quarta-feira, 4 de maio de 2011

POR QUE A NOSSA ÊNFASE NO ENTRETENIMENTO?



Por Alexandre Figueiredo

Muitas pessoas devem pensar por que um blogue (*) político escreve muitos textos sobre cultura.

Isso, muitas vezes, faz o Mingau de Aço ficar numa posição semi-marginalizada em relação a outros blogues de esquerda, porque questiona a reputação de muitos tótens consagrados relacionados à promoção e prevalência da mediocrização cultural que há muito assola nosso país.

Afinal, vários desses intelectuais transitam nos círculos sociais de esquerda, ainda que adotem posturas claramente neoliberais (por mais que não assuma no discurso, a influência de Francis Fukuyama no trabalho de Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, é um fato), escrevem para a mídia esquerdista, possuem grande visibilidade nos meios acadêmicos e entre as celebridades.

Isso faz o Mingau de Aço ser visto como "chato", "ranzinza", até mesmo "preconceituoso". E, o que é pior, faz com que direitistas enrustidos - como a direita dente-de-leite dos jovens internautas ou blogueiros caronistas como Eduardo Sander, do Blog do Patolino - acabem fortalecendo sua visão pragmático-neoliberal sobre a "cultura popular" com o consentimento da intelectualidade esquerdista.

Claro, aqueles intelectuais capazes de promover o MC Créu a "poeta concretista-dadaísta" possuem muito mais visibilidade que este humilde escriba. E, além do mais, a própria blogosfera de esquerda é um fenômeno recente, não tem sequer cinco anos (isso no que se diz à sua popularidade relativa) e, como a imprensa escrita de esquerda, ainda padece porque a maioria de seus leitores é dissidente de cadernos da Folha de São Paulo.

Ou seja. Não bastasse a visibilidade de um Pedro Sanches, o colonista-paçoca tornou-se um "fenômeno" na nossa intelectualidade porque boa parte dos leitores de Fórum, Carta Capital e Caros Amigos na verdade havia emigrado dos "bons tempos" da Folha de São Paulo. Sobretudo Ilustrada.

Não é à toa que o jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva os enquadra no que ele chama, jocosamente, de "esquerda ilustrada", em alusão ao célebre caderno da Folha de São Paulo, do qual Juremir é dissidente assim como Marilene Felinto e José Arbex Jr..

LEITORES "ILUSTRADOS"

Mas esses leitores são um público que se identifica mais com Gilberto Dimenstein do que com Venício A. de Lima, e, geralmente, sua leitura esquerdista dificilmente vai além de nomes badalados como Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Mino Carta. Renato Rovai? Só leem uns dois primeiros parágrafos. Altamiro Borges? Fingem que gostam, mas nunca leem. Raphael Tsavkko Garcia? Nem pensar.

Mas esse público, no entanto, é considerado "padrão" na mídia esquerdista. Claro, essa mídia precisa de público. Não vai agir contra ele, por mais que seja um público "alfabetizado" pelos cadernos da Folha de São Paulo, ou pela tela da Rede Globo, por mais que seja um público que até pouco tempo atrás aplaudia cegamente a tudo que nomes como Clóvis Rossi, Josias de Souza e Eliane Cantanhede escreviam. E que ainda prefere ler as piadas cínicas de José Simão a um ensaio lúcido de Emir Sader.

Esse é o preço da visibilidade, o que faz também com que outro aspecto venha à tona, que é o poder das agências de notícias, o que faz com que a política internacional seja hegemônica no agendamento temático da mídia esquerdista, em detrimento à luta quase solitária de Mingau de Aço em resgatar a verdadeira cultura das classes populares, deixada no meio do caminho em abril de 1964 enquanto o latifúndio empurrava a "cultura brega" para o povo goela abaixo.

Isso cria um contraste incômodo, que é a nossa intelectualidade se preocupar demais com os problemas "dos outros", mas deixa de se preocupar com nossos próprios problemas na área da cultura.

Não se vai aqui reprovar a dedicação aos assuntos internacionais. Não, ela é saudável, e recomendável, sim. A identificação de posições ideológicas da esquerda e da direita nos assuntos do Oriente Médio, algo aparentemente inédito no debate público pós-Guerra Fria, é até um fenômeno louvável, em si.

O grande problema, no entanto, é tirar de letra os conflitos ideológicos no Oriente Médio a ponto de saber quais os países árabes são ou não protegidos dos EUA, e desconhecer as armadilhas em torno do entretenimento coronelista-midiático brasileiro, tornou-se algo vergonhoso para a intelectualidade esquerdista com maior visibilidade, em todos os aspectos.

DIREITISTAS, CARONISTAS E PSEUDO-ESQUERDISTAS

Isso criou na mídia esquerdista uma performance constrangedora, sobretudo diante de modismos de gosto duvidoso e valor realmente discutível como o "funk carioca" e o tecnobrega. O apoio, ingênuo, da intelectualidade esquerdista, a esses dois modismos, causou gargalhadas até entre os articulistas de Veja, e encheu a moral de gente que não merece a maior confiança.

O pessoal esquerdista acreditou que o "funk carioca" e o tecnobrega iriam apavorar a mídia golpista, mas a adesão desta aos dois ritmos popularescos (que, sabemos depois, são apoiados por oligarquias regionais) tornou-se instantânea, explícita e entusiasmada. A intelectualidade esquerdista se encolheu de vergonha, e reage à realidade em silêncio.

Foi sorte, porque estávamos perto de ver blogueiros progressistas cometendo a contradição de, no âmbito sócio-político, estar do lado do MST, mas no âmbito sócio-cultural, estar do lado da UDR. O canto-de-sereia da protegida da Globo, a breganeja Paula Fernandes, com sua voz sensual estava para seduzir alguns marmanjões desprevenidos sentados nos auditórios dos eventos de blogueiros progressistas. Felizmente, não chegamos a tanto.

Mas o caso do "funk" e do tecnobrega fez a festa de internautas e blogueiros de credibilidade discutível. E não se fala de um Reinaldo Azevedo que esculhamba a intelectualidade embasbacada com o "funk".

Fala-se de blogueiros caronistas - aqueles "meio progressistas", que sem querer combater o PiG parasitam a reputação de Paulo Henrique Amorim e outros blogueiros progressistas mais badalados e "acessíveis" - que invadem o Twitter de analistas de esquerda para "justificar" seus pontos de vista.

Vide Eduardo Sander, do Blog do Patolino, que, quando foi justificar a hegemonia do brega-popularesco, veio com um comentário no Twitter típico de um burguês politicamente correto: "É porque a maioria do povo gosta".

Sander atirou no próprio pé. Se fosse pelo mesmíssimo raciocínio, seriam inúteis, também, os esforços de Venício A. de Lima e Fábio Konder Comparato para combater a hegemonia de uma Rede Globo. "É porque a maioria do povo gosta".

Fala-se, outrossim, de pseudo-esquerdistas que, por algum mecanismo corporativista - como o professor Eugênio Arantes Raggi, de Belo Horizonte, um direitista que não queria ficar sozinho em seu "mundo de Pequeno Príncipe" - ou por algum oportunismo pseudo-dissidente - como Pedro Alexandre Sanches, tendenciosamente saído da Folha de São Paulo - , que veiculam sua visão neoliberal das classes populares a avaliar "sua cultura" sob o ponto de vista dos produtores da Rede Globo e dos editores da Folha de São Paulo.

ABISMO IDEOLÓGICO

Só que isso cria um contraste violento, um verdadeiro abismo ideológico, que numa leitura bem atenta, pode ser estarrecedor. Enquanto a agenda política da intelectualidade de esquerda fala em movimentos sociais do povo palestino, das comunidades indígenas chilenas, das mães de desaparecidos da ditadura militar argentina, a agenda "cultural" fala tão somente de jovens suburbanos que, submissos e "felizes", fazem "movimento social" indo que nem gado às casas de espetáculos dos subúrbios, mediante ingresso de R$ 5 ou R$ 10, para consumir o sucesso brega-popularesco do momento.

É um contraste tão grande, que faz com que, definitivamente, os artigos de Pedro Alexandre Sanches tenham mais identificação com o que se escreve na Ilustrada da Folha de São Paulo, no Segundo Caderno de O Globo e no Caderno 2 do Estadão do que em qualquer texto político de Caros Amigos, Carta Capital e Fórum. Definitivamente, Pedro Alexandre Sanches não vive no mesmo planeta de Emir Sader, mas continua na mesma órbita de Otávio Frias Filho, Ali Kamel e companhia.

Isso sem falar que Pedro usou a editora Boitempo para escrever livros sobre ícones alinhados ao direitismo, como Caetano Veloso e Roberto Carlos. Os dois livros de Sanches poderiam ser tranquilamente relançados pelo Publifolha sem que uma vírgula fosse substituída.

E que diferença tem Pedro Sanches falar de Cida Moreira ou Zezé Motta e Caetano Veloso falar de Rosa Passos ou da própria irmã Maria Bethânia, quando um e outro igualmente "tiram folga" de seus delírios pró-popularescos?

Por outro lado, Caetano já despejou ataques verbais a Emir Sader, supostamente "colega" de Sanches, mas claramente de visão midiática divergente do citado crítico musical.

MEDIOCRIDADE CULTURAL TRAVA EVOLUÇÃO DAS CLASSES POPULARES

Vivemos a mediocridade cultural da Música de Cabresto Brasileira, que é uma música pseudo-popular que é popularizada pelo esquema neo-cabresto de rádios FM e da TV aberta, apoiados pelo grande empresariado. E isso é fato, por mais que hoje acuse a popularização dessa suposta cultura "apenas" às "pequenas mídias".

Da imprensa jagunça e seu besteirol policialesco, pornô ou esportivo, das musas popozudas e seu "feminismo" da linha "você ainda acredita nisso, bobinha?" (ou seja, um "feminismo" de araque, a serviço do recreio sexual machista), valores sociais retrógrados e até eticamente duvidosos são transmitidos nas entrelinhas, e não podemos fazer vista grossa a isso.

A mediocrização cultural trava a evolução social das classes populares e as põe à margem do debate público (que o status quo midiático-intelectual tenta restringir o máximo possível a grupos de especialistas). Transforma a cultura do povo pobre numa caricatura, numa sub-Disneylândia da periferia, e imobiliza as classes pobres num consumismo sem qualidade de vida, além de inserir nelas valores duvidosos e eticamente discutíveis, além de promover o conformismo e a alienação.

Afinal, exemplos até menos grotescos e menos constrangedores - mas, ainda assim, de valor artístico-cultural discutível - já eram fartamente questionados pela mais conceituada intelectualidade de esquerda em outros países. E isso há muito mais do que 60 anos.

Leiam Umberto Eco, Noam Chomsky, os professores alemães da Escola de Frankfurt que se exilaram nos EUA, o antropólogo Claude Levi-Strauss, e tantos outros. Leiam José Ramos Tinhorão, leiam até mesmo o geógrafo Milton Santos!

Em um e outro momento, eles apresentarão análises contundentes contra a "cultura de massa", o que fará qualquer um que havia elogiado o "funk carioca" sem ouvi-lo - há sentimento mais preconceituoso que isso? - ficar vermelho, não de paixão socialista, mas de vergonha.

A falta de leitura desses analistas cria uma grande lacuna no público mais jovem, enquanto que a onda apologética que assombra os intelectuais festivos como Hermano Vianna, Pedro Sanches, Paulo César Araújo e outros não acrescenta coisa alguma à informação cultural que precisamos.

Por isso a nossa ênfase no entretenimento e nos assuntos culturais. Porque poucos falam sobre isso. É uma forma de chamar atenção, se não para o leitor "ilustrado" da mídia esquerdista, pelo menos para o solitário contestador da mass culture que "passeia" por suas humildes buscas no Google.

(*) A partir de agora, vamos aportuguesar os termos blog/blogs para blogue/blogues.

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