terça-feira, 10 de maio de 2011

RODRIGO VIANNA ADMITE: "CULTURA" DA ERA FHC AINDA RESISTE



Por Alexandre Figueiredo

É o tacape contra a paçoca (*). No I Encontro de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro, no Memorial Getúlio Vargas, antigo Palácio do Catete, no seu primeiro dia, 06 de maio, o jornalista e blogueiro Rodrigo Vianna, do blogue Escrevinhador, afirmou, entre outras coisas, que o setor cultural vigente durante a Era FHC é um dos últimos focos de resistência da ideologia tucana que valeu durante os anos 90.

Rodrigo havia feito comentários sobre o local da palestra, o Memorial Getúlio Vargas, que foi o prédio onde, em 24 de agosto de 1954, o então presidente Getúlio Vargas se matou. Getúlio tornou-se o símbolo do governante atacado por quase toda a imprensa, que seria rigorosamente toda, não fosse a criação do jornal Última Hora, de Samuel Wainer, único que apoiou o político gaúcho.

O jornalista também acrescentou que um dos primeiros objetivos declarados por Fernando Henrique Cardoso num de seus discursos é desfazer todo o legado nacional-trabalhista da Era Vargas. Modéstia à parte, eu já havia escrito sobre esse propósito de FHC há mais de cinco anos, no Preserve o Rádio AM.

Vianna fez também críticas à grande mídia, sobretudo Rede Globo, onde havia trabalhado, e Folha de São Paulo, destacando o tendenciosismo de seu jornalismo, e disse que os blogues se tornaram um contraponto a essa mídia. Mas recomendou que os blogueiros passem a criar suas próprias pautas, suas próprias reportagens.

Podemos inferir sobre o comentário de Rodrigo Vianna sobre o fato de que o padrão oficial de cultura dos anos 90 é a única herança resistente da Era FHC, que envolve valores transmitidos pela mídia associada à música, à transmissão de valores sociais, à imagem da mulher brasileira, ao humorismo, ao jornalismo "popular".

Sim, porque é toda essa "cultura popular", que envolve interesses dos mais diversos, como a desqualificação dos produtos culturais para favorecer o consumo de públicos maiores, e mecanismos de controle social dos executivos da mídia e do entretenimento, com o apoio de patrocinadores, que a intelectualidade mais influente tenta classificar como "cultura das periferias".

Chegam mesmo a omitir a responsabilidade mais do que óbvia de uma mídia associada, ligada a grupos oligárquicos, e cujos braços regionais são parceiros da mesma mídia que tenta difundir valores conservadores e retrógrados. Chegam ao absurdo de botar a culpa nas redes sociais (You Tube, Facebook, Twitter) ou nos iPods em relação ao sucesso dos ícones brega-popularescos. Ou então de atribuir às musas "popozudas" um suposto feminismo só porque elas aparentemente estão solteiras (não obstante, elas escondem namorados, noivos ou maridos para "não atrapalhar a carreira").

Afinal, seria capenga se essa mídia difundisse valores conservadores tão somente no jornalismo político. Por isso há um contraste que poucos se dão conta, mas que se torna constrangedor: um "mundo político" explosivo, conflituoso, desigual, e uma "cultura" que, claramente patética e risonha demais, é por demais "paradisíaca" de tão "inocente" e "feliz".

Por isso a grande mídia tão cedo jogou na intelectualidade sua derradeira herança. A manipulação das classes populares por um modelo de "cultura popular" estabelecido pelo poder da grande mídia - de forma tão sutil que poucos percebem as armadilhas dessa indústria - foi a maior herança da racionalidade outrora engenhosa da intelectualidade tucana.

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NOTAS:

(*) "Tacape" é a coluna que Rodrigo Vianna possui na revista Caros Amigos. Já "Paçoca" é o nome da coluna de Pedro Alexandre Sanches.

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