terça-feira, 24 de maio de 2011

PEDRO ALEXANDRE SANCHES, FUKUYAMA, BENITO DI PAULA E AS "APARELHAGENS"


TECNOBREGA, AGORA CONHECIDO COMO TECNOMELODY - Muita estrutura para ser considerada "pequena mídia das periferias".

Por Alexandre Figueiredo

O setor cultura é um dos remanescentes do discurso conservador que toma conta da grande mídia, e, aparentemente, quer estar fora e acima dela.

Mas não está. Nota-se o empenho de uma intelectualidade educada nas cátedras proto-tucanas da USP, associada às oligarquias do rádio FM, das grandes redes de atacado e varejo e da indústria do entretenimento, sobretudo da forma intensa ocorrida durante governos conservadores de Collor e FHC.

Mais uma vez Pedro Alexandre Sanches, demonstrando ser discípulo de Francis Fukuyama, ainda que de forma não assumida no discurso, contra-ataca para tentar salvar o império da Música de Cabresto Brasileira que começa a ruir.

Desta vez, o pupilo de Otávio Frias Filho capricha na munição: na revista Caros Amigos, na sua coluna "Paçoca", Sanches defende o tecnobrega - agora rebatizado de "tecnomelody" - como se fosse "um processo histórico de inclusão social pela cultura". Já na revista Fórum, ele tenta creditar o cantor brega Benito di Paula, sucesso no auge do regime militar, como se fosse um "operário" da música.

Em ambos os casos, o teor propagandista de Pedro Sanches destoa dos demais articulistas da imprensa esquerdista. Ele tenta promover os mecanismos da indústria cultural como se fosse um lobo mau se passando pela vovozinha, no conto de Chapeuzinho Vermelho. Faz vista grossa aos mecanismos de poder que estão por trás, sobretudo relacionando política e mídia, sobretudo quando lança as "novidades radiofônicas" do Pará.

Nem precisamos detalhar que o propagandismo confuso de Sanches contrasta, e muito, com a lucidez que outros colunistas da imprensa esquerdista, como Rodrigo Vianna, Emir Sader, Renato Rovai, Marcos Bagno, Marilene Felinto e José Arbex Jr. expressam em seus textos.

Mas se confrontar os textos de Sanches com o que se escreve na primeira página da Ilustrada da Folha de São Paulo, no Segundo Caderno de O Globo e até mesmo no Jornal da Globo e no Domingão do Faustão, verá que os textos seriam iguais, dadas pequeninas diferenças. Caetano Veloso, por exemplo, faria as mesmas apologias ao "funk" e ao tecnobrega, só que num teor menos jornalístico.

Nelson Motta, já vinculado ao Instituto Millenium, fez as mesmas defesas ao tecnobrega do que Pedro Sanches, evidentemente sob o consentimento de Ali Kamel. E o próprio Otávio Frias Filho também aprovaria as defesas "culturais" de seu ex-funcionário mas para sempre pupilo. Coincidência?

Dentro do seu condomínio, em São Paulo, Pedro Alexandre Sanches, com o artigo intitulado "A Aparelhagem do Norte, a Ministra da Cultura, Você e Eu", ele dilui Francis Fukuyama numa retórica inspirada na narrativa new journalism. Fala de alguns intérpretes emergentes de um cenário mais recente do tecnobrega/tecnomelody, como se quisesse reforçar, num sensacionalismo quase elegante, a origem humilde de tais intérpretes.

Tentando trabalhar ideias sedutoras como "multiculturalismo", além de alegações irreais como dizer que o tecnomelody e seus derivados (sim, existem subprodutos do tecnobrega, como o cybermelody) vão "muito além da mera influência estadunidense", o colonista-paçoca ainda comete o equívoco em lamentar o "Brasil que tão pouco olha para seu próprio norte".

Pois se alguém "pouco olha para o próprio norte" é o próprio Pedro Alexandre Sanches. Pois um jornalista paraense, respeitado pela intelectualidade progressista e cujo drama recebeu a solidariedade dos blogueiros progressistas de todo o país, Lúcio Flávio Pinto, definiu o tecnobrega com uma única e incômoda palavra: lixo. E nem de longe isso significa algum "moralismo elitista" ou coisa parecida.

Isso sem falar que Pedro Sanches desconhece que por trás do "funk carioca", tecnobrega, forró-brega e outras "manifestações espontâneas das periferias", existe uma mídia que nem de longe pode ser considerada pequena, envolvendo rádios, casas de espetáculos, agências empresariais dos próprios ídolos, que opera sobretudo com um esquema fordista-toyotista e que já consiste num poderio imenso e concentrado no entretenimento brasileiro.

Só Pedro Sanches e seus asseclas sorririam, por exemplo, diante de um fenômeno que o colunista chama de "neo-forró", que no Ceará causa indignação pela sua hegemonia extrema, que já rende uma reação expressiva da intelectualidade de lá. O poderio da Som Zoom, empresa que inclui rádios e agências de talentos, só é considerado "mídia pequena" na imaginação fértil de Pedro Alexandre Sanches e similares.

Só para citar palavras do próprio colunista, o tendenciosismo pseudo-esquerdista de Pedro Alexandre Sanches já arrumou guarita diante de uma possível crise envolvendo a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, mostrando que ele tornou-se especialista em fugir de barcos furados, quando, há alguns anos atrás, ele saiu da Folha de São Paulo quando os analistas da mídia começaram a desvendar os males de seu reacionarismo. Pedro Alexandre Sanches foi Gilberto Kassab antes do próprio Gilberto Kassab.

Escreve Sanches: "A Gang do Eletro (ícone do tecnobrega) e o melody, assim como várias cenas regionais que vicejam espontaneamente (sic) Brasil afora, vivem fora do radar da já célebre ministra da Cultura de seu país, Ana de Hollanda, de que a 'democratização da cultura do país não pode passar por cima do direito autoral'".

Evidentemente, Sanches não deve ir com a cara de Ana, que, além de ministra, é cantora de MPB daquela turma da Biscoito Fino hostilizada pelo colonista-paçoca. E isso virou uma forma de Sanches evitar se associar a uma das "vilãs" da temporada, ainda que as ideias dele tenham contradições violentas com o "outro lado", representado por seu aparente "caro colega" Emir Sader.

Sanches parece se desinformar de muitas coisas, ou então distorce os fatos de propósito. Tenta defender funqueiros, forrozeiros, tecnobregas e outros como se não fizessem parte da mídia, omitindo a mais explícita realidade de que todos esses ritmos contam com o apoio mais escancarado da grande mídia, sobretudo Organizações Globo e Grupo Folha, especialistas em tentar servir o brega-popularesco para a classe média.

Na revista Fórum, Sanches ainda se junta ao coro dos arrogantes que não toleram mais crítica alguma, por mais construtiva e amena que fosse, a uma figura como Benito di Paula, ícone do sambão-jóia (arremedo piegas do samba-rock) que fez muito sucesso no período do "milagre brasileiro", através de rádios que respaldavam o regime militar.

O que prova, por A mais B, o quanto setores conservadores da sociedade parece ainda viverem nos tempos do AI-5, sempre patrulhando alguém que, mesmo com alguma objetividade, contestasse certos totens sagrados do establishment musical brasileiro.

Pois Pedro Alexandre Sanches definiu Benito di Paula como "operário", assim como definiu Gaby Amarantos como a "índia negra branca do Pará" - nem o Visconde de Porto Seguro, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, teria ido longe na promoção os pretensos heróis de nossa História - e imitando Paulo César Araújo quando este tentou promover os "ídolos cafonas", Benito incluído, como se fossem "cantores de protesto".

Mas isso faz sentido para um jornalista que usou a Editora Boitempo para promover dois ícones, ainda que muito talentosos, ideologicamente comprometidos com a direita, como Caetano Veloso e Roberto Carlos, e que durante anos se dedicou fervorosamente aos interesses dos Marinho, Civita e, sobretudo, Frias.

6 comentários:

  1. "Tecnobrega", "Tecnomelody" e "Cybermelody" são na verdade rótulos novos para tentar requentar o forróbrega e continuar lucrando com ele, desta vez, criando supostas associações a tecnologia que não vemos na prática.

    É uma especialidade dos popularescos de hoje relançar ritmos defasados com novos rótulos para enganar a população, que pensa se tratarem de coisas novas, já que, ultimamente, a maioria das pessoas "ouve" as músicas com os olhos e não com os ouvidos.

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  2. Um tanto rancoroso este texto, não?

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  3. Nem um pouco rancoroso. Ter senso crítico requer textos enérgicos, de vez em quando. Isso não é rancor.

    Essa impressão se dá porque a mídia e o mercado de entretenimento domesticam demais as pessoas em nossa volta, e dão a impressão de um país "muito feliz".

    Só que não vivemos no país das maravilhas de Luciano Huck. Daí o "choque térmico" com os textos que eu escrevo, que parecem rancorosos, mas não são.

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  4. Drizero, se for pelo seu raciocínio, Paulo Henrique Amorim também estaria sendo "rancoroso" com José Serra.

    É bom deixar claro que o Brasil não é essa Disneylândia toda que a mídia anda dizendo, não.

    É preciso que se relate o lado oculto dessa ideologia do espetáculo. Coisa que muitos intelectuais "rancorosos" da Europa já fizeram em relação à realidade cultural-midiática de seus países.

    Em tempo: estava muito calmo quando escrevi este texto.

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  5. Drizero, eu não vi rancor nenhum nesse texto. O cara falou a verdade. Ela parece contundente, por isso parece muito cruel.

    A verdade dói, e sem saber nós estamos acostumados com tanta ilusão que qualquer coisa que a nega parece raiva, ódio ou rancor.

    Para mim, o texto está tão "sereno" quanto qualquer outro escrito por pessoas como Noam Chomsky.

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  6. Liga, não, Alexandre, seu texto está de parabéns. Só a memória curta para ignorar um Pedro Alexandre Sanches que, um dia, colaborava feliz para os Marinho, Civita e sobretudo Frias.

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