sexta-feira, 6 de maio de 2011

JUNTAR MPB E BREGAS É INÚTIL PARA A CULTURA POPULAR


A MÚSICA BOA DE NANDO REIS E A "NÃO TÃO BOA ASSIM" DE ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO - O "excluído" não é a dupla breganeja.

Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos dez anos, a campanha de defesa do brega-popularesco, categoria musical composta de diversas tendências comerciais diluidoras da cultura popular brasileira, que até agora mantém seu império mercadológico através das emissoras de rádio e TV e sob o patricínio de grandes empresas e até latifundiários, tenta promover seus ídolos como se fossem "a verdadeira cultura das classes populares".

A desculpa é essa: os ídolos lotam plateias em pouco tempo, vendem muitos discos e põem programas de televisão no pico do Ibope. Mas só porque, aparentemente, são apreciados pelas populações de subúrbios, roças e sertões não significa que essa seja, de fato, a verdadeira cultura das classes populares.

Primeiro porque, comparando os ídolos popularescos que se ascenderam nas ondas de "sucessos populares" de 1990-1992, 1994-1997 e 2002-2006, para não dizer os de outras épocas - mesmo os primeiros ídolos cafonas da safra de 1964-1968 - , com o patrimônio cultural das classes populares produzidos sobretudo antes de 1964, vemos que a diferença de qualidade é extrema. No passado, as classes populares produziam uma cultura de excelentíssima qualidade.

Muitos preconceitos foram transmitidos pela mesma intelectualidade que defendia o brega-popularesco a pretexto de "superar os preconceitos". E preconceitos piores do que aqueles que essa intelectualidade diz combater. No fundo, essa propaganda de defesa dos ditos "sucessos do povão" não passa de uma forma de cientistas sociais "comprarem" a visibilidade na grande mídia, cansados da "mesmice" da vida acadêmica e das verbas do CNPq que nem sempre vêm.

Um dos conhecidos apelos, respaldados também por cantores e jornalistas, é de que, em tese, "tudo é MPB" e que o que os propagandistas do brega-popularesco querem é a inclusão de seus ídolos no universo da Música Popular Brasileira.

Duetos chegam a ser gravados, muitos deles, visando essa tese, aparentemente cordial mas dotada de profundo caráter paternalista. Há o caso "histórico" de Caetano Veloso - já despido de suas ousadias tropicalistas, que atingiram o ápice de Araçá Azul (1972), e convertido em líder do establishment cultural tão criticado pela imprensa musical - , que fez um dueto com Odair José na música "Eu vou tirar você deste lugar", no festival Phono 73, realizado em 1973 no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, entre 11 e 13 de maio. Portanto, há 38 anos.

Um exemplo ilustrativo disso é a iniciativa de Nando Reis, nome do Rock Brasil adotado pela MPB, de fazer "parcerias" com ícones do brega, como Wando, Banda Calypso e Zezé Di Camargo & Luciano. Em muitos casos, o artista de MPB usa os ídolos brega-popularescos para obter visibilidade na mídia ou, em certos casos, para que o tal artista de MPB possa também se inscrever para apresentações em vaquejadas, micaretas etc.

Por outro lado, o ídolo brega-popularesco tenta uma associação com os artistas de MPB com quem grava, ou dos quais grava seu repertório. É uma forma dos ídolos brega-popularescos, notabilizados por sua mediocridade artística - apesar de seu grande sucesso - , serem "levados a sério" e sobreviverem mais de seis meses (e, de preferência, mais de cinco anos) na mídia.

Com isso, verdadeiros discos de covers ou regravações são sucessivamente gravados pelos ídolos brega-popularescos, que em muitos casos chegam a lançar, num espaço de cinco anos, pelo menos três álbuns ao vivo. Mais tarde comentaremos a respeito do fenômeno da "Música Paralisada Brasileira", outro engodo que nada contribui para a cultura do povo brasileiro.

Juntar MPB e ídolos bregas e neo-bregas (neo-brega é o que chamamos os ídolos "populares" surgidos pós-Sullivan & Massadas e aparentemente mais "lapidados" no visual, na técnica e na imagem midiática) soa teoricamente lindo e edificante para quem defende essa ideia. Mas, em termos práticos, isso se revela completamente inútil e inócuo.

Em primeiro lugar, porque apenas significa juntar opostos, tornando ainda mais explícito o desequilíbrio entre a cultura consumida pelas classes populares e a cultura apreciada pelas classes mais abastadas. Juntar um e outro não resolvem para eliminar o abismo que os separam, antes seria como tapar um buraco na estrada com um lençol de cama.

É só comparar as entrevistas que os ídolos de MPB fazem com as que os ídolos brega-popularescos realizam. Isso causa um contraste enorme, por mais que o ídolo brega-popularesco seja cortejado pela turma da MPB. Os ídolos brega-popularescos são quase sempre ingênuos e submissos em suas entrevistas. Qual ídolo brega-popularesco fará uma entrevista como a que faz um Chico Buarque?

Dizer que os ídolos brega-popularescos são assim porque "são pobres" não é desculpa. Até porque vários desses ídolos brega-popularescos são muito mais ricos do que até mesmo supostos burgueses da MPB, como Francis Hime e Fátima Guedes. E, em outros tempos, antigos ídolos da música brasileira, como João do Vale, Ataulfo Alves, Pixinguinha e outros davam boas entrevistas.

Podia haver, nas entrevistas com os verdadeiros artistas populares do passado, uma ingenuidade aqui, uma ignorância acolá, mas nada que se compare ao patético desempenho dos ídolos brega-popularescos, tão "carneirinhos" com o mercado e o establishment que os acolhem.

Em segundo lugar, porque juntar MPB e brega-popularesco parece lindo em tese, rende aplausos entusiasmados, mas, no fundo, nem mesmo aqueles que mais defendem essa união aguentam ver cantores de MPB e ídolos bregas/neo-bregas juntos. É mais uma forma de calar as críticas. Mas, no fundo, nem quem aplaudiu aguentaria ouvir, pelo menos mais de duas vezes, um cantor de sambrega duetando numa música de um CD de um grande nome do samba autêntico.

Em terceiro lugar, porque não é o brega-popularesco que, na realidade, aparece como "excluído". O excluído, na verdade, é o cantor de MPB, de Rock Brasil. Este é que quer espaço e visibilidade. Os "sertanejos", "pagodeiros", ídolos da axé-music, funqueiros etc, esses estão no poder, esses é que são a classe dominante.

No dueto de Nando Reis com Zezé Di Camargo & Luciano, quem está no poder é a dupla goiana, o excluído é o ex-Titãs. No dueto entre Zé Ramalho e Chitãozinho & Xororó, a classe dominante, de fato, é a dupla paranaense, o cantor paraibano é que aparece como excluído. Como excluído também é Geraldo Azevedo no dueto com a poderosa (no sentido de classe dominante) Ivete Sangalo.

Classe dominante também é DJ Marlboro, Mr. Catra, Alexandre Pires, Banda Calypso, Gaby Amarantos, Tati Quebra-Barraco, Parangolé, DJ Reginho e Calcinha Preta. Eles é que são os donos do poder da música brasileira. Eles são o establishment, são o "sistema", são a grande mídia, o PiG musical. Eles contam com o apoio até da UDR!...

No fim, a manobra "bem intencionada" acaba virando uma pilhéria às classes populares, já que juntar MPB e brega acaba se equiparando, para seus próprios defensores, a uma dondoca que mostra seu cachorrinho bem tratado nas andanças da cidade.

Isso em nada resolve na superação do abismo que separa o povo pobre das elites intelectualizadas. E em nada acrescenta na renovação da cultura brasileira. Até porque qualquer processo de juntar MPB e brega - seja por covers, duetos etc - não passam de meras "reverências formais", que escondem interesses de troca de vantagens pessoais.

Quando muito, o ídolo brega-popularesco vira mero crooner de sucessos mais acessíveis da MPB autêntica. O que não faz dele mais criativo nem artisticamente mais autêntico. E além disso o faz mero imitador e seguidor dos mesmos vícios que muitos criticam da ala mais burguesa da MPB, como o excesso de pompa e luxo nas apresentações ao vivo e nas gravações de discos.

O ídolo brega-popularesco vai ao programa de música caipira autêntica na televisão, ou ao tributo de samba promovido por uma emissora de rádio, visando vantagens pessoais de associação com referenciais culturais que ele tão somente dilui e do qual, no fundo, desconhece sua história, a não ser informações mais manjadas

Já o artista de MPB usa o ídolo brega-popularesco para atingir o grande público, para tocar na micareta, nos galpões "mega shows" dos subúrbios, nas vaquejadas, nas feiras de agropecuária ou agronegócio.

Os bregas e neo-bregas querem credibilidade, a MPB quer visibilidade. Mas os primeiros carecem de talento natural e vocação para tal coisa, e, quando muito, se perdem em covers ou em clichês da "MPB burguesa" de 1979-1988, como apresentações ao vivo superproduzidas. Já a MPB chega a abrir mão de seus princípios para acolher ídolos bregas e neo-bregas, uma atitude que, em que pese a "louvável" cordialidade, soa paternalista e arriscada, porque pode desgastar a imagem do artista sério "condescendente", que aceita tudo fácil.

Já dá para perceber por que as rádios de MPB não podem misturar seu repertório com os mesmos sucessos das rádios brega-popularescas. No Rio de Janeiro, por exemplo, a intelectualidade etnocêntrica gostaria que a MPB tivesse o mesmo cardápio musical da Beat 98 e Nativa FM, apenas deixando a "MPBzona" para os fins de noite.

Mas essa atitude deixaria a MPB FM intragável. Por isso, os espaços possíveis de veiculação de referenciais brega-popularescos - os programas Sexo MPB e Noite Preta FM - acabam virando meros feudos radiofônicos da emissora carioca, dos quais o público qualificado associado à MPB autêntica nem chega perto.

Só esse fato mostra o quanto juntar MPB e brega-popularesco soa inútil. No fundo, é como chá de losna: todo mundo recomenda e aprova, mas ninguém tem coragem nem vontade de ingerir.

Um comentário:

  1. Será que, daqui a pouco, o Nando Reis vai convidar a Mulher Filé para um dueto?

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