domingo, 1 de maio de 2011

LONGA CARGA HORÁRIA É PIOR DO QUE SE IMAGINA



Por Alexandre Figueiredo

Uma das reivindicações das classes trabalhadoras, a redução da jornada do trabalho, é também uma das mais antigas. E, embora haja relativas conquistas a respeito - as condições de trabalho, nos primórdios da Revolução Industrial, eram bem piores e próximas da escravidão - , a redução da carga horária ainda é insuficiente para que possa representar alguma qualidade de vida para os cidadãos.

E a situação é bem pior do que se imagina, mesmo em se tratando de uma carga horária relativamente "mais justa", de oito horas.

Isso porque a carga horária atinge praticamente todo o tempo relacionado à luz do Sol, ou seja, ocupa todo o período diurno de luz natural. A carga horária praticamente se encerra quando o Sol já se prepara para se pôr no horizonte.

Mas o que isso tem a ver com problemas? Não estamos acostumados com essa rotina de trabalho? Sim, estamos acostumados, mas não é por isso que ele seja adequado, bom ou mesmo o ideal.

A longa carga horária, motivo de queixa de muitos proletários, atinge a todos. Por isso é pior do que se imagina. Ela afeta seriamente a rotina de vida, transforma jovens idealistas em adultos apáticos, e a própria rotina de reencontrar o ócio só no escurecer do céu faz muitas pessoas, mesmo os patrões, se tornarem frustradas.

O ócio é ruim? É sinônimo de vadiagem?

De jeito nenhum. Aliás, o divórcio entre ócio e trabalho mostra o quanto a palavra trabalho, que antigamente era um inocente sinônimo de qualquer atividade produtiva - podendo ser um simples hobby ou até mesmo uma brincadeira de criança - , afeta as pessoas.

Sem o período de ócio necessário ao ser humano, perde-se aquele tempo que as pessoas precisam para se autoconhecerem, para exercerem sua imaginação, para trabalharem as suas emoções. E, trabalhando para outras pessoas - o que não é errado nem ruim, mas não deveria tomar tanto tempo assim - , o ser humano perde a individualidade cujos vestígios ainda se vê nos pátios e salas de faculdades.

É por isso que existe a frustração que transforma jovens animados em adultos melancólicos, uma juventude com personalidade numa multidão adulta que ainda não se reencontrou. Por isso a vida adulta, mais precisamente depois dos 35 anos, se torna uma coleção de dramas pessoais.

Tudo porque as pessoas se expõem ao lazer, de segunda a sexta, apenas no período de entardecer. Para dar uma caminhada pelo calçadão da praia ou pela praça pública, fica perigoso, a não ser que mais de 50% das pessoas seja induzida a andar nas ruas entre 18 e 21 horas, ao menos.

Não dá para contemplar o Sol, nem ver a paisagem, nem fazer as atividades sem o uso da luz elétrica. E o cansaço de uma jornada de oito horas, mas nem sempre muito produtivas, é normalmente compensado com noites sedentárias em bares e boates, que transformam rapazes atléticos das faculdades em brutamontes barrigudos e cabisbaixos, ou fazem nerds franzinos e apenas tristes em nerds gorduchos e mais tristes ainda. E também pregam suas peças nas mulheres, tirando-lhes a beleza e a doçura de outrora.

Graças a essa rotina, as pessoas, impedidas de um lazer diurno que as possa estar em contato com suas consciências, pensando nos seus desejos, vontades ou mesmo limitações, impedidas de exercer sua imaginação ou de simplesmente ver a paisagem e agradecer a Deus por estarem vivos, acabam sofrendo sérios danos em suas vidas.

Criam-se preconceitos, amarguras, tiranias, de um lado, e apatias e ingenuidades de outro, a as pressões do mundo adulto tecnocrático e da ideia católico-medieval do trabalho (não como uma simples ocupação para o espírito, mas de um mero compromisso produtivo somente para outra pessoa) acabam fazendo com que muitos antigos colegas de escola passem a ser amigos pouco entusiasmados, se os laços de amizade não se tornarem firmes.

As pessoas se consolam no bar, incapazes de andarem soltas pelas ruas à noite, desanimadas por não reconhecer a paisagem naturalmente, impotentes de usarem a mente para criarem coisas, se autoconhecerem ou mesmo aperfeiçoarem seus planos de vida.

Dessa forma, as pessoas envelhecem rapidamente, na busca inútil pela qualidade de vida. Que não inclui um salário melhor nem maior conforto material, até porque muitos CEO's são dotados de péssima qualidade de vida, pois se tornam sedentários, sisudos, e até precocemente envelhecidos.

Um bom exemplo disso é o empresário francês François Pinaut, dono de uma rede de varejo no seu país e casado com a atriz mexicana Salma Hayek. Pinaut tem apenas 49 anos, mas parece um quarentão à moda do século XIX, com jeitão de alguém que hoje está à beira dos 60 anos.

A diferença entre ele e sua esposa é de apenas quatro anos, mas a imprensa de celebridades, jocosamente, o chama de sugar daddy (algo como o nosso "papa-anjo") porque François aparenta mais velho do que é e Salma aparenta mais jovem do que os quase 45 anos da bela atriz.

Pior é quando se compara o empresário francês a pessoas que sempre mantiveram o prazer da juventude, como o cantor Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial. Ninguém diz, à primeira vista, mas a diferença etária de François Pinaut com Dinho Ouro Preto é de tão somente dois anos, e muitos amigos de infância que trocavam figurinhas e brincavam de bolas de gude têm essa diferença.

Talvez o gradual rejuvenescimento da humanidade se dá porque a vários indivíduos se permite uma vida menos sobrecarregada. A rotina pesada do trabalho, não somente o operário ou camponês, mas mesmo o patronal, dotado de pressões diversas da sociedade, faz as pessoas envelhecerem rapidamente, tornarem-se mais amargas, preconceituosas, gananciosas, desiludidas.

Por isso pensar a carga horária no trabalho não é uma questão de "frescura comunista". Ela está acima de qualquer ideologia. Talvez seja uma questão de vida ou morte, para permitir que as pessoas possam ter um tempo livre, à luz do dia, para entrarem em contato consigo mesmas, avaliando seus desejos, suas realizações, seus desafios. Para que elas não sejam escravas do relógio e não sofram a tentação de se desumanizarem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...