quarta-feira, 18 de maio de 2011

VIOLA QUE CABE NESTE LATIFÚNDIO



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Este é um excelente exemplo do que pode ser a imprensa musical de esquerda. Sem pretensos populismos que levam à tentação de creditar a música coronelista de Zezé Di Camargo & Luciano, Leonardo e Daniel como "música caipira de raiz" a pretexto da ideia de "inclusão social", o texto reconhece devidamente que o breganejo é a música dos latifundiários, enquanto a autêntica música caipira ameaçada de desaparecimento corresponde à música do campesinato, dos trabalhadores rurais.

É bom prestar atenção na declaração que Zeca Collares faz da diferença entre a "música para o corpo" (como é a mercantilista música brega-popularesca) e "música para a alma", que é a genuína canção popular.

Viola que cabe neste latifúndio

Tocadores e MST se movimentam para cobrar espaço na mídia para boa música e defender a identidade da cultura violeira

Por Walter de Sousa - Rede Brasil Atual

Qual a diferença artística entre o violeiro Pereira da Viola e a dupla sertaneja Victor e Leo? Além da evidente escolha de estilo musical de um e outro, é o quinhão de espaço na mídia de cada um que os torna tão distantes. Certamente os violeiros querem um pedaço desse latifúndio musical, ambição semelhante à do lavrador sem terra: ter espaço para produzir e garantir seu sustento. Essa convergência entre trabalhadores rurais e violeiros – o nome é genérico para aqueles que vivem o universo da viola, seja caipira, pantaneira­ ou nordestina – é mais antiga do que se imagina e está rendendo uma roça bem produtiva.

Pereira da Viola é um dos fundadores e ex-presidente da Associação Nacional dos Violeiros do Brasil (ANVB), criada em 2004. A entidade começou a ser gestada quando Pereira e Felinto Procópio dos Santos, o Mineirinho, coordenador cultural do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tocavam viola debaixo de uma figueira centenária, em RibeirãoEngajados: Bilora, Pereira da Viola, Wilson Dias e Joaci Ornelas: música e justiça social Preto. Surgiu daí o Encontro Nacional de Violeiros, que reuniu 60 tocadores e foi visto por mais de 10 mil pessoas. O evento virou anual e deu margem à fundação da ANVB.

Para firmar a identidade da viola e encontrar­ meios alternativos de financiamento dos violeiros, a associação avançou significativamente ao realizar em 2008 o I Seminário Nacional de Viola Caipira, em Belo Horizonte. “Foi um evento que conseguiu formalizar uma participação política dos violeiros do Brasil”, resume o atual presidente da entidade, Valmir Ribeiro de Carvalho, o Bilora.

Esse viés político tem sido constante no movimento. “Realizamos o seminário com 80% de verba patrocinada pela Petrobras, que virou nossa parceira de fato. E isso permitiu que a companhia estivesse também no Caipirapuru, ocorrido em dezembro passado”, conta Pereira. Organizado pelo violeiro e médico cardiologista Julio Santin na cidade de Irapuru (SP), a 700 quilômetros da capital, o Caipirapuru tem sido uma das “trincheiras” dos violeiros, na definição de Mineirinho.

A ANVB reúne instrumentistas de todo o país, entre eles nomes que despontam no cenário musical da viola: os caipiras Julio Santin, Levi Ramiro e Zeca Collares, a dupla Zé Mulato e Cassiano, o herdeiro da viola pantaneira de Helena Meirelles, Milton Araújo, e a violeira paraibana Socorro Lira. Portanto, não se trata de um coletivo de artistas, mas de um movimento organizado com identidade e propósito.

“Não foram dois ou três que se juntaram para fundar a entidade, e sim mais de 100 violeiros, entre os quais nomes de peso como o de Inezita Barroso”, lembra Joaci Ornelas, organizador do seminário, evocando o maior ícone de resistência da música caipira, apresentadora do programa Viola Minha Viola, há 30 anos no ar na TV Cultura de São Paulo. A ANVB prepara para 2012 um congresso nacional de violeiros, que deverá, enfim, revelar a grande força do movimento. Para o público e para a mídia.
Mercado

Por atuar a partir de um forte componente cultural, o da identidade com a tonalidade musical da viola, instrumento trazido ao país pelos jesuítas durante a colonização, os violeiros têm uma visão diferente do chamado mercado fonográfico e musical. “Existe hoje uma música para o corpo e uma para a alma. Eu vejo para o corpo esse movimento de música de massa. Você agita, transpira, chega em casa, toma banho, e ela vai embora pelo ralo. No dia seguinte não sobra nada. A música para a alma vai além do divertir, tem a função da transformação, de fazer pensar, de fazer nos assumirmos enquanto povo e nação”, define Zeca Collares.

Não se trata, portanto, de concorrer num mercado em que a hegemonia é do chamado “sertanejo universitário”, mais dançante e com temática romântica. Mas de oferecer algo mais ligado às origens da música brasileira.

Por ter o caráter de resistência cultural – embora boa parte dos violeiros hoje tenha formação musical estruturada, quando até algumas décadas atrás se pensava somente no violeiro autodidata e de origem humilde –, o movimento se firma a partir de formas alternativas de financiamento. Entre elas, as leis de incentivo à cultura para a promoção dos encontros e a gravação dos discos e a estrutura de palcos do Sesc, por exemplo, para a difusão dos artistas.

Nessa luta, um grupo de violeiros encerrou em 28 de janeiro a reunião de coordenação nacional do MST, realizada na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP). Ante um público de 400 pessoas, menos uma trincheira e mais um palco de afirmação cultural, por mais de oito horas eles dedilharam as 10 cordas de suas violas. Enfim, para ocupar espaço na mídia é preciso conquistar antes o público que, ao contrário do que a indústria fonográfica pensa, também gosta de “música para a alma”.

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