quinta-feira, 16 de junho de 2011

ECOS DO ASSIMILACIONISMO, DA ESCRAVATURA E DA REPÚBLICA VELHA



Por Alexandre Figueiredo

O Brasil ainda é marcado pelo atraso, através do terrível cacoete de estabelecer suas mudanças mantendo resíduos da estrutura arcaica que se pretende combater.

Vemos hoje, o quanto parte da intelectualidade perde tempo defendendo, a título de "movimentos sociais", tendências mercantilistas da pseudo-cultura dita "popular", que durante décadas foi alimentada pelo latifúndio, pela mídia oligárquica nacional e regional e por políticos conservadores.

A campanha em torno do "funk carioca" - que em 1990 foi alimentado pelo "fisiologismo" político-midiático da Era Collor e até hoje faz jogo duplo vendendo sua imagem de falso coitado na mídia esquerdista enquanto canta vitorioso de mãos dadas com a mídia oligárquica - e do tecnobrega (financiado pelo mesmo latifúndio paraense que extermina trabalhadores) - é um exemplo dessa estranha realidade, que não é de hoje.

Afinal, episódios estranhos aconteceram no Brasil do século XIX, que fizeram com que os ventos da Revolução Francesa e da Revolução Industrial só serem tardiamente sentidos. E o que mostra que, se o Brasil não é ainda um país socialmente desenvolvido, é porque nunca interessou a certas elites brasileiras a ruptura com o atraso que garantia seus privilégios.

Três episódios podem ilustrar essa mania do Brasil construir seu edifício progressista com os andaimes do retrocesso. E que mostra o quanto o sentido da palavra "progresso", que hoje entendemos como uma postura solidária aos movimentos sociais, em outros tempos tinha um sentido bem mais restrito e menos justo, mais ligado a uma tecnocracia incipiente a serviço dos donos do poder.

ASSIMILACIONISMO

O primeiro caso foi a doutrina do assimilacionismo, que era um processo ideológico em que se glamourizava a imagem do indígena brasileiro no passado, enquanto depreciava a imagem do indígena contemporâneo, no caso as populações indígenas remanescentes.

Aos indígenas contemporâneos, se promovia o "embranquecimento social", como meio de estabelecer uma suposta socialização dos índios aos padrões urbanos da população branca. Era como se a sociedade branca promovesse a "assimilação" dos indigenas "convertidos" em novos brancos, como a Inquisição fazia transformando judeus em "cristãos-novos".

Os índios eram condenados à inferioridade social, e só seriam salvos se submetessem ao modelo determinado pela dominação social das elites brancas, que não queriam que os índios preservassem seus valores sócio-culturais de origem.

Em certos casos, os índios que realizavam protestos eram vistos como "vilões" pela sociedade "organizada", temerosa com a perda de um equilíbrio social que garantisse a tranquilidade dos privilegiados da ocasião.

E o que vemos nos primórdios da dita "cultura" brega senão uma forma de "assimilacionismo" reciclada pela mídia latifundiária já diante dos primórdios do movimento das Ligas Camponesas, o similar do atual MST daqueles idos de 1958-1964?

O povo brasileiro, "glorificado" nos seus protestos e movimentos sociais e culturais, das tribos indígenas combativas, dos negros atuantes nas suas senzalas e quilombos, no nosso patrimônio cultural que transmitia conhecimento e valores que desenharam nosso espírito brasileiro, foi reduzido, pela ideologia cafona, a uma multidão dominada e resignada pela sua miséria.

No brega, o povo brasileiro foi condenado a uma inferiorização social do subemprego e da prostituição, do recreio mórbido do alcoolismo a mascarar o tédio a que foi condenado. Mas o avanço da "cultura" brega em mil tendências que hoje compõem uma pretensa e falsa "diversidade cultural" de axézeiros, breganejos, forrozeiros-bregas, funqueiros etc, dava o tom da "redenção social" das classes populares dentro do sistema de dominação política, econômica e midiática.

O povo pobre, culturalmente "colonizado" pela mídia, não podia mais ter seu patrimônio cultural original, a não ser na forma de arremedo, como ocorre com o samba, por exemplo, em que o samba original passa a ser agora de apreciação prioritária pelas classes mais abastadas, enquanto suas formas de diluição, como o "pagode romântico", seriam reservadas pelas as classes pobres.

No "pagode romântico", nota-se a desinformação explícita ou, quando muito, uma informação superficial e condicionada pela grande mídia, de seus ídolos em relação à história do samba, pois tais ídolos, por mais que imitem com quase perfeição os clichês de Zeca Pagodinho e Jorge Aragão, mal conseguem entender, por exemplo, a diferença entre um lundu e maxixe. Dizem exaltar o samba, mas a única coisa que fazem é apenas imitar o samba, sem ter uma ideia abrangente do que se trata.

ESCRAVATURA

O mercado escravagista brasileiro era tão forte e resistente que as pressões da potência mundial da época, a Grã-Bretanha, para eliminar o comércio escravo no país sul-americano já ocorriam na década de 20 do século XIX. Isso a mais de meio século antes da lei que oficialmente extinguiu o regime escravo no Brasil, em 13 de maio de 1888.

O contexto social de um comércio escravo altamente rentável, decisivo na economia brasileira daquele século, fazia com que certas intelectualidades adotassem uma atitude estranha, que é de defender valores iluministas mas legitimar a dominação escravagista dos senhores de engenho sobre as imensas populações negras existentes no país.

As desculpas usadas para reprovar a abolição do regime escravo variavam entre a força mercadológica do comércio escravo, que era entendida pelas elites como fonte de volumoso rendimento financeiro, e o temor de que, com a libertação dos escravos, estes promovessem desordens e violência em todo o país, a pontos de uma revanche sangrenta contra as populações brancas.

Hoje, o brega-popularesco - a suposta "cultura popular" resultante da ideologia brega - representa não só um processo de controle social das classes populares pela mídia oligárquica, nacional e regional, mas também um mercado milionário do espetáculo e do entretenimento, definido pelos valores relativos à subordinação sócio-cultural das classes populares.

Dessa maneira, a exemplo dos "iluministas" que quiseram a manutenção do regime escravagista, vemos alguns "progressistas" de hoje defenderem, até com certa fúria, a manutenção da escravidão cultural do brega-popularesco.

As alegações são até idênticas aos escravagistas, a despeito do contexto social em que se inserem os apologistas de hoje parecer socialmente "mais generoso". A rentabilidade do mercado, através de alegações de que o brega-popularesco é a "verdadeira cultura popular" porque lota plateias com facilidade, vende muitos CDs e ingressos e gera empregos, é uma amostra dessa semelhança entre os escravagistas "iluministas" de outrora, e os defensores "progressistas" da cultura de massa de hoje em dia.

Outro aspecto é o medo da inquietação social das elites. Para elas, os movimentos sociais só são belos quando vistos de longe, no Oriente Médio, em Davos, se mais próximo é apenas nos Andes chilenos e argentinos. Mas, no Brasil, "movimento social" se limita a grupos de jovens que vão submissos a um galpão de mega-espetáculos para consumir os "sucessos" popularescos do momento.

O horror dessas elites "progressistas" de hoje é o mesmo das elites "iluministas" dos tempos de Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Se as antigas elites temiam a fúria dos negros assim que acabasse o sistema escravista, hoje as elites temem que o povo, sem a água com açúcar do brega-popularesco, com seus waldicks, amados, gretchens, chicletões, chitões e marlboros, chimbinhas, joelmas e popozudas, passasse a saquear supermercados e invadir condomínios de luxo nas grandes cidades.

E se os escravagistas alegavam que os negros eram tratados como "filhos", as elites de hoje dizem que o povo dominado pelo brega-popularesco é "mais feliz"...

REPÚBLICA VELHA

Com a abolição da escravatura, os latifundiários romperam com o Império e decidiram reivindicar a República. O que fez a primeira fase da República brasileira, instaurada por um golpe de Estado do marechal Deodoro da Fonseca, ser definida posteriormente como República Velha, assim que ela foi derrubada pela Revolução de 1930 que inaugurou a Era Vargas.

Através dessa fase, o poder coronelista estabelecia um sistema de dominação social enérgico, que fazia com que o processo eleitoral fosse quase sempre submetido aos interesses e mecanismos dos grandes proprietários de terras.

Pois o poder latifundiário, no decorrer dos anos, passou a desempenhar valores de dominação social que passam despercebidos por muitos, pelo mau costume que causaram. Daí o próprio condicionamento social do povo pobre pelo latifúndio nos parecer hoje "natural", na medida em que as classes populares se resignem com uma miséria tida como "inofensiva" e "linda".

É aquela coisa: o povo fica "mais povo" quando, dentro de sua inferioridade social, torna-se bobo da corte das elites e dos intelectuais mais influentes, mas torna-se mais "animal" quando começa a se revoltar pedindo melhores condições de vida.

A República Velha foi marcada pela "cultura do cabresto" determinada pelo coronelismo. Décadas depois, já no decorrer do Século XX, a experiência coronelista financiou os ídolos cafonas para irem à São Paulo, com sua mediocridade cultural, combater as Ligas Camponesas e reservar ao povo pobre um padrão de resignação e inferiorização sócio-cultural que interessa aos seus dominadores.

Uma resignação sócio-cultural que movimenta o mercado e garante a manutenção das estruturas de poder. Mas que o politicamente correto tenta creditar como "cultura das periferias". Um discurso generoso, porém hipócrita, diga-se de passagem. Afinal, para manter as aparências, até escravidão vira "coisa de família". A mentira também pode ser uma arte.

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