segunda-feira, 20 de junho de 2011

CARTÉIS DA MÍDIA E ENTRETENIMENTO: POR QUE NINGUÉM VIU CAIR A FICHA?


MARCELO MADUREIRA E HÉLIO DE LA PEÑA, DIANTE DO ÔNIBUS DA "SUBVERSIVA" BANDA CALYPSO.

Por Alexandre Figueiredo

Até quando vamos ver uma parte da intelectualidade tentando vender, na mídia esquerdista, uma visão de "cultura popular" tipicamente de direita? Mesmo o papo "tecnológico", supostamente atribuído às "pequenas mídias", não é mais do que a aplicação do discurso neoliberal relacionado à informática e à globalização.

Num país com pouco hábito de leitura, cria-se um sutil contraste entre a realidade sócio-política do Pará, marcada por intenso conflito de terras, e a realidade sócio-cultural no mesmo Estado, que mais parece uma tradução tosca do Paraíso bíblico.

E ninguém percebe, feliz por ver que as revoltas sociais ocorrem lá longe, pelo Oriente Médio, enquanto aqui reina-se na santa paz do "créu", do "rebolation", do "tecnobrega". O povo pobre, reduzido a bobos da corte do cartel midiático, parece "mais feliz". A classe média "ilustrada" dorme tranquila, certa de que tais "bobos da corte" não vão lhe assaltar nas ruas nem irão promover saques em supermercados.

Como as recentes lutas pela democratização das Comunicações irão fazer para superar a mesmice sócio-cultural promovida pelo cartel midiático, se ela é corroborada por uma intelectualidade ainda influente, dotada de grande visibilidade, é um problema que poucos têm coragem para resolver.

Afinal, não é coincidência alguma que a grande mídia caiu de amores aos supostamente incômodos "funk carioca" e tecnobrega. Praticamente toda a mídia golpista, a mesma que condena os movimentos sociais e envenena seu jornalismo com preconceitos reacionários, aderiu comodamente a esses dois ritmos, como aderiu de peito aberto a qualquer tendência brega-popularesca.

Só que a visão oficial é que essa suposta "cultura popular", por mais que esteja entre as mais tocadas nas maiores FMs nacionais e regionais do país, por mais que seja figurinha fácil nas redes de televisão e apareça nas primeiras páginas dos jornais dominantes em várias partes do Brasil, tem seu sucesso atribuído às "pequenas mídias".

A partir dessa visão, cria-se uma ideia falsa de que a intervenção da grande mídia é "acidental" ou "oportunista", ou que os ídolos popularescos é que "invadiram" a grande mídia numa suposta conspiração.

Na primeira hipótese, a grande mídia é reduzida a mera e inocente divulgadora dos ídolos popularescos. Como se a mediocridade artístico-cultural não tivesse tido o interesse midiático que se via há décadas.

Na segunda hipótese, os ídolos popularescos, normalmente ingênuos e submissos ao mercado, são "promovidos" a supostos "rebeldes" a ameaçar os interesses dos executivos midiáticos. Mas neste caso a hipótese é ainda mais delirante, porque não há como imaginar uma subversão diante de tantos rostos felizes nos programas de auditório da grande mídia.

CARNEVALE: "INVERSÃO" PROVISÓRIA DE VALORES COMPORTAMENTAIS

A ideologia brega-popularesca transforma a ideia de cultura popular num processo de manipulação de valores, costumes e hábitos. Estes são submetidos a uma lógica de mercado, como um processo feito propositalmente pelos barões da grande mídia para neutralizar o repúdio que ela recebe quando propaga seus valores conservadores e seus métodos reacionários.

Como no raciocínio do carnevale da Idade Média, a "cultura popular" trabalhada pela grande mídia goza de uma "liberdade" e de um caráter "jocoso", numa libertação de instintos comportamentais, invertendo relativa e provisoriamente os padrões rígidos de moral conservadora, apenas para fazer liberar a catarse coletiva.

Por isso o brega-popularesco não assusta a grande mídia. Cria-se um "espaço" de "liberação" dos instintos, mercadologicamente calculada através de um processo ideológico trabalhado pela grande mídia e pelas oligarquias do entretenimento que controlam as ditas "pequenas mídias" (eufemismo para mídias regionais): até canais do YouTube e serviços de auto-falantes são controlados por essas oligarquias, ou, quando menos, por seus capatazes.

GOSTAR É O DE MENOS. ALIÁS, QUEM É QUE REALMENTE GOSTA?

A questão de gostar ou não de brega-popularesco é o aspecto que menos importa. É muito fácil dizer: "você não gosta de fulano, mas tem que aceitá-lo". Mas na verdade, o que se quer dizer com isso é "você não gosta de fulano, mas ele é uma máquina de fazer dinheiro".

Afinal, quem é que realmente gosta de um grupo com o nome de Calcinha Preta? Ou quem é que gosta de cantores ou grupos de "pagode romântico" que só tentam fazer algo parecido com samba sério depois de 20 anos de carreira? Ou de ídolos "sertanejos" que na última hora "descobrem" a poesia do Clube da Esquina?

O próprio gosto foi condicionado pela grande mídia. Desde as rádios do interior controladas pelo latifúndio e por "caciques" políticos locais até as grandes emissoras de TV, e durante cenários políticos conservadores que variavam do regime militar à Era FHC. E que se intensificou nos anos 90 através dos efeitos das concessões de rádio de Sarney e ACM, cujo desenho midiático se fez durante a Era Collor?

É a partir desse quadro que se condicionou o dito "gosto popular" que muitos dizem ser "espontâneo" e "autossuficiente". Mas que mostra um padrão de classes populares domesticado, caricato e estereotipado, além de culturalmente "colonizado".

Quando esse povo é induzido a "produzir" bens e valores culturais, é dentro de uma lógica fordista da "linha de montagem". Cria-se um "forró eletrônico" através de "pedaços" de ritmos estrangeiros assimilados de forma submissa. Como na indústria automobilística, monta-se um produto "nacional" a partir de peças vindas do estrangeiro.

Mas não há valores sociais transformadores, nem transmissão de conhecimento, como víamos na cultura das classes pobres do pré-1964. O que há é tão somente a produção de bens de consumo musicais ou comportamentais - como a imprensa "popular" e as musas calipígias - que movimentam uma indústria que nada tem de pequena.

E que se trata de uma indústria que se associa, com gosto, aos cartéis da grande mídia. A mesma que bate pesado nos movimentos sociais. Por que então ninguém ainda viu cair a ficha dessas manobras da indústria cultural brasileira?

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