quarta-feira, 25 de maio de 2011

PIMENTA NEVES E A "PROTEÇÃO" DA IMPRENSA PAULISTA



Por Alexandre Figueiredo

Ontem à noite, o ex-diretor do jornal O Estado de São Paulo, Antônio Marcos Pimenta Neves, se rendeu ao mandado de prisão expedido pelo Supremo Tribunal Federal, para cumprir pena de 15 anos de prisão pelo assassinato da jornalista Sandra Gomide, ex-namorada do criminoso.

O crime havia ocorrido no dia 20 de agosto de 2000, num haras dentro de uma fazenda em Ibiúna, no interior paulista (mesma cidade onde o Congresso da UNE de 1968, presidido por José Dirceu, foi logo dissolvido pela repressão militar, com seus envolvidos presos). Pimenta, embriagado, baleou a ex-namorada duas vezes pelas costas, sem que ela tivesse chance de defesa.

Ironicamente, este que lhes escreve estava finalizando um zine com o mesmo nome de outro blogue, O Kylocyclo. Era irônico que, enquanto um jornalista saía de cena, entrasse outro, ainda que de forma amadora.

INTENSA VIOLÊNCIA MACHISTA

Ao longo desses 11 anos da ocorrência do crime, e que são parte dos últimos 35 anos de intensa violência machista, que dizimou milhares de mulheres - deixando lacunas irreparáveis em muitas gerações - , Pimenta Neves por muito pouco não havia herdado, junto com Guilherme de Pádua (assassino da atriz Daniella Perez), o estrelismo do franco atirador do famoso filme de Luiz Buñuel, O Fantasma da Liberdade (1974).

No filme, o franco atirador, que do alto de um prédio atirava aleatoriamente para qualquer transeunte com sua espingarda, como quem atirasse em passarinhos, foi teoricamente condenado à morte no seu julgamento. No entanto, um guarda abriu a chave da algema e soltou o criminoso, que passou a ser livre e ainda por cima deu autógrafos para duas fãs.

Depois que Doca Street matou a socialite mineira Ângela Diniz, no final de 1976, os assassinatos conjugais que vitimam mulheres tornaram-se um interminável drama na medida em que os assassinos ficavam impunes pelas brechas da lei.

E, o que é pior, os homens de bem teriam que competir com os próprios criminosos passionais em liberdade condicional no chamado "mercado" da vida amorosa, uma vez que estes homens, incapazes de aceitar um fim de namoro, no entanto são muito habilidosos na hora de conquistar novas mulheres.

O caso Pimenta Neves e outros dois criminosos passionais, de cargos relacionados ao zelo da Justiça, que "entraram em ação" naqueles idos de 1999-2000 - o promotor Igor Ferreira, em Atibaia, também interior paulista, e o promotor Reinaldo Pacífico (?!) em Belo Horizonte - , reativaram o pesadelo de homens ilustres cometendo crimes passionais, já que em 1994, aparentemente, as estatísticas de crimes passionais estavam declinando nas classes sócio-econômicas, diminuindo as incidências nas elites.

Afinal, quando o criminoso passional é de classe pobre, ele permanece preso. Não tem dinheiro para comprar um advogado, e seu crime, ainda que movido pela ignorância e pelo consumo de drogas e álcool, também não encontra "atenuantes sociais" para garantir a liberdade condicional, mesmo na condição de réu primário, tida como fator para essa liberdade.

Ja quando o criminoso é de elite, mesmo na classe média alta, a impunidade torna-se certa, tanto pela liberdade condicional no caso de réu primário quanto pelos sucessivos recursos jurídicos entre advogados de acusação e defesa, enquanto o acusado responde ao processo em liberdade. Pior, a liberdade é em tese condicional, mas muitas vezes o criminoso pode sair do país e pode circular aonde quiser, mas de preferência tendo que evitar estar no mesmo lugar de algum ente querido de sua vítima, para evitar qualquer constrangimento ou outro incômodo, mesmo grave.

Mas no caso de Pimenta Neves, o que surpreendeu foi a cumplicidade da imprensa paulista, ou mesmo da Associação Nacional dos Jornais, que influía até nas manobras editoriais. Em periódicos da grande imprensa em circulação em todo o país, que constam com seção específica para noticiários policiais, Pimenta Neves quase não aparecia nelas, sendo colocado cordialmente na seção de "País", normalmente relacionada a fatos políticos ou os sociais de grande repercussão.

"PROTEÇÃO" DA IMPRENSA

A imprensa paulista, então, do contrário que comentou Alexandre Garcia hoje, no Bom Dia Brasil, protegeu, sim, Pimenta Neves. Ele foi tratado como um "coitado que errou", levando a sério o próprio telefonema que Pimenta deu para a redação do Estadão, assim que cometeu o crime. "Cometi uma besteira", disse Pimenta na ligação.

Era a Folha de São Paulo, onde Pimenta também trabalhou, o próprio Estadão e a revista Veja, que até 2006 adotavam uma postura gentil com o "nobre colega", pois, mesmo sem aprovar o crime cometido por ele, minimizava sua gravidade dizendo que "foi um erro" e que "nosso colega Pimenta sente muito pelo que fez". Pimenta foi tratado pela imprensa paulista como se tivesse sido um moleque que, jogando bola no quintal, a chutou, sem querer, contra a vidraça da casa do vizinho.

Tanto que as primeiras reações enérgicas na grande imprensa, poucos dias após o crime, foi da parte do humorismo. A revista Exame VIP, numa divertida sacada, fez uma tabela comparando o mítico Abominável Homem das Neves e o "Abominável Pimenta das Neves", concluindo que o ex-editor do Estadão era bem mais perigoso.

Já na imprensa carioca, destaca-se a atuação de Agamenon Mendes Pedreira, colunista fictício criado pelos cassetas Hubert Aranha e Marcelo Madureira (este muito longe do atual tucano ranzinza a bater ponto no Instituto Millenium), que, fazendo um trocadilho com a expressão "furo", do jargão jornalístico (que quer dizer "notícia de primeira mão e grande impacto"), constatando que Pimenta deu dois "furos" contra a ex-namorada.

Fora isso, só mesmo a realidade buñueliana de Pimenta ser solto na proximidade da Semana Santa, em 2001 - depois de estar encarcerado com outros presos, como Mateus da Costa Meira (que cometeu uma chacina num cinema paulistano, na sessão do filme Clube da Luta) e o juiz corrupto Nicolau dos Santos Neto - , e ninguém ter se lembrado de Pimenta na "malhação de Judas" do sábado de Aleluia.

Foi a mesma omissão também em 2002, com o "colega" (de crime) de Pimenta Neves, o ex-ator Guilherme de Pádua, tambem "protegido" da imprensa paulista e que, ignorado pelas malhações de Judas, praticamente virou um personagem kafkiano, quando ameaçava processar a novelista Glória Perez, mãe da vítima, se ela dirigisse algum comentário contra o assassino de Daniella.

IMPRENSA CARIOCA

A imprensa carioca, por não conviver com Pimenta Neves, conduziu o caso de maneira menos corporativista. O Jornal do Brasil foi um dos que mais pegaram pesado contra o ex-editor, que oficialmente ainda carrega o título de "jornalista" depois de, pelas forças circunstanciais, ter sido aposentado.

Mas em 2006 - ano em que Doca Street lançou sua biografia (talvez, um testamento antecipado) para a sociedade, Mea Culpa, e atingia uma idade de alguém que, com um passado de muito cigarro, bebedeira e drogas, indicava fragilidade, os 72 anos - , quando Pimenta enfrentou um júri popular, a imprensa carioca pegou tão pesado que a paulista teve que seguir o ritmo para não ser acusada de impunidade.

Isso se via sobretudo na TV Bandeirantes, que havia inaugurado um "novo" jornalismo a partir de ex-astros globais - Ricardo Boechat e Joelmir Betting, ainda acompanhados de uma Mariana Ferrão que seguiu o caminho oposto - , e comandou a corneteira contra o réu. Mas a barulheira não impediu que Pimenta fosse mais uma vez sentenciado para a liberdade condicional, esperando o processo "em liberdade".

Hoje a prisão parece ser um marco de decadência do machismo. Mas a grande imprensa, ainda assim, divergia suas visões quanto ao modo de Pimenta viver sua impunidade. A imprensa paulista dramatiza, dizendo que o "nobre amigo" vivia sozinho, triste e tomando remédios antidepressivos. A imprensa carioca, no entanto, garantia que Pimenta vivia na gandaia, com arrogância e ainda exibindo um revólver, com pose de valentão.

Pimenta Neves nunca foi um jornalista marcante. Surgiu como crítico de cinema da Última Hora paulista, e profissionalmente não deixou grandes marcas. Apenas fazia o "dever de aula", dentro de um jornalismo morno, mais próximo do conservador.

Mas tão cedo voltou-se claramente para a imprensa direitista, através da extinta revista Visão e do cargo de consultor do Banco Interamericano para a Reconstrução e Desenvolvimento, conhecido também como Banco Mundial.

Aparentemente, não cabem mais, para a defesa de Pimenta Neves, novos recursos para evitar sua prisão. Ele terá que cumprir a sentença de 15 anos dentro da cela. Aparentemente, o ex-editor disse estar pronto para a nova rotina. Não se sabe ainda se é a decadência definitiva do machismo, mas a chamada "defesa da honra" sofreu uma enorme ferida moral. Isso é bom.

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