segunda-feira, 13 de junho de 2011

AINDA SOBRE TEORIA DA DEPENDÊNCIA E BREGA-POPULARESCO


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO E ENZO FALETTO - Livro de 1967 escrito pelos dois teria sido o embrião do projeto político do então futuro presidente da República.

Por Alexandre Figueiredo

O padrão de "cultura" vigente no Brasil desde os anos 90 é a última herança do governo FHC. Quem disse isso não fui eu, mas o jornalista Rodrigo Vianna, na sua palestra no primeiro Rio BlogProg, ocorrido há poucas semanas.

Isso dá uma amostrasobre o quanto é objetiva a visão de que a suposta "cultura popular" ditada pela grande mídia - mas tão cinicamente atribuída pelas "pequenas mídias", como se as "dez mais" de uma Nativa FM só fizessem sucesso por causa de 140 dígitos no Twitter e um vídeo vagabundo no YouTube - tem relações com a mídia oligárquica, nacional e regional, por mais que correntes infiltradas na mídia esquerdista tentem dizer o contrário (a tal desculpa das "pequenas mídias").

Pois a cada dia se prova que, por exemplo, um livro como o de Ronaldo Lemos e Oona de Castro sobre o tecnobrega não passa de um filhote dançante da Teoria da Dependência pensada por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto e um neto "tropicalista" do livro O Nacionalismo na Atualidade Brasileira, que Hélio Jaguaribe (o membro liberal do ISEB que décadas depois participou da fundação do PSDB), referências bibliográficas sobre o neoliberalismo político e econômico brasileiro.

SUPREMACIA DO MERCADO

Pois ambas as tendências, seja o livro de Jaguaribe - que propunha já em 1958 uma ruptura com as políticas nacionalistas com a abertura crescente ao capital estrangeiro, inclusive na quebra de monopólio da Petrobras no setor petroquímico - e a obra Dependência e Subdesenvolvimento na América Latina, de 1967, embrião do programa político-econômico de FHC, falam muito sobre a suposta "cultura das periferias" que uma elite intelectual dotada de muita visibilidade tão "inocentemente" prega em seus artigos, monografias, livros, documentários etc.

Mas dando destaque ao livro de Cardoso e Faletto, autores da visão mais influente da Teoria da Dependência, os autores analisam a desigualdades sociais de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, que seria resolvida sem que se rompesse a hierarquia dos primeiros sobre os segundos.

O mercado seria usado para resolver as desigualdades dentro do sistema de dominação vigente, e prevaleceria até mesmo na esfera política, subordinando a lógica da autonomia política dos países "periféricos" aos princípios do mercado globalizado.

A prevalência do mercado torna-se tão grande, segundo essa teoria - praticada durante os dois governos de FHC - que, tal qual um gigante imenso, ele não é percebido por muita gente, na medida em que vê apenas o "vão" entre as pernas do gigantesco ser.

A partir dessa metáfora, boa parte dos brasileiros não consegue "ver" o mercado presente no seu cotidiano, nas regras sociais, e nem sequer no entretenimento.

A DEPENDÊNCIA "CULTURAL"

Embora o discurso de gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo sobre o brega-popularesco tentem desmentir seu caráter entreguista e subordinado ao neoliberalismo, a verdade é que tendências como o "funk carioca", o tecnobrega, a axé-music, o "pagode romântico", o "forró eletrônico", o "sertanejo" (mesmo o dito "universitário") e mesmo o "brega de raiz" (Waldick Soriano, Odair José etc) são aplicações exatas das ideias neoliberais à teoria conservadora dedicada ao tema da cultura popular.

Trata-se de uma "cultura não muito nacional", mas que de nenhum modo pode ser expressão de "antropofagia cultural" porque o elemento estrangeiro é que prevalece sobre o nacional, e este aparece como um arremedo, ou como uma fraca referência.

O "forró eletrônico" é um exemplo. Na verdade, não existem baiões nem xaxados nem qualquer rito nordestino. Mesmo em músicas "autorais", já que o repertório estrangeiro das rádios é a tônica desse estilo. O que vemos é um engodo que mistura disco music, country, ritmos caribenhos e sanfona de música gaúcha, além de uma postura claramente anti-regional que todavia não é assumida no discurso, mas é escancarada na prática.

Mas em todo o brega-popularesco - mesmo nos grupos de "pagode romântico" que tardiamente "descobriram" Wilson Simonal e Jorge Ben Jor - o que vemos é todo um padrão ideológico de subordinação cultural ao poder midiático e seus valores ligados ao neoliberalismo.

Evidentemente, quem tem menos de 35 anos não consegue perceber isso. Acha que seu melting pop, termo usado pelo jornalista Nelson Motta (hoje membro do Instituto Millenium) para definir a mesma "cultura popular" defendida por pessoas como Pedro Alexandre Sanches, é a coisa mais natural do mundo. Não é.

As muitas tentativas de se analisar a indústria cultural no Brasil - num esforço de introduzir e adaptar à nossa realidade os efeitos do debate produtivo no Primeiro Mundo - ocorreram apenas entre os anos 1950 até 1968, e depois na segunda metade dos anos 1980.

Mas o questionamento foi a cada ano posto à margem, depois que as críticas feitas pela intelectualidade ao brega-popularesco - os supostos ídolos "populares" trabalhados pela mídia nos anos 70, 80 e sobretudo 90 - causaram prejuízo econômico em vários conjuntos de "pagode romântico", "funk carioca" e "sertanejo".

Foi a partir daí que veio a reação de outra parte da intelectualidade formada dentro de uma lógica da Teoria da Dependência de Cardoso e Faletto aplicada ao âmbito da cultura popular. Uma intelectualidade que hoje tenta vender uma imagem de "esquerda" - vide Pedro Alexandre Sanches, "cobra criada" da Folha de São Paulo - , mas que sempre esteve, e está, alinhada aos princípios mercadológicos lançados pela elite tucano-uspiana comandada por FHC e José Serra.

O MERCADO COMO PRETEXTO PARA A "VERDADEIRA MPB"

A intelectualidade, quando defende a "cultura de massa" do brega-popularesco, costuma argumentar que ela é a "verdadeira MPB" porque lota plateias com facilidade, vende muitos discos e garante a audiência de programas de televisão.

Um discurso "puro", para definir "positivamente" a "cultura impura" do brega-popularesco, a "doce confusão" de referências que "só o povo pobre sabe fazer" (sic). Mas que aponta muitas falhas que deixam vazar conceitos típicos da sociologia neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

Primeiro, porque a "justificativa" de que o brega-popularesco como "verdadeira cultura popular" adota critérios explicitamente econômicos, ligados a uma perspectiva de êxito pela quantidade de consumidores. Os que "lotam plateias", "compram CDs", "acessam o YouTube", "assistem à TV e ao rádio FM". Enfim, uma grande demanda para justificar um êxito econômico que o discurso traveste como "sucesso sócio-cultural".

Os próprios estereótipos do brega-popularesco, além dos valores de inferiorização social do povo pobre, são resultantes desse perfil ideológico conservador. Se a pregação ideológica da "cultura" brega, a partir de Waldick Soriano, reserva até um "cenário" para o povo pobre dominado pela mídia latifundiária, então não há como ignorar esse aspecto conservador.

Trata-se de promover um povo pobre "condenado" a viver no subemprego, na prostituição, no alcoolismo, no comércio informal, condições provisórias que o ideário brega-popularesco define como "permanentes". Até porque o alcoolismo, por exemplo, alimenta a indústria de bebidas alcoólicas e a prostituição serve de recreio para intelectuais em vias de divórcio.

Até a "evolução cultural" do brega-popularesco, se considera alguma chance de "superação" da miséria (glamourizada), é feita nas condições da Teoria da Dependência. Se as primeiras tendências da música brega não são "muito brasileiras", forja-se uma "brasilidade" calculada mercadologicamente.

Dessa forma, ao brega original que grosseiramente parodiava boleros, serestas e valsas, se segue um "forró eletrônico" que nada têm de regional, mas ao menos evoca o "forró" no discurso e em algumas medidas de fachada. Ou então o "sertanejo" que apenas mistura boleros, country e mariachis para depois "descobrir" o Clube da Esquina e a música de Renato Teixeira. Ou o "pagode romântico" que tão toscamente imita a soul music dos EUA para depois "descobrir" Zeca Pagodinho, Simonal e Ben Jor. Tudo de uma forma tendenciosa.

Portanto, isso não é verdadeira cultura popular. Trata-se tão somente de uma subordinação da ideia de "cultura popular" às leis de mercado. Isso não representa a tão alardeada "autosuficiência das periferias". Pelo contrário, apenas condiciona o povo pobre no status de consumidor de valores neoliberais transmitidos pelos barões da grande mídia nacional e regional.

Só não reconhece essa realidade quem não quer.

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