sábado, 18 de junho de 2011

INTELECTUAIS BRASILEIROS QUEREM COMBATER A ESTÉTICA


DISCUTIA-SE ESTÉTICA NO MUNDO INTEIRO DESDE A ANTIGUIDADE, COM PLATÃO E ARISTÓTELES. MAS NÃO SE PODE DISCUTI-LA HOJE, NO BRASIL.

Por Alexandre Figueiredo

"O antropólogo diz que a raça não melhora / Que a vida piora por causa da estética / O antropólogo diz que a estética tem pecado / Que a estética é coitada e devia acabar / Vamos acabar com a estética / (Antropólogo) vive dizendo que (discutir) estética é vexame / Para que discutir com antropólogo?"

Essa adaptação simplória dos versos de "Pra que discutir com madame?", samba de Haroldo Barbosa gravado até por João Gilberto, ilustraria muito bem a posição de parte influente da intelectualidade brasileira, que parece não estar disposta a discutir questões estéticas e deixar que a dita "cultura popular" do Brasil caminhe num laissez faire que mais interessa aos barões da mídia e do entretenimento, nacionais e regionais.

Pode ser o sociólogo baiano Milton Moura, o antropólogo paraibano-carioca Hermano Vianna, o crítico Pedro Alexandre Sanches, o historiador Paulo César Araújo, ou qualquer outro que apareça com raciocínio similar.

Mas todos, em pânico, alertam para que não discutamos valores estéticos. Que abortemos, em terra brasilis, todo um processo que há milênios já era discutido pelos mais renomados e respeitáveis intelectuais, cuja reputação atravessou os tempos e mantém-se intata até hoje.

O que é um costume muito estranho. Afinal, intelectuais que fazem questão de serem considerados semi-divindades, para as quais qualquer questionamento mais enérgico é tido como "rancoroso" - mas também criticar a Folha de São Paulo em 1991 e Fernando Henrique Cardoso em 1994 também passaria por essa adjetivação - , não podem ser levados a sério devido a tamanha atitude.

Afinal, por que justamente aqueles que se comprometem à expressar o raciocínio mais profundo são os primeiros a pedir à opinião pública para deixar de pensar?

Só isso faz a situação em que eles vivem tornar-se risível diante da mais respeitada intelectualidade do exterior. Imagine, uma intelectualidade que nos pede para não pensar!

Pois a análise estética é algo que vem desde a Antiguidade clássica grega, e passou pelas mais diversas correntes filosóficas desde Platão e Aristóteles até pensadores mais recentes como Herbert Marcuse, passando por Kant e Hegel.

Trata-se de uma atitude provinciana, típica de um bairrismo arrogante. Ser brasileiro não é o mesmo que fechar-se ao mundo, e achar que nossa perspectiva intelectual, cultural e humanística tenha que estar surda às lições de fora porque lá é "outro mundo", torna-se algo que em nada contribui para nosso desenvolvimento sócio-cultural.

Em primeiro lugar, porque a intelectualidade brasileira que defende o brega-popularesco e, por isso, quer romper com toda a tradição de discussão estética muito anterior ao "descobrimento" do Brasil, age com total irresponsabilidade, na medida em que se recusam a fazer aquilo que está inerente aos seus trabalhos: pensar.

Afinal, não se faz pensamento reflexivo sem questionamento. Ou simplesmente evitando discussões mais profundas para proteger o "estabelecido". Meros propagandistas enrustidos do establishment do entretenimento brasileiro, esses intelectuais acabam tirando o próprio mérito da visibilidade que possuem.

Isso porque eles acabam sendo adorados por um público menos esclarecido. Um público razoavelmente informado, mas menos esclarecido. Um público que leu Ilustrada durante mais de 20 anos, e que hoje mal consegue perceber o abismo que separa uma análise lúcida sobre cultura por Emir Sader com os delírios pós-caetânicos de Pedro Alexandre Sanches.

Aliás, Sanches, certa vez, tentou definir a discussão estética dos fenômenos popularescos como "discriminação social". Ou seja, além de desestimular a opinião pública de pensar a estética de certos fenômenos, ainda acusa de "preconceituosos" quem o faz.

Preconceito, como assim? Se preconceito se define como uma ideia preconcebida de algo, ou seja, sem qualquer análise a respeito, então por que somos "preconceituosos" quando pensamos algo criticamente, e "não somos preconceituosos" quando deixemos de pensá-lo?

Isso é pura falta de coerência, e uma inversão de valores que beira ao cinismo. Além disso, o único motivo dessa intelectualidade pregar o fim das discussões estéticas é porque eles estão aí para defender o "deus mercado", travestido numa pseudo-cultura atribuída às periferias mas que, sabe-se bem, é financiada e trabalhada pelos barões do entretenimento, com o respaldo da mídia oligárquica.

Ou seja, esse apelo contra a discussão estética tem como objetivo apenas proteger fenômenos que rendem muito dinheiro. E que, para isso, prefere agir contra o processo naturalmente humano de pensar e questionar as coisas, mesmo o "estabelecido".

Pra que discutir com antropólogos, sociólogos e críticos musicais, que veem o povo pobre com os mesmos olhos (ainda que mais politicamente corretos) da madame do samba de Haroldo Barbosa?

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