade de Jair Rodrigues. E, curiosamente, Simonal imitou um e outro num de seus programas de TV.

O ponto positivo dos últimos anos é que a revisão de Wilson Simonal irá esclarecer o caso que abalou sua carreira, ainda que ele não esteja mais entre nós. Mas sua herança artística é devidamente seguida pelo herdeiro musical e biológico, Wilson Simoninha, que, se não fosse a mediocridade musical dominante em nossos dias, seria o cantor mais popular do país, no lugar dos sofríveis ídolos do esquecível "pagode romântico".

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