sábado, 28 de maio de 2011

ELITES APOSTAM NO BREGA-POPULARESCO PARA FREIAR MOVIMENTOS SOCIAIS


FOTO DE JULIEN LAGARDE MOSTRA MOVIMENTO M-15 NA ESPANHA, PROTESTO POPULAR CONTRA A CRISE POLÍTICO-ECONÔMICA QUE ATINGE O PAÍS.

Por Alexandre Figueiredo

Investe-se pesado nos ídolos da pseudo-cultura popular brasileira, com recursos financeiros aparentemente infinitos. Seus ídolos fazem apresentações cada vez mais superproduzidas. Vários deles fazem turnê no exterior. Outros arrancam verbas públicas através da Lei Rouanet.

Sem falar que cientistas sociais, com a dedicação dos antigos militantes do IPES-IBAD, tentam defender o brega-popularesco como se fosse "a cultura das periferias", com o cinismo de pedir para que desprezemos questões estéticas, um procedimento claro de uma intelectualidade corrompida, que chega ao ponto de brecar o senso crítico, em vez de levá-lo adiante.

A cada vez que eclodem revoltas populares no exterior, seja no Oriente Médio, seja na Europa, as elites brasileiras que controlam o entretenimento entram em ação, para manter as classes pobres quietinhas nas suas "brincadeiras".

Para piorar (segundo a burguesia), esses movimentos nem sempre possuem um caráter ideológico definido, mas tornam-se espontaneamente crescentes, denunciando a opressão capitalista, as injustiças sociais e, no caso de países como Egito e Tunísia, regimes ditatoriais.

Mas na Europa há a revolta contra a figura corrupta e cafajeste do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e, mais recentemente, na Espanha, o Movimento M-15, "Democracia Real Ya!" (Democracia Real Já!), comandado por militantes juvenis e difundido pelas redes sociais da Internet.

A crise do capitalismo e a opressão política - sobretudo da parte dos EUA, que ainda mantém uma prisão militar em Guantánamo e trata o prisioneiro Bradley Manning, informante do Wikileaks, da mesma forma que nós conhecemos sobre os presos políticos do período do AI-5 no Brasil - fazem com que tais manifestações eclodam num processo histórico que pode não ser inédito, mas é surpreendente pelos seus próprios contextos.

No Brasil, país onde as tensões sociais também acontecem, um casal de ambientalistas foi morto no mesmo Pará "ensolarado" pelo tecnomelody. O casal José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher Maria do Espirito Santo da Silva foram assassinados no entorno de uma comunidade próxima a Nova Ipixuna, sudeste do Pará.

O casal teria sido atraído por uma emboscada armada por pistoleiros a mando de fazendeiros locais. Os dois recebiam ameaças de morte. Um dos pistoleiros chegou a arrancar a orelha de uma das vítimas. A ameaça de morte havia sido denunciada por Zé Cláudio antes de morrer.

Na Câmara dos Deputados, quando José Sarney Filho apenas lia a reportagem sobre a morte do casal, um grupo de deputados ruralistas chegou a fazer vaias, em total desprezo às vítimas. Ironicamente, o pai do deputado, senador José Sarney, faz parte dos ruralistas.

É sintomático que, diante de tantas tensões sociais, reacionários e conservadores - as duas denominações se diferem porque aqueles agem na ofensiva, enquanto estes atuam na defensiva - fazem o que podem para evitar o avanço das manifestações sociais do país.

CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Não bastasse a grande mídia promover uma imagem depreciativa dos movimentos sociais, reduzindo-os a "hordas de agitadores desordeiros" ou coisa parecida, políticos, empresários e outros membros das elites organizadas chegam a mover processos judiciais contra ativistas sociais que passem por cima de seus interesses.

Mas existem também internautas que despejam sua fúria contra quem questiona o estabelecido. Uns até se dizem "amigos do povo", "solidários à cultura popular", desde que o povo pobre cumpra o papel previsto do "sistema", que é praticamente de bobo-da-corte das elites esnobes e dominadoras.

Uns investem no discurso furioso, no esgotamento de todo seu arsenal argumentativo, de muitos pontos discutíveis, mas construídos de forma verossímil. Quando se esgota, o "argumentador" parte para a ofensiva, xingando ou dizendo desaforos.

A realidade oculta pela grande mídia assusta as pessoas. Levar à luz essa realidade oculta faz com que várias pessoas imaginem que se trata de um "relato rancoroso", lendo textos que contestam o "alegre país" veiculado por Luciano Huck, William Bonner, Fátima Bernardes, Galvão Bueno, Xuxa Meneghel e Fausto Silva.

Mas desde os anos 90 ter senso crítico é algo discriminado pela "sociedade organizada". A expressão da consciência crítica é tida como "radical", "rancorosa", "desesperada", "pessimista", mas isso se deve porque a maior parte das pessoas está acostumada a ter uma perspectiva de país propagada desde os tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar.

GRANDE MÍDIA E BREGA-POPULARESCO: CUMPLICIDADE

O Pará é o "Oriente Médio" brasileiro. Chega a ser curioso que sua capital seja Belém, o mesmo nome da terra natal de Jesus Cristo, e atualmente cidade localizada na Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel (país árabe tutelado pelos Estados Unidos).

E se verificarmos o contexto de lutas do campo que envolvem Norte e Nordeste e, por outro lado, da indignação popular que se começa a ter contra a estereotipação cultural do brega-popularesco, nota-se o quanto a reação das elites contra o desgaste dos ídolos brega-popularescos, sejam as musas "calipígias", sejam os músicos da Música de Cabresto Brasileira, toma qualquer tipo de investida para tentar salvar esses ídolos da mediocrização cultural do Brasil.

Investe-se tanto em internautas enfezados quanto numa intelectualidade amestrada tanto pelos delírios pós-caetânicos quanto pelas visões tucano-uspianas de "cultura popular". Os primeiros, com desculpas quase esforçadas mas menos sutis, que no momento extremo se transformam em acusações infundadas ou xingações. Os segundos, com uma retórica "socializante" que tenta até mesmo livrar a culpa da grande mídia pelos fenômenos brega-popularescos.

Afinal, virou moda dizer que esses fenômenos de "grande sucesso popular" surgiram das redes sociais. O que é um erro. Também é outro equívoco que tais "sucessos do povão", seja de qualquer parte do país, causem pavor ou repugnância na grande mídia.

Afinal, descontado um protecionismo elitista da revista Veja e do jornal O Estado de São Paulo, toda a grande mídia apoia e até patrocina tendências como o tecnomelody, o "funk carioca" e tantos outros. E tendências "sofisticadas" do brega-popularesco, como o "sertanejo", o "pagode romântico" e a axé-music, além de alguns ídolos do "funk melody" e do "forró eletrônico", aparecem tranquilamente na revista Caras.

A cumplicidade da grande mídia e do brega-popularesco não deve ser considerada "coincidência", como alegam alguns de seus defensores. Afinal, o tema "cultura" tornou-se o último refúgio da manipulação midiática, diante do bombardeio de denúncias que afetam o noticiário político.

Pouco importa se a ala "concorrencial" da TV aberta e da grande imprensa também divulga os ídolos popularescos. A lógica acaba sendo sempre esta: fazer o que a Rede Globo e a Folha de São Paulo fazem.

Os grupos Folha e Abril e as Organizações Globo também contam com periódicos "populares", que nem por isso fogem do contexto dominante da grande mídia. Pelo contrário, mostra o quanto o modelo oficial de "cultura popular" agrada e muito os interesses dos barões da grande mídia, por manterem um mercado dominante e milionário que existe por trás desses ídolos "populares" e por manter o povo submisso e sob controle do poder político-midiático.

Afinal, interessa às nossas elites que o povo seja culturalmente subordinado, mantido no subemprego, na prostituição e no alcoolismo, consumindo músicas e valores provenientes de uma mídia sub-colonizada e conservadora. Assim, pelo menos dois terços da população brasileira são desestimulados a efetivar os movimentos sociais que apavoram os grandes senhores do capitalismo no seu sentido político e econômico.

Dizer essa realidade gritante, definitivamente, não é "ser rancoroso". É mostrar a verdade oculta dos fatos.

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