terça-feira, 31 de maio de 2011

GRUPO FOLHA INVENTOU FALSA ANALOGIA ENTRE ÚLTIMA HORA E NOTÍCIAS POPULARES



Por Alexandre Figueiredo

Se alguém acredita na analogia do jornal carioca Meia Hora com o Pasquim e no jornal Última Hora com qualquer veículo da imprensa policialesca, pode agradecer ao Octavio Frias de Oliveira, o falecido chefão da Folha de São Paulo antes de se aposentar e entregar o comando ao seu rebento Otávio Frias Filho.

Pois foi o Grupo Folha, que mal havia fundido os jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, transformando-os na atual Folha de São Paulo - mas, ao lado desta, tendo ressuscitado a Folha da Tarde até 1999 - , que se apropriou do copyright da edição paulistana do jornal Última Hora, já em 1965.

O fundador da UH, Samuel Wainer, já não controlava mais o jornal. Até porque isso era impossível. Wainer estava engajado na defesa de uma corrente política, o trabalhismo de Vargas e, também, pela sua continuidade representada por João Goulart, e por isso era considerado um "criminoso" entre tantos durante o então nascente regime militar.

Wainer havia sofrido problemas com a acusação, de parte de Carlos Lacerda, de que não era brasileiro, mas um estrangeiro naturalizado, nascido na Bessarábia, condição que lhe impedia legalmente de possuir um jornal. A acusação rolou na primeira metade dos anos 50.

É um daqueles casos de um grupo jornalístico conservador deter os direitos de copyright de um periódico ideologicamente oposto. Ainda que o Grupo Folha tenha investido num jornal aparentemente "esquerdista", como a Folha da Tarde, só para garantir a relativa autonomia de profissionais esquerdistas como Cláudio Abramo, numa época em que os militares ainda faziam um arremedo de "democracia".

Afinal, ainda era uma época de uma imprensa que mostrava muitos talentos progressistas, como Cláudio Abramo e seu irmão Perseu Abramo, Sérgio de Souza, Paulo Patarra, Milton Severiano, Mino Carta e outros. E que mesmo a grande imprensa empregava-os não por uma questão de cumplicidade, mas porque tinha que apostar na aparente independência editorial.

E, se tínhamos uma Última Hora que fazia um jornalismo autenticamente popular e por isso valorizando a inteligência, sem apelar para o sensacionalismo, depois tivemos uma Realidade que elevava o jornalismo ao nível da arte, juntando informação honesta com narrativa literária. E tivemos o Pasquim, que não era só um jornal de humor, mas também de ensaios literários, análise política, entrevistas substanciais e muitas, muitas dicas culturais.

PARA O PiG, IMPRENSA POPULAR TEM QUE SER BURRA

A mitificação que, por isso mesmo, ronda a imprensa popularesca, que se autopromove com falsas analogias ao Pasquim e Última Hora, surpreende certos leitores menos informados da mídia progressista, e tal deslize agrada e tranquiliza os barões da grande mídia, para os quais é perigoso oferecer inteligência às classes populares.

Por isso defendem uma imprensa "burra", a partir de pretextos bastante contraditórios. Afinal, a imprensa policialesca nunca é oficialmente definida como imprensa humorística, mas é a desculpa do "humorismo" que é acionada quando acusam esse tipo de imprensa de fazer mau jornalismo. E muito trouxa cai nessa.

Por isso este blogue, Mingau de Aço, apavora ainda algumas elites enrustidas, por defender uma cultura popular diferente dessa forma caricatural que se vê na TV aberta e nas rádios FM. Mesmo aquelas elites que disfarçam seu conservadorismo com o mimetismo "progressista" nas leituras de Caros Amigos e Carta Capital, do Conversa Afiada e Brasilianas.Org.

É uma elite que se diz "amiga do povo" mas cuja visão de classes populares é bem menor do que o quarto que ela reserva para suas empregadas domésticas. No fundo, é uma visão feita apenas para agrados pragmáticos a empregadas, porteiros e garis, desde que estes se condicionem a padrões de entretenimento determinados pelo mercado e pela mídia.

Por isso, essa elite - que no fundo vivia feliz nos anos 90 endeusando FHC e lendo a Folha de São Paulo - expõe volta e meia seus preconceitos "justoveríssimos" que creditam, entre outras coisas, a imprensa popularesca como se fosse a "genuína imprensa popular". Só veem as periferias nas telas de TV, mas acham, arrogantes, que a conhecem a fundo.

Quem está feliz com isso são os barões da grande mídia que, promovendo uma falsa reputação cult a Notícias Populares e talvez prepare alguma badalação similar se caso o Meia Hora falir, ainda conseguem fazer prevalecer a visão, equivocada mas verossímil, de que o povo "é mais povo" quando domesticado e manipulado pelo brega-popularesco.

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