sexta-feira, 27 de maio de 2011

A DISCRIMINAÇÃO DO SENSO CRÍTICO


OTÁVIO FRIAS FILHO - Há 20 anos atrás, falar mal dele era coisa de gente "revoltada demais" com a vida.

Por Alexandre Figueiredo

Desde os anos 90, ter senso crítico virou alvo de autêntico preconceito. Se alguém expressava uma opinião crítica sobre determinado assunto, que ia contra a visão oficial que se tinha do mesmo, era visto como alguém "revoltado demais", que vivia "de mal com a vida", era "rancoroso" e por isso era tido como "anti-social" e outros adjetivos mais mórbidos.

Isso agia em preocupante contradição com o que ocorria nos primeiros quatro anos do regime militar. Pois afinal, se, lá pelos idos de 1965, quando os generais que comandavam a República afirmaram que vieram para ficar, o senso crítico ainda era uma atividade comum na sociedade, enquanto, nos anos 90 eminentemente democráticos, ter uma opinião crítica não passava de uma frustração de revoltados, é sinal de que alguma coisa está errada.

E esse erro vem justamente pelo fato de que o regime militar, sobretudo a partir do "milagre brasileiro" - quando se estabeleceu um paradigma de "nação feliz", a despeito das tensões ocultas pelas circunstâncias - , criou as condições psicológicas para a sociedade que, passando de pais para filhos, fizeram os mais jovens (crianças ou não-nascidos na vigência do AI-5) herdarem dos pais ou demais tutores (mesmo babás e domésticas) os mesmos temores sociais das elites e de parte domesticada das classes populares vividos no apogeu do regime militar.

Nos últimos cinco anos, a situação melhorou muito, porque o senso crítico ensaia uma recuperação gradual. Mas vez que outra surge algum internauta, seja por boa-fé ou por puro reacionarismo, dizer que determinadas abordagens críticas são supostos frutos de algum rancor ou de alguma revolta extrema e, por isso, anti-social.

Grande engano. O problema não é que os textos soam rancorosos ou demasiado indignados. O problema está no fato do leitor assustado desses textos acreditar num país mais dócil, de ter perspectivas sonhadoras e positivistas (no sentido da doutrina de Auguste Comte), que encarar textos críticos causa um grande choque, porque vão contra o "estabelecido".

FOLHA DE SÃO PAULO: UM BOM EXEMPLO

Hoje a Folha de São Paulo é considerada um símbolo da imprensa decadente, retrógrada, quase medieval, e recentemente Raphael Tsavkko Garcia pôde nos alertar até mesmo do apoio que o jornal deu a uma manifestação de grupos neo-nazistas solidários ao deputado Jair Bolsonaro.

Além disso, a Folha pôde mesmo ser parodiada por dois irmãos blogueiros, Mário e Lino Bocchini, através de um blogue que goza com o nome do jornal, "FAlha de São Paulo". Ainda que a Folha tenha reagido com um processo judicial contra os dois, ridicularizar a Folha é um ato socialmente aceito e estimulado. Até o Sr. Cloaca, lá dos Pampas, dá suas beliscadas no periódico paulistano.

Mas houve um tempo em que não era assim. Não fazia muito tempo. Há cerca de 20 anos, a Folha de São Paulo era endeusada, era um totem inatingível, tal qual era José Serra na mesma época.

Eu mesmo notava o entusiasmo com que muita gente lia a Folha de São Paulo, sobretudo uma classe média que arrogava ser "formadora de opinião" e por isso "detentora da verdade" na sociedade dita organizada. Muitas dessas pessoas assinavam com orgulho o periódico paulista, em qualquer parte do país, e se achavam "intelectuais" por causa disso.

Os primeiros textos que contestavam o poder da Folha de São Paulo também eram vistos como "rancorosos", "revoltados demais" ou coisa parecida. Quem com alguma visibilidade tinha coragem de pôr em dúvida o prestígio de Otávio Frias Filho, um homem que até se envolvia com belas mulheres e era tido como um intelectual influente?

Imagine então se alguém parodiasse a Folha de São Paulo tal qual os irmãos Bocchini, ou o jornal fosse "beliscado" de vez em quando por alguém chamado Sr. Cloaca ou mesmo por um jornalista do prestígio de Paulo Henrique Amorim. A "opinião pública" pouco se importaria se esses indivíduos fossem para a cadeia, por desafiarem o prestígio aparentemente inabalável de um jornal considerado por muitos como "heróico".

Imagine então se alguém fosse relembrar o envolvimento da FSP com o regime militar? Não raro surgiria outra pessoa irritada perguntando: "Em que mundo você vive, afinal?", "Hoje são outros tempos, a Folha é o moderno bastião da liberdade humana".

OUTROS TEMPOS

Aparentemente, a Folha de São Paulo havia virado a casaca e se transformado, nos últimos dez anos, num periódico ranzinza e reacionário. Teria abolido até mesmo o único espaço para o pensamento de centro-esquerda no jornal, o caderno Mais!.

Mas um dos dissidentes da Folha de São Paulo, o hoje jornalista de Caros Amigos, José Arbex Jr., havia escrito um capítulo sobre o jornal no livro Showrnalismo: A mídia como espetáculo (Casa Amarela, 2001), dizendo que o "Projeto Folha", projeto aparentemente moderno implantado pela FSP em 1984, foi uma farsa desde o começo.

Arbex escreveu que, entre outras coisas, o jornal passou por uma espécie de "higienização ideológica", expulsando de sua redação jornalistas veteranos de posição esquerdista, substituídos por recém-formados em jornalismo que fossem ideologicamente "neutros".

Dos anos para cá, a própria Folha de São Paulo ajudou a promover sua imagem reacionária, se tornando, em seu noticiário político, quase que um house organ do PSDB. E a cada ano o "moderníssimo" jornal tornou-se um periódico antiquado, e até mais grotesco do que o retrógrado mas elegante Estadão.

E muita gente pode criticar os equívocos da Folha de São Paulo sem que sejam vistas como "revoltadas demais" ou "rancorosas". Ponto para o senso crítico.

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