terça-feira, 10 de maio de 2011

A MÚSICA PARALISADA BRASILEIRA


BANDA CALYPSO - UM DOS QUE PRATICAMENTE SÓ LANÇAM DISCOS AO VIVO.

Por Alexandre Figueiredo

Cantores, duplas e grupos lançam CDs e DVDs ao vivo, relembrando grandes sucessos. Gravam muitos covers, sejam ao vivo ou em discos-tributo. Gravam também muitos duetos, geralmente do cancioneiro tradicional ou então de antigos sucessos do rádio, sejam MPB, brega ou neo-brega. Os discos ao vivo chegam a ser sucessivos.

Parece carreira de ídolos do passado em revival saudosista. Mas tudo isso é o que fazem os ídolos popularescos do momento. Sejam eles do "pagode romântico", do "sertanejo", da axé-music, do "forró eletrônico" e outros estilos popularescos, esses ídolos vendem a suposta imagem de "grandes criadores da atualidade", mas contradizem quando lançam discos como se fossem ídolos passadistas em quase ostracismo.

Sim, é essa a situação. Enquanto esses medalhões trabalham seus discos como se fossem revival de si mesmos, seu marketing os vende como se fossem os "criadores da música atual", os "artistas do presente", numa clara demonstração de que enganam o grande público com isso.

É a Música Paralisada Brasileira. É o fenômeno que se baseia na acomodação de ídolos de sucesso popularesco na gravação de repertório predominantemente revivalista. São poucos os discos de inéditas, entre tantos álbuns e vídeos ao vivo gravados. Em média, para cada um álbum de inéditas, são três ou quatro discos ao vivo, em boa parte consecutivos.

São ídolos com cerca de dez a vinte anos de carreira, mas em certos casos até de cinco. Geralmente lançam seus primeiros sucessos em discos de estúdios, e, embora medíocres, valem pela aparente novidade. Tornam-se "polêmicos", por conta de uma intelectualidade paternalista que os acolhe num pseudo-populismo demagógico.

Obtidos tais sucessos, os ídolos acabam depois por gravar apenas covers, duetos, discos ao vivo, como se nada mais tivessem que fazer - o que, no fundo, é verdade - , apenas gravando discos de inéditas para fazer a média das rádios. Mas, em muitos casos, são tantos discos ao vivo que um não difere em coisa alguma no outro. Até porque os discos contém sempre os mesmos sucessos.

Tudo é pretexto para lançar discos ao vivo. É a dupla breganeja lançando DVD ao vivo no Rio de Janeiro. É o grupo de "pagodão" baiano lançando DVD ao vivo em São Paulo, para "consagrar" o sucesso "no Sul" (os nordestinos chamam o Sudeste de "sul"). É o grupo de sambrega de apenas 20 anos de carreira lançando DVD comemorativo de 25 anos. É a cantora de axé-music lançando DVD de especial de TV, outro nos EUA, outro de duetos, outro naquela casa de espetáculos da moda, e por aí vai. Daqui a pouco, terá DVD comemorativo até do aniversário de cinco anos de um filho de um cantor de sambrega.

O ATAQUE DOS CROONERS - A situação torna-se grave quando cantores e duplas que vendem a imagem de "grandes criadores" passam a gravar praticamente só covers, num desempenho comparável ao de um calouro de reality show musical. Aí a coisa se agrava completamente.

Não bastasse a sucessão de discos revivalistas, esses "criadores", justamente no auge da carreira e com muitos anos de "estrada", quando poderiam gravar repertórios mais autorais, acabam fazendo o contrário: gravam muitas músicas alheias, até pela ânsia de associarem suas imagens ao cancioneiro mais tradicional da Música Popular Brasileira.

Há dois anos atrás, o Grupo Revelação, de sambrega, e a dupla César Menotti & Fabiano, de breganejo, lançaram "músicas novas" que, na verdade, eram covers, respectivamente de Djavan e 14-Bis. Apesar do crédito original dos covers, as músicas eram alardeadas como se fossem "novidades", num claro cinismo de intérpretes que, se quiserem, deixam de fazer composições próprias para viver das composições de outros.

Acabam se equiparando a crooners de luxo dos restaurantes das cidades, meros entertainers sem muita serventia artística. A pregação intelectual de cientistas sociais, críticos musicais e celebridades em prol desses "artistas" torna-se vã, apesar de insistente, só ajudando a mantê-los nas rádios e no mercado, porque na prática nenhum deles representa a tão alardeada renovação da música brasileira que a intelectualidade apologética tanto alardeia de peito erguido.

É uma grande malandragem desses nomes da música em gravar material revivalista, como se fossem ídolos do passado à beira do ostracismo, e trabalharem sua imagem midiática como se fossem "artistas do presente" em alta produtividade.

Por que será que acontece isso?

Enquanto isso, a MPB autêntica, quando condenada ao esquecimento, grava discos sempre com algum sucesso antigo. Cantores que poderiam gravar só inéditas, acabam tendo que regravar antigos sucessos, não porque querem, mas porque o mercado determina.

Ou seja, a MPB autêntica é desaconselhada a gravar material inédito que representasse uma real renovação. Enquanto isso, a música brega-popularesca grava pouquíssimo material inédito que nada acrescenta aos antigos sucessos sucessivamente regravados ad nauseam, apenas sendo pálidas reproduções.

Isso é que paralisa a música brasileira. Mas a intelectualidade que defende esses ídolos popularescos diz que eles são a "renovação". Como, se nada fazem para isso? É muita demagogia, muita lorota, muita propaganda travestida de monografia científica. Muita falação bonita, dentro das normas acadêmicas e jornalísticas, mas é um discurso bem organizado que não passa de uma falácia bem construída.

Nada disso serve para a renovação de nossa cultura. Pelo contrário, só paralisa a cultura brasileira num esquema de compadrismo e auto-reverência, e pode representar interesses escusos, corporativistas, clientelistas ou tão somente tendenciosos por trás dessa defesa desses ídolos da "cultura popular" das rádios e TVs, patrocinada pela Folha de São Paulo, Organizações Globo e até por Fernando Henrique Cardoso. É esperar para ver.

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